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Porque A Arte Somos Nós

Ao longo dos meus artigos filosóficos panorâmicos, podem ter percebido a ênfase que dou à dita Civilização Ocidental e, no tocante à Filosofia, é mister aventarmos que ela é notadamente europeia. Dois milénios e meio do dito pensamento racional surgiu em solo europeu e agora é chegada a hora de aventarmos a um cisma que ocorreu nas Ilhas Britânicas e, neste sítio, abordarmos o filósofo John Locke (1632-1704), um dos mais importantes pensadores do seu período.

Locke foi um influenciador de costumes, um conselheiro de governo muito sensato, um propagador da tese de tolerância religiosa e do direito de propriedade, sendo considerado o “Pai do Liberalismo”. Em Locke observaremos um raro caso onde um filósofo conseguiu influenciar bastante o seu meio e ser celebrado pelo seu destacado trabalho.

Na área filosófica, John Locke rompe com o racionalismo de Descartes, de quem já tratei aqui, e refuta as ideias inatas professadas por este. Surpreende ao sugerir a noção de tabula rasa para todos aqueles que nascem, sendo esta expressão latina o equivalente a uma folha de papel em branco. Funciona mais ou menos assim: construímos a nossa história a partir dos nossos atos e ações, deixando de existir uma predeterminação de algo que já existiria. Este corte radical e refutação do inatismo é o diferencial da corrente que ficou conhecida como empirista, que advém da experiência que vamos acumulando a partir das nossas sensações e perceções.

René Descartes

Ideias são tão somente aquilo que depreendemos dos objetos que nos apresentam, e tudo isso é bastante interessante de se aventar. Lembram-se do mundo sensível e inteligível de Platão? Esqueçam isso. Tudo o que é lícito investigar e ter disso ideias são obtidos via sensações que captamos do mundo em que vivemos. Essa razão prática anglo-saxã delimita em muito a ilha do continente. Se perceberem com atenção, observarão que os estudos filosóficos mais especulativos, notadamente os metafísicos, são de origens gregas, alemãs, francesas, italianas e espanholas.

Ainda hoje, nas Ilhas Britânicas, sobressaem-se estudos mais pragmáticos, sendo o expoente maior a ex-colônia Estados Unidos da América, poucos propensos a uma investigação filosófica mais aprofundada. Concordam comigo? Essa corrente filosófica pragmatista apregoa obter o máximo de resultados com o mínimo de esforço empreendido.

Homem de seu tempo, Locke interferiu nos assuntos políticos e monarcas recorreram ao filósofo em busca dos seus conselhos. Defendia uma monarquia liberal e refutou a monarquia concebida por direito divino. Defendeu o direito à liberdade de propriedade, elaborando leis que evitassem a guerra de todos contra todos. Os seus escritos expressos no “Segundo Tratado Sobre o Governo Civil” ensina como uma sociedade se deveria organizar de forma a que os interesses pessoais dos cidadãos não prevalecessem sobre os interesses da sociedade como um todo (penso que muitos funcionários públicos burocratas estão a precisar de ler Locke). Leiam esta visão do alcance do filósofo, cito:

Por conseguinte, o grande e principal objetivo que leva os homens a se unirem em estados e a se colocarem sob um governo é a preservação da sua propriedade, coisa que não poderiam fazer no estado de natureza, porque nele faltam muitas coisas:

Primeiro, falta uma lei estabelecida, fixa e conhecida, uma lei que tivesse sido aceite por consentimento comum, como norma do bom e do mau, e como critério para decidir sobre as controvérsias que surgissem entre os homens. Pois, embora a lei natural seja clara e inteligível para todas as criaturas racionais, os homens, no entanto, cegos por seus próprios interesses e por não terem estudado devidamente tal lei, têm a tendência de não considerá-la obrigatória quando se refere a seus próprios casos particulares.

Em segundo lugar, falta no estado de natureza um juiz público e imparcial, com autoridade para resolver os litígios que surjam entre os homens, segundo a lei estabelecida. Pois, num estado assim, cada um é juiz e executor da lei da natureza; e, como os homens são parciais consigo mesmos, a paixão e a vingança podem levá-los a cometer excessos quando julgam apaixonadamente a sua própria causa, e a tratar com negligência e despreocupação as causas dos outros.

Intelectual lúcido, pensou e escreveu bastante acerca da tolerância acerca das crenças religiosas, sendo que parecia aquele que concebia que o dinheiro vindo do católico ou do protestante tinha o mesmo valor. Ele não queria saber se o gato era branco ou preto, ele queria apenas que o gato pegasse o rato.

Immanuel Kant

A sua obra mais célebre é o “Ensaio Sobre o Entendimento Humano“, e o título já é bastante sugestivo. O empirismo não surgiu com Locke, mas foi ele o maior expoente dessa corrente de pensamento que veio quebrar um pouco a metafísica platônica-aristotélica-cartesiana e com a qual Immanuel Kant viria, a seguir escrever as suas famosas críticas, a da “Razão Pura” e a da “Razão Prática” (essa a dos empiristas).

Voltando aqui a uma especulação filosófica: quando intentei escrever este texto, a tela em branco no computador indicava a página em branco. Teclei e formei palavras, para encadear uma frase, um parágrafo, na tentativa de expressar uma ideia. Ao fim e ao cabo, estas palavras foram desenvolvidas fruto do trabalho e da experiência em elencá-las. Desenvolvi os meus argumentos para demonstrar a minha inteligência (espero ter sido claro), mas, em nenhum momento, já havia no Marcelo uma ideia inata ou pré-concebida de que eu iria escrever esta ou aquela sentença. Tudo foi fruto deste preencher de páginas.

Assim é a noção de Locke para o conhecimento humano, de que o obtemos pelas vias da observação, avaliação, exposição, mas desde que não seja nada verborrágico e confuso, daí o sentido das suas sentenças serem sempre claras e objetivas.

Costumo brincar que Locke se assemelha àquela criança que é apresentada ao mundo e vai descobrindo as coisas por ela mesma, sendo a autêntica tabula rasa. Pela complexidade e ao mesmo tempo simplicidade, Locke tem muito a nos dizer ainda nos dias atuais. Um filósofo instigante!

Marcelo Pereira Rodrigues

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