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Porque A Arte Somos Nós

“Convém que somente a alma do filósofo tenha asas: nele a memória, pela sua aptidão, permanece sempre fixada nessas Verdades, o que o torna semelhante a um deus”

Fedro” (Martin Claret, 128 p.) é um dos mais bonitos escritos de Platão (427 a. C. – 347 a. C.). Não se deixem enganar pelo número pequeno de páginas, a discussão é profunda e elenca vários pontos do pensamento do discípulo de Sócrates. E não à toa, o autor coloca em cena “O Pai da Filosofia” e Fedro, que se encontram quase próximo do meio-dia e se animam a conversarem sobre um belo discurso escrito que este último traz debaixo do braço, feito por Lísias. Super entusiasmado, fala a Sócrates acerca da beleza da peça, ao que o interlocutor, com o seu viés racionalista, aguarda com cautela.

Encaminham-se para uma sombra de árvore próximo a um regato fora do centro de Atenas e colocam-se a dialogar. Sócrates ouve atentamente a peça e perguntado sobre o que achara, ri com ironia e diz que o discurso tem boas doses oratórias, mas que lhe falta conteúdo. Parece afirmar que Lísias fala bem, mas que não sabe ao certo nem sobre o que está falando. Como o tema era o amor, propõe-se a proferir uma palestra acerca do tema, e o engraçado é que decide fazê-la deitado e cobrindo a sua cabeça (excesso de timidez?).

Platão

Platão coloca nas palavras de Sócrates uma das mais belas metáforas e consequente mito sobre o amor. Aborda o cocheiro e os seus corcéis alados, sendo que um era branco e consequentemente responsável para dirigir a carruagem para as trilhas do bem, sendo que, em determinado tempo este cocheiro conseguirá adentrar o mundo perfeito das ideias e visto o verdadeiro amor, mas como todos nós somos decaídos e, por isso estamos em constante busca, pois bem, o outro corcel, o preto, era o da concupiscência, aquele que fazia forças para desviar a parelha do seu bom destino. E cabe ao cocheiro sempre reprimir os desejos vis do mero prazer para somente assim intentar galgar os céus.

A oratória de Sócrates é perfeita, muito bem concatenada, e a distinguir que existe profundidade no que diz, aventando aí a um importante e fundamental ponto da filosofia platónica: a do mundo perfeito das ideias (inteligível) em contraposição ao mundo sensível e concupiscente do efémero e não verdadeiro.

Fedro, jovem aprendiz, tende a considerar o mito do seu interlocutor mais apropriado e diz isso a Sócrates, visto aqui como um verdadeiro mestre. Um outro ponto fundamental e diferenciador diz respeito ao facto de Platão não valorizar muito a escrita, sendo que o seu personagem Sócrates cita a Fedro que essa atividade servia para deixar todos mais relapsos e preguiçosos, não se esforçando via memória num embate que ainda era com a simples oralidade. Aqui evidencia-se a dicotomia entre os sofistas e os filósofos, na visão de Platão.

Enquanto os primeiros não se preocupavam com a essência da verdade, mas apenas com as verdades aparentes, e para tanto Platão cita brilhantemente políticos e advogados, caberia aos filósofos depurar o joio do trigo e investigar as coisas no seu cerne, e esse seria o processo fundamental do verdadeiro pensamento. Sócrates decreta: “Nos tribunais, portanto, ninguém se preocupa com o conhecimento da verdade, mas só se cuida de saber o que é verossímil“. Dá para sentir que Sócrates não tem Lísias em boa conta.

Sócrates

Parte engraçada do diálogo é quando Sócrates afirma: “Uma inveterada preguiça de espírito impede-me de me lembrar em que condições e de que pessoas ouvi essas coisas“. Isso chamou-se a atenção pelo seguinte: sem saber, há muito utilizo essa expressão de modo a evitar diálogos estéreis e com pessoas que não valem a pena. Quando instado por alguns amigos a perorar, brinco: “Ah, isso me dá preguiça”. Então, eu estava sendo socrático e não sabia!

Embora respeitosa, e isso denota verdadeira amizade, percebemos em Sócrates o tempo inteiro se segurar para não expressar o seu pouco apreço por Lísias e pelo seu método, de forma a não constranger Fedro. Algo que não sabia e que me chamou a atenção no diálogo foi o facto de as cigarras que cantam nas árvores serem identificadas como reencarnações das musas, e elas embalaram a prosa que tomou toda a parte do pós meio-dia.

Um diálogo que aborda diversos mitos, a ironia socrática de não se entender inteligente o suficiente e delegar tudo aos deuses, a ponto de, na despedida, proferir uma oração ao seu deus pedindo-lhe para que lhe desse as coisas sob medida, sem mais nem menos, pois se contentaria com a moderação que sempre norteou a sua vida.

Mais tarde, Platão irá aventar que Lísias foi um dos que urdiram para a instauração do processo que culminaria com o julgamento e consequente condenação de Sócrates. Vale ressaltar que a grande parte dos diálogos platónicos carece de uma cronologia adequada, uma vez que vários copistas adaptaram sentenças, ordenamento, mas através de pesquisas dá para se catalogar cada um destes diálogos, peças filosóficas importantes sim, mas que lidas separadas acabam deleitando-nos com o seu alto teor literário. Lendo Fedro, senti-me conversando com Sócrates e assim como Fedro, aprendendo com o mestre. E o que é melhor: colher as lições com o fino da ironia do autor da célebre “Só sei que nada sei”…

Marcelo Pereira Rodrigues

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