OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

“Quando empregamos demasiado tempo em viajar, acabamos tornando-nos estrangeiros na nossa própria terra; e quando somos demasiado curiosos das coisas que se praticavam nos séculos passados, ficamos ordinariamente muito ignorantes das que se praticam no presente”


– Trecho da obra “Discurso do Método”

Imagine que a sua mesa de trabalho está cheia de assuntos para decidir. Imagine que a sua mente está assoberbada de coisas para pensar e deliberar. Bem atual, não? E se passássemos a empregar métodos matemáticos para resolvermos isso? Se começássemos a deliberar a partir das coisas simples para os temas mais complexos, certamente caminharíamos com mais segurança neste mundo. Pois foi este o alicerce construído por René Descartes (1596-1650), um dos mais importantes filósofos da História da Humanidade.

É um destes marcos do pensamento, sendo impossível passarmos incólumes a ele, um dos poucos a quem podemos definir como antes de Descartes (a. D.) e depois de Descartes (d. D.). Que este artigo sirva como método. Através de uma explanação simples (não devemos partir das coisas simples?) irei convidá-los ao final a mergulharem nas obras do investigado. Nada muito complexo, a não ser as suas elucubrações matemáticas, mas como dizemos aqui em Minas Gerais, “vamos tomando o mingau pelas beiradas”.

O menino francês Descartes estudou num dos mais importantes colégios jesuítas da sua época, e ao fim e ao cabo tornou-se num cético contumaz. Saiu do ginásio duvidando de tudo e de todos. Viajando à sua época, era notório entendermos que o ensino da Filosofia se constituía dos clássicos gregos (os “Três Porquinhos” Sócrates, Platão e Aristóteles) mais os estudos dos religiosos medievais tais Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

Santo Agostinho

Como regra de pensamento, estávamos impregnados de metafísica platónica e do edifício aristotélico no modo de se conceber as coisas. René Descartes vem questionar todo este edifício e a partir da investigação do seu ato próprio de pensar (ele não duvidava de tudo? Pois bem, se ele duvidava de tudo era ponto pacífico que ele pensava. Certamente sentia as engrenagens do seu cérebro e espírito trabalhando). O.k., já dava para iniciar o estatuto da razão, e o sujeito foi tão feliz no seu intento que não à toa inaugurou o Racionalismo, que junto ao Renascimento cultural e artístico pretendem ser, ao lado do cientificismo em voga naqueles tempos, um modo mais seguro de se caminhar pela vida.

Aqui é importante ressaltar que ele avança em muitos pontos relativamente a vários artistas renascentistas que ainda estavam bastante impregnados ao ranço religioso (basta analisarmos as suas obras). Percebam só a quebra: Deus é solenemente convidado a se retirar da discussão. Descartes não é desrespeitoso, é inclusive temente a ele, mas irá investigar a forma certa de pensar e se colocar no mundo.

René foi um brilhante matemático. Elaborou a Geometria Analítica e outras matérias e foi com ferramentas matemáticas que passou a elaborar a sua filosofia. Para facilitar um pouco o entendimento, irei aludir ao edifício proposto por ele: o alicerce seria a sua própria dúvida. Como duvidava de tudo, partiu dessa premissa e elencando aquilo que seria lícito investigar, recorreu à Matemática.

Para pensarmos corretamente, seria ponto pacífico entendermos que 2 + 2 sempre será 4. E não 5, como na obra “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, de quem já tratei aqui. Só a partir de certas ideias inatas, aliada à matemática, poderíamos elaborar uma filosofia certa e segura. Mas o que seriam estas ideias inatas? Vem de inatismo, como certas ideias já prontas e irrefutáveis, que são impossíveis de refutar. Exemplo: quando vejo um cavalo no meu consciente já define que aquilo é um cavalo, e não um cachorro. E essas ideias inatas são um atributo de um Deus bondoso e infinito, que me faz ter premissas destas mesmas ideias.

A isso ele classifica como intuição, ideias que intuímos diferentemente da dedução, que é quando passamos a investigar essas máximas com aplicações práticas e, se matemático era, a palavra problema era sempre um problema para o nosso detetive. O que nos ensina Descartes: todo problema deve ser fragmentado em tantas partes quanto possível para caminharmos de modo mais seguro nesta vida. Costumo brincar que quando verifico o meu extrato bancário ao final do mês, a folha corrida informa-me as aplicações diárias e assim fico a saber as minhas finanças.

Aqui aparece uma contribuição cartesiana extraordinária dele para as ciências, sendo que, na prática, já devem ter percebido o quanto os cientistas decompõem análises e analisam, analisam, analisam. Devemos nos lembrar que Descartes está no tempo de Copérnico, Galileu Galilei e mais tarde Isaac Newton também irá dar conta disso. Observaram a diferença entre as concepções medievais e este método investigativo proposto por Descartes? Vou brincar um pouco: quando o Papa reza para que haja a vacina contra a COVID-19, ele é medievo. Quando os cientistas estão escondidos nos laboratórios acertando e errando, eles são cartesianos.

Galileu Galilei

Mas Descartes, também duvidando das suas próprias dúvidas, sendo investigativo ao extremo, pondera se de repente não seria um espírito maligno o que o levava a essas conjeturas e, se de repente, este não estaria zombando da cara dele. Pois, sabedor do ser imperfeito que era, como podia ter a concepção de seres infinitos e perfeitos? O nosso cientista investiga também se o que julgamos vigília não seria sonho e enquanto escrevo este artigo para enviar ao OBarrete, será que não estarei a sonhar quando tenho as minhas ideias lançadas e publicadas em Portugal? E se de um segundo para outro eu acordasse e percebesse que esse espírito maligno estava a debochar de mim?

Estudar Descartes leva-nos a um solipsismo. Nós estranhamos e investigamos a todo o momento a nossa própria condição. O atributo da razão é tamanho que enquanto escrevo estas linhas sinto as engrenagens do meu cérebro estalando. “Razão, razão, razão”, é o mantra cartesiano. Não à toa, o seu “Discurso do Método“, um dos livros fundamentais da Filosofia, é um estudo “para bem conduzir a Razão e procurar a verdade nas ciências”, sendo este inclusive o subtítulo. A primeira parte no seu primeiro parágrafo já nos aponta, cito:

O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm. E não é verossímil que todos se enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que o poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens;

e, descarte, que a diversidade das nossas opiniões não provêm do facto de serem uns mais racionais do que outros, mas somente de conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas. Pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, tanto quanto das maiores virtudes, e os que só andam muito lentamente podem avançar muito mais, se seguirem sempre o caminho reto, do que aqueles que correm e dele se distanciam“.

Deixei propositadamente para o fim a máxima do filósofo do “Penso, logo existo”. Ele chegou à conclusão de que o pensamento era o componente da sua existência, elevando a mesma a um status metafísico. Observando esta máxima nos dias atuais, e aludindo à proposição de que 2 + 5 = 7 e de que 5 + 2 = 7 (a ordem dos fatores não altera o produto), infelizmente não podemos aludir que existência e pensamento sejam atributos de todos, aliás, venho observando que aqui sim a ordem dos termos infere diferentemente no resultado, pois acreditem meus caros leitores do OBarrete, há muitas pessoas que apenas existem, mas que não pensam, já pararam para refletir sobre isso?

O Racionalismo cartesiano com o seu mantra “Razão, razão, razão” influenciou e muito os rumos da ciência e da filosofia nos séculos seguintes, sendo questionada apenas por estudiosos que levantaram a questão: tudo bem que Descartes elevou a Razão à condição suprema, mas onde entra a emoção nisso tudo? Pois bem, este é um tema para um outro artigo.

Quanto à utilidade que os outros colheriam da comunicação dos meus pensamentos, não poderia também ser muito grande, tanto mais que ainda não os levei tão longe que não seja necessário juntar-lhes muitas coisas antes de aplica-lás ao uso“.

– Trecho de “Discurso do Método”

Marcelo Pereira Rodrigues

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