OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Nota do O Agente Literário: este é um livro em construção. Embora já publicado em Portugal com o título “Os Sentimentos das Sombras“, para a 2.ª edição estão sendo feitos ajustes e acréscimos. Ao propormos ao Barrete a sua publicação por partes, entendemos que cairia no gosto de um público mais adolescente e jovem, motivo ao qual nos orgulhamos de iniciarmos aqui a nossa saga, ou melhor dizendo, a saga de Cíntia.

Capítulo I

O silêncio era tanto que Cíntia conseguia ouvir os batimentos de seu coração. Calmos e ritmados, percebeu que seguiam o trotar dos quatro cavalos que puxavam a carroça. Com a neblina expeça, não conseguiam ver nem mesmo um palmo a sua frente. Suspirou e deixou que os cavalos as guiassem. Já haviam andado muito por essa estrada, ao ponto de saber a localização de cada pedra. Mas tinham que tomar cuidado. Após o rigoroso inverno, o chão estava uma mistura de gelo e terra molhada. Não podiam derrubar a carroça. Afinal, muitas vidas dependiam dos alimentos que transportavam.

Sentiu o vento e deixou que desarrumassem alguns fios de seu coque simples. Já se passavam horas desde que saíram do castelo de Asteroidea. A estrada era longa, passando ao sul das altas Montanhas Noviças e indo em direção ao sudeste do reino de Virditas, onde grandes conjuntos de pedregulhos tornavam a terra infértil. Muitos foram deixados ali para morrer… pensava. Camponeses, que perderam suas terras para nobreza, lutavam contra a negligência de seu próprio rei. Por um minuto fechou os olhos, e tentou apenas apreciar a viagem que faziam mês após mês, em uma tentativa de aliviar seus pesares.

Leura, ao contrário de Cíntia, estava pouco à vontade. Olhando para todos os cantos, sentia seus nervos atiçados, e hora ou outra pulava ao ouvir qualquer barulho estranho. Por um breve momento observou a face de sua colega, que estava sem nenhuma ruga de preocupação. Como pode ela estar tão tranquila? Principalmente ela! E, como se Cíntia lesse seus pensamentos, soltou uma risada e falou:

— Ninguém nos reconhecerá com essa neblina. Por isso, vir neste horário é tão importante.

— Ao menos podemos usar nossas capas? — Leura tirou de um saco duas capas longas com capuz, e jogou uma para sua amiga. Cíntia ficou indiferente, e quando viu que sua companheira já havia colocado o manto, entregou-lhe as rédeas da carroça e começou a vestir o seu. Sabia que, naquele horário, não havia ninguém na estrada. Porém, se as colocassem, achou que poderia tranquilizar a alma aflita ao seu lado.

Leura, ao observar a amiga, viu sua blusa e calça preta sumirem diante da capa azul que colocava, obscurecendo seu delicado rosto e tampando seu coque simples. Preto. Refletiu consigo mesma. Ela sempre usa preto. Ninguém usa essa cor nos cinco reinos. Apenas em dias de luto. Entretanto, esse não era o único mistério que Cíntia possuía. Sua vida inteira era composta deles. Ninguém sabia quem fora realmente, nem de que reino viera, ou quais eram seus verdadeiros objetivos. Porém, tinha o conhecimento que a garota não responderia suas perguntas, desviando-se assim como desviaria de facas e flechas. Deixou que essas incertezas povoassem seu pensamento por um tempo, até que se contentou em dirigir a ela apenas uma pergunta:

— Por que faz tanto esforço para vir aqui todo mês, arcando com os custos e com a organização?

— Devemos, então, condenar essas pessoas?

— Não, só acho estranho o facto de você querer ajudá-las sabendo que te matariam se soubessem quem você é. — Leura a confrontou. Viu sua colega pegar novamente as rédeas, com seu rosto indistinguível devido a neblina, para depois a responder:

— Ao longo desses anos fiz muitos inimigos poderosos, — com um tom sério, a guerreira apenas olhava para frente, como se divagasse por suas palavras. — mas não será isso que me impedirá de fazer o certo.

— O problema é se esse “certo” nos colocar em perigo. — Insatisfeita com a pouca informação que sua amiga lhe dera, jogou a cabeça para trás e olhou para a faixa branca que pairava sobre elas. — Sabe muito bem que o rei Félix a proibiu de entrar no reino de Virditas. Se ele nos pegar, nos enviará para o rei Eliseu, e sabe-se lá o que ele fará connosco.

Cíntia sentiu um calafrio de repulsa percorrer pelo corpo. Félix, rei de Virditas, era um inimigo declarado da rainha Catarina, do reino de Asteroidea, o que aumentava ainda mais a tensão entre os cinco reinos. Ele, por mais que não fosse uma das cabeças que lideravam as investidas contra o reino de Asteroidea, era altamente influenciável pelo seu melhor amigo, Eliseu, rei de Carbunculus. Sob o comando do seu aliado, o rei de Virditas não só reclamou todas as terras férteis para a nobreza como também fez acordos que aumentaram o endividamento do reino, levando, aos poucos, o restante de sua população para a miséria, enquanto uma pequena faixa usufruía da riqueza que restava.

— Ele não irá nos pegar. — soltou uma leve risada. — Sempre venho espionar o castelo, e, mesmo depois de anos, ele nunca me pegou. Não será em uma viagem aos subúrbios do reino que ele conseguirá isso.

— Poderia até ser, se as condições fossem diferentes. Você sabe que depois de amanhã é o baile de Cássio, e gostaria de lembrá-la que todos os reinos redobraram a guarda nas fronteiras. — com seus grande olhos inquisitivos, Leura voltou-se novamente para Cíntia, que continuava na mesma postura tranquila.

Depois de amanhã seria o aniversário de dezoito anos de Cássio. Cíntia refletia o significado dessas palavras consigo mesma. O aniversário de dezoito anos era muito importante para os herdeiros do trono. É quando atingiam a maioridade, faltando apenas mais um requisito para que pudessem reivindicar o trono: os três anos como general do reino. Cássio entrou para a guarda quase completando seus 16 anos, faltando, assim, menos de um ano para poder proclamar-se rei de Carbunculus.

 — E ele será igual ao pai. — a guerreira, sem perceber, insinuou em voz alta, chamando a atenção de sua colega. — Arrogante, impaciente e extremamente cruel. Espero que tenha uma oposição à altura.

— De todos os futuros reis e rainhas, ele com certeza será o pior governante. — confirmou Leura, o que levou a guerreira pensar o futuro próximo. — Que a deusa tenha piedade de seus súditos.

Além de Cássio, havia apenas dois outros herdeiros: Nataniel e Anny.

Nataniel era o primogénito de Ager, outro reino inimigo de Asteroidea. No entanto, por mais estrategista que fosse, ele, ao menos, não tinha a ganância incrustada no peito como Cássio. Para ele, ter controle de seu reino e seguir as regras sagradas eram suficientes para garantir um bom reinado. De qualquer maneira, ele encontrava-se longe de governar, mesmo sendo o herdeiro. Estava para completar 21 anos, contudo, ainda não fizera nenhum ano como general do reino. Parece que temos um rei que não quer que seu filho assuma tão cedo. Soltou uma leve risada.

Tinha também Anny, a princesa de Ignis, o único reino que estabelecia acordos comerciais com Asteroidea. Uma pena que logo será vendida para um casamento arranjado. Era sempre assim. Todas as mulheres dos cinco reinos casavam-se antes dos dezoito sob imposição do seu pai. E ela já estava com quinze anos. Provavelmente um duque do reino pediria sua mão, e, depois de seus anos no exército, assumiria em seu lugar. Tão injusto.

Ainda havia o reino de Virditas e Asteroidea, que não possuíam herdeiros para assumi-los. Anabell, a princesa de Virditas, fugira de casa aos sete anos, e foi considerada morta. Já a rainha Catarina nunca sequer tivera um filho que pudesse assumir o seu lugar. Dizem que o rei Félix tem pensado em um acordo para que Cássio assumisse o seu reino também, mas por enquanto nada concreto.

— Sabe quem daria uma ótima rainha e, ainda, rival para Cássio? — após perceber que Cíntia não iria mais falar, Leura tentou animar o clima entre as duas.

— E quem seria essa rainha? — entrou na brincadeira, pensando que assim poderia acalmar os ânimos de sua amiga.

— Você, Cíntia Baldgrim.

Cíntia puxou as rédeas dos cavalos com tanta força que eles elevaram as patas da frente, parando a carroça. Arregalou os olhos e cerrou os dentes, ainda voltada ao turvo branco a sua frente. Com o coração acelerado, perguntou a Leura:

— Como assim?

— Ora Cíntia, você sabe muito bem o que estou falando. Você já completou três anos como a primeira general mulher dos cinco reinos, além de, acredito eu, já ter idade suficiente para assumir Asteroidea. Imagine só, termos a primeira mulher independente como rainha!

Não, Cíntia não era a primeira mulher independente dos cinco reinos. Pelo menos, não ainda.

Respirou fundo e analisou os argumentos de sua amiga. Era verdade que já completara três anos como general do exército de Asteroidea. Fora a primeira mulher a se ingressar no mais alto cargo do Exército. E todos os outros reinos a repugnavam por isso. Desde que fizera sua primeira prova para assumir o cargo, com quase quinze anos, virou motivo de risadas dos outros reis, herdeiros e generais. Entretanto, seu talento era visível, e, desde então, ninguém conseguiu alcançar as marcas que ela havia deixado para trás. Cássio a odiava por isso. Nunca conseguia vencê-la durante as Provas dos Cinco Reinos, um festival que tinha o intuito de representar a grandeza militar de cada lugar. E, para uma monarquia onde a mulher não poderia sequer portar uma espada, era um absurdo que o filho do reino mais rico perdesse para ela.

Mas o ápice foi quando a rainha Catarina declarou publicamente que Cíntia seria a primeira mulher independente dos cinco reinos.

Normalmente, qualquer criança do sexo feminino teria um tutor, uma pessoa a qual seria subordinada e que tornaria detentora de sua liberdade. No primeiro momento, seria o pai que, de acordo com a primeira regra sagrada, possuiria a obrigação de zelar e guardar esse indivíduo, o que faria desta, escrava de suas vontades. Essa guarda duraria até os 18 anos e, se ela não acatasse suas ordens, uma pena em forma de dor cairia sobre seu corpo, até que ela aceitasse seu destino.

Já a segunda regra sagrada determinava que, quando essa garota fazia o juramento perante o matrimónio, o novo tutor seria seu marido, que passaria a ter sua liberdade pelo resto de sua vida. Sob a mesma pena que a primeira regra, a maioria das mulheres se casavam antes dos dezoito anos, quando ainda deviam obediência ao seu pai e ele escolheria o melhor marido para ser seu tutor, fazendo do casamento apenas uma troca de poderes.

Não se saberia ao certo quando e como foram criadas essas regras, nem como elas exerciam tanto poder sobre a mulher para forçá-las a fazer o que foi imposto. Contudo, alguns acreditavam que fora feita pela própria Deusa-Mãe, chamada de Iutitiae, uma vez que a mulher não conseguiria comandar a própria vida. Restava, portanto, para a mulher apenas uma escolha: aceitar para não sofrer com a dor.

Destaque de Bárbara Kristina na Revista Conhece-te

Cíntia, por outro lado, era órfã, o que a fez escapar da primeira regra. Geralmente, os órfãos e as viúvas eram forçados a fazer o juramento de submissão ao rei de seu reino de origem. Porém, ninguém sabia de onde ela era. A única coisa evidente era que ela era uma mulher que não tinha submissão ao pai e nunca teve um marido. E quando completasse seus 18 anos, poderia enfim ser considerada a primeira mulher livre. Bem, ainda não! Pouco sabiam, mas faltava um pouquinho para completar a idade correta.

— Gostaria de lembrá-la que não estou na linhagem real de Asteroidea. Não acho que seria apropriado eu assumir o reino. — falou com firmeza, enquanto dava o sinal para os cavalos continuarem o percurso.

— E quem se importa? Até parece que seria o primeiro costume que quebra. — jogou os ombros para o alto, por mais que Cíntia mostrasse claramente que não queria continuar com a conversa. — Ainda acho que você seria uma ótima rainha. Acompanho o quanto você treina, além de ficar os dias todos em cima de livros e mais livros. Não acredita mesmo que a rainha Catarina estivesse te preparando para governar?

— Bem, — disse, percebendo que sua colega acertara em partes. — não acho que tenho que me preocupar com isso, já que quem provavelmente assumirá o reino será você, duquesa de Nedea.

— Muito engraçado, Cíntia! — forçou uma risada sarcástica. — Você sabe muito bem que eu não quero governar Asteroidea. Gosto da minha vida assim. Não quero ser rainha.

— Engraçado mesmo é pensar que a duquesa que carrega o nome de Nedea não quer estar no poder. — entrou na conversa de Leura, em uma tentativa de parar com ela.

Leura fez silêncio por um breve momento. Cíntia viu seu peito subir e descer várias vezes em suspiros. Vendo os seus olhos vagando para longe, a guerreira sentiu que tocara em um assunto muito delicado para a sua colega, e, por um momento, encolheu em sua capa, pensando que não teria resposta. Até que surgiu uma.

— Por favor, não me chame mais assim! Detesto ser lembrada disso.

— Não entendo. Não deveria ter vergonha de seu título.

— É que ouvi coisas terríveis sobre meu pai e meu irmão. Felizmente, nem ao menos lembro-me deles. Eu tinha um pouco mais de dois anos quando eles se foram. Dizem que o duque de Nedea teve duas esposas, e as duas foram mortas por ele. Já meu irmão, Jaman… Não gosto nem de comentar o que fez. Causou danos irreparáveis ao reino de Asteroidea. Todos os dois tiveram o que mereciam. Sei que deveria ter raiva da rainha Catarina… Mas mesmo quando eles fizeram-na passar por tudo aquilo, ela cuidou bem de mim. Ao contrário dos outros reis, que tem seus órfãos como servos, ela sempre deixou que eu escolhesse meu caminho. Nunca me impôs nada. Tenho mais liberdade agora do que se os dois estivessem vivos…

Há pouco mais de duas décadas, quando Catarina havia acabado de se casar e seu marido assumira o reino de Asteroidea, houve uma terrível guerra civil, que durou aproximadamente dois anos. Esta guerra surgiu devido a um impasse que dividira a nobreza em duas durante o governo de seu pai, Saliam Masferum. Catarina era uma jovem princesinha de 12 anos quando uma terrível enchente assolou as terras cultiváveis do reino, matando a maioria dos grãos que precisavam para sustentar a população de Asteroidea. Com medo de que houvesse rebelião naquele inverno, Saliam assinou um tratado que prometia aos comerciantes pesqueiros títulos de nobrezas caso eles conseguissem resolver o problema da comida. Assim feito, surgiu a Nova Nobreza.

A nobreza original não ficara nada satisfeita com o surgimento da Nova Nobreza. Intitulada de Nobreza Tradicional, eles fizeram protestos para que o rei revogasse o acordo, excluindo os que chamavam de indignos. Como punição ao protesto, Saliam rompeu o acordo de casamento de sua única filha com duque Jaman e deu a sua mão para o líder deste grupo social que surgia, um jovem capitão chamado Nency. O casamento foi marcado pelo assassinato do rei, e Nency assumindo como o novo rei.

O rei Nency permaneceu quase três anos no poder, durante a guerra entre as duas nobrezas. No final, quando seu marido já estava morto, Catarina armou um artifício para subir ao trono, uma vez que não possuíam mais herdeiros para assumir o reino. Como resultado, Asteroidea acabou tendo vários nobres, dos dois lados, que ficaram órfãos, além de a primeira mulher a governar sem um marido ao seu lado. Tendo sua liberdade vinculada ao reino – caso houvesse outro rei ela teria que seguir suas ordens – a rainha não só impunha nada aos órfãos, como também deixavam que eles escolhessem o caminho que quisessem trilhar. E, para uma garota que vinha de uma família tradicional como Leura, esse realmente era um grande presente.

— Ainda acho que seria uma excelente rainha. — Leura, com seus grandes olhos cinzentos, viu a guerreira voltar-se para ela. — Uma rainha muito amada.

— Se soubesse do meu passado, saberia que eu nunca seria uma rainha amada. — disse com o peso de sua consciência caindo sobre ela. Abaixou o olhar para o chão e deixou que a palavra amada ecoasse por sua mente, como em um túnel sem luz.

— Talvez, se você me contasse, eu poderia ajudá-la. — falou com a esperança de uma criança querendo ouvir uma história.

— Quem sabe outra hora. — Apontou para uma pedra em forma de tartaruga, onde só dava para ver seu vulto pela neblina. — Estamos chegando à aldeia.

Leura cruzou os braços e fez um pequeno bico com os lábios. Sabia que Cíntia arrumaria uma desculpa para não contar sobre sua vida. Ela sempre arruma uma. Mas o que ela poderia fazer? Se conhecesse alguma coisa sobre a guerreira ao seu lado saberia que ela nunca contara seus mistérios. Talvez, por medo. Ou talvez porque fizera algo de tão grave que não quisesse falar. E isso valia até mesmo para a amiga ao seu lado, que era de sua mais restrita confiança. A única coisa que Leura sabia era que apenas uma pessoa tinha a chave de todos os segredos da garota, e essa era a rainha Catarina. Para os outros, restam apenas questionamentos e especulações.

À medida que a carroça seguia no nevoeiro, estacas de madeiras e paredes de barro precárias projetavam com suas cores marrons e cinzas entristecedoras. Crianças e mulheres saíram por suas portas rudimentares feitas de peles de animais e seguiram a passos apertados em torno da carroça, ansiosos pelo pouco de comida que garantiria mais um mês de sua mísera sobrevivência. Cíntia observou as roupas esfarrapadas e as estruturas ósseas visíveis. Mais um mês difícil para eles. Não sei até quando irão aguentar.

Com um solavanco, os cavalos pararam, batendo seus cascos fortemente no chão. Estavam nervosos com a situação que se formara. Naquele momento uma multidão cercou a carroça, balançando-a em um ato desesperado de chegarem aos alimentos. Leura se levantou e pediu gentilmente para que formassem uma fila. No entanto, devido a turbulência que se instaurou, apressou sua colega:

— É melhor começarmos a distribuir os alimentos rapidamente ou enfrentaremos uma situação bem complicada.

Cíntia riu e sussurrou no ouvido da amiga:

— Ainda bem que sou general. Controlar situações complicadas é a minha obrigação. — Pegou um saco e passou para a mão de uma mulher, iniciando a distribuição. Leura soltou o ar em meio a um sorriso e a seguiu, ficando encarregada de entregar do outro lado.

Durante algum tempo, as duas ficaram na repetida tarefa de pegar o saco e entregá-lo a alguma mulher ou criança que aparecia. Mesmo com o tempo ruim, dava para ver o círculo de cabeças ao redor da carroça, aparecendo apenas como vultos pretos prestes a engolir tudo que ali estava. Depois de um tempo, Cíntia levantou-se para olhar essa massa escura. Porém, foi com desânimo que percebeu que, mesmo estando com menos da metade do carregamento, a aglomeração não havia diminuído nem um pouquinho sequer. Se reparasse bem, perceberia que até cresceu.

— Não teremos alimento para todos. Assim como nos últimos meses, a população necessitada cresceu ainda mais. — concluiu Leura, falando justamente os pensamentos da general.

Cíntia deixou o corpo pesar com essa afirmação. Pelo visto, mais uma vez, o reino de Virditas apunhalou a sua população, sucumbindo a gestão financeira em meio a gastos desnecessários e acordos mal formulados. Do que vale alimentos para o povo enquanto jóias e ouros eram adquiridos a altos custos para enobrecer a elite? Afinal, todos deveriam se sacrificar para manter a imagem do reino. Um reino, que, anos atrás, foi classificado como o segundo mais rico dos cinco, devido as suas valiosas minas de ferro, cobre e prata ao sul, além da extensa terra cultivável em seu interior. A guerreira não conseguia deixar de se sentir mal por tudo isso.

Porém, uma mulher e sua filha conseguiram melhorar o humor dela, através de uma ação diferente dos demais. A maioria apenas pegava as cestas com seus rostos emburrados e iam o mais rápido possível de volta a suas casas. Essa dama de cabelos brancos, ao pegar um dos últimos sacos da carroça, soltou um singelo sorriso e segurou o braço da guerreira, virando-a em sua direção:

— Agradeço pelos alimentos. Graças a eles, conseguimos sobreviver esses últimos meses escassos.

A general mudou de feição na mesma hora, surgindo um par de olhos vibrantes e um sorriso iluminado.

— Digamos que é apenas um pagamento de uma dívida do passado. — entregou mais um saco para a pequena menina, que disse um obrigado tímido por trás de um rosto ruborizado. Sua aparência era idêntica à da mãe, com exceção de seus marcantes olhos violeta. Por um momento, a guerreira cogitou em ajudá-la a carregar o pacote de volta para sua casa, devido ao tamanho da menina e ao peso que carregava com dificuldade. Todavia, quando Leura anunciou que acabaram todos os alimentos, sabia que era a hora de partir.

— Desculpe-me todos, mas não temos mais sacos para vocês. — gritou Leura para a multidão, que se dispersava com reclamações e pequenos pontapés na madeira. Cíntia respirou fundo. Mais uma vez, não conseguiram ajudar todos os necessitados. Sentou-se novamente ao lado de sua amiga, e puxou a rédea para que os cavalos dessem meia volta, em direção ao reino de Asteroidea.

Com a neblina começando a baixar e o entorno ficando um pouco mais visível, a guerreira não conseguiu conter a sensação de olhar novamente para aquela família que havia esquentado seu coração. Era uma mulher alta e bonita, com cabelos cacheados até a altura da cintura. A filha era tão bela quanto a mãe, e Cíntia reparou na delicadeza de seus passos, parecendo que era frágil como vidro.

Contudo, foi o que aconteceu a seguir que atiçou os nervos da general. Devido ao resquício de neblina, a garota não viu uma pedra à sua frente, fazendo-a tropeçar e cair de joelhos. Por mais que ela não tivesse se machucado, olhou com desespero quando percebeu que metade dos alimentos haviam se espalhado pelo chão. Por mais rápido que ela tentasse recolher, as galinhas e os cachorros que estavam soltos pela vila foram mais velozes e estavam comento tudo que havia caído. E seu pai, nada contente com a cena, segurou seu pulso e a levantou, gritando tão alto que todos pararam e olharam para eles.

— Olha o que você fez, sua garota inútil! Derramou metade do pacote! Isso não vai ficar assim!

— Por favor, papai, não me machuque! — suplicou a menina, chorando e soluçando desesperadamente por medo e por dor. — Desculpe-me, papai, por favor, não me machuque!

— Foi um acidente, Domas! Pela Deusa, deixe a menina em paz! — suplicou, agora, a mãe, desesperada com o que seu marido poderia fazer à criança.

— Caladas! — ao ver que as duas atenderam a ordem instantaneamente, voltou-se novamente para a garotinha. — Agora você vai ver o que fazemos com mulheres inúteis aqui!

Entretanto, quando tirou o chicote que estava enrolado na calça e o levantou para atingir a costas da garota, uma mão forte segurou seu braço, tão forte que ficou vermelho na mesma hora. Tentando processar tudo que aconteceu, Domas virou o rosto para encontrar-se frente a frente com Cíntia, que, com a neblina baixa e com o capuz caído em cima dos ombros, estava à vista de todos devido ao movimento da ação. O medo correu nas veias daquele homem. Sua presença foi tão assustadora, que ele soltou imediatamente a sua filha, que correu para os braços de sua mãe. Calmamente, a guerreira aproximou de seu ouvido, pronunciando palavra por palavra:

— Se você tocar um dedo nesta garota, a morte será um alívio devido a dor que você enfrentará.

Quando soltou o braço, a postura autoritária de Domas caiu, levando-o junto para o chão. E não era só ele que estava surpreso. As pessoas estavam todas olhando para ela, com a boca aberta e os olhos esbugalhados. Cíntia, com queixo erguido e lábios retos, que era sua postura habitual, olhou para Leura, que sinalizava algo do tipo “Temos que sair daqui agora!”. A guerreira, então, avançava em direção a carroça em passos decididos, enquanto ouvia sussurrarem: “Pela Deusa, é a Cíntia” ou “Chamem os guardas agora”. No entanto, uma mão a tocou no ombro, e, quase proferindo um golpe, percebeu que era a mãe da garotinha. Por sorte, havia parado a tempo.

— Obrigada! — tomou coragem e sussurrou, quando o marido já havia entrado, em estado de choque, para a residência.

— Não fiz mais do que minha obrigação. — respondeu, sentido todo o peso de ser uma general. Não podia sorrir, enquanto todos estavam ali, olhando para ela. Seria inadequado para sua posição. Por isso, fechou os olhos por um minuto e desejou que a realidade não fosse assim. Que ela poderia servir ao que ela ama e ser ela mesma, sem que as pessoas esperassem uma postura como aquela. Quando os abriu, estava perto da carroça, onde desamarrou um dos quatro cavalos, dando um leve tapa em outro para que prosseguissem sem ela.

— Você não vai fazer isso de novo!? — gritou raivosa Leura.

— Desculpa deixá-la partir sem mim de novo, porém tenho mais pendências a resolver.

E, assim, foi cada uma para um lado, com destinos diferentes. Cíntia deixou que o sol nascente, logo à sua frente, a inundasse com seu calor, esquentando cada músculo do seu corpo. Tinha um longo caminho, todavia, não tinha medo de guardas ou do rei. Já passara por ali tantas vezes que não precisava mais de guias ou mapas. Subiu no cavalo e começou a cavalgar devagar, deixando que o vento a orientasse com seu sussurro. Em poucos minutos a névoa branca a envolveu, não restando um rastro sequer de sua passagem por aquelas terras.

Bárbara Kristina

A escritora Bárbara Kristina

Bárbara Kristina Generoso Cotta Lopes é natural de Governador Valadares, mas cresceu em Itabirito, local que ama e considera como sua cidade. Cercada por livros desde pequena, já havia se manifestado artisticamente no teatro e no balé, contudo, com a chegada de desafios, novos caminhos foram descobertos, o que fez com que entrasse de vez no mundo da literatura. Aos quinze anos começou a escrever, e aos dezoito publicou seu primeiro livro, “Os Sentimentos das Sombras”, o que a deixou apaixonada por essa área. Agora com vinte anos, possui dois livros publicados, além de grandes expectativas para o futuro.

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