Qual o porquê da criança gritar exigindo os seus quereres? Qual a diferença entre prazer e gozo? É compreensível analisarmos o outro como objeto? Qual o papel da Psicanálise no nosso dia-a-dia? São muitas questões instigantes no livro do filósofo e psicanalista, ciclista e consultor de mercado Marcos Bulcão, baiano da gema hoje radicado no Canadá. Intitulado “A Constituição da Realidade segundo a Psicanálise“, o pensador baseia a sua tese em importantes pensadores da História da Humanidade: René Descartes (1596-1650), Immanuel Kant (1724-1804), Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981).
Se o chiste filosófico “nem Freud explica” é conhecido, neste tratado Bulcão explica, e muito bem. Um tipo de obra que se apresenta à primeira vista como uma mata cerrada e sabemos que temos que penetrá-la. Pois bem, se assim é, munimo-nos de facão para ir decepando alguns galhos. As ranhuras e picadas de insetos inicialmente se apresentam. Mas, vencidas essas etapas necessárias, descortina-se um paraíso com direito a cachoeira deslumbrante, bosque inabitado e clareza do Sol em todo o seu esplendor. Sai a pulga da orelha, fica a clarividência do conhecimento e ilustração.
Aprendi com o filósofo José Mauricio de Carvalho que todo o pensador é um homem do seu tempo. Não dá para viver o presente e ser louco e pretensioso a ponto de se achar um dos grandes pensadores da História da Filosofia. Mas vamos espalhando as nossas ideias, trocando nossos conhecimentos e se a plasticidade de Marcos Bulcão é notória, como um andarilho caminhante ao melhor estilo Henry David Thoreau (1817-1862), se bem que na estufa de Descartes sabe muito bem abstrair as suas questões.

Lendo “A Constituição da Realidade” remeti-me aos bancos universitários da UFSJ. A base filosófica do cogito cartesiano e a “revolução copernicana” proposta por Kant, os dois pilares da investigação que encantará o Doutor Freud e, mais tarde, Lacan. O livro prova-nos que a Filosofia é a base de tudo, esta Águia por vezes renegada, mas que sobressai no final com o seu voo rasante e certeiro. Percebemos nos grandes pensadores esse questionamento extremado às coisas mesmas e, sob um prisma, dialogamos com eles, na generosidade dos seus escritos.
Fazendo a interface, estudo neste momento “O Mundo como Vontade e Representação“, de Arthur Schopenhauer (1788-1860), e agora compreendo o motivo de Freud ter ficado embasbacado com a obra. Juntando os seus mirrados trocados, adquiria os seus livros para além da medicina (pragmático cego ele não foi). Intérprete de mitos gregos e ávido leitor de filosofia, foi o Pai da Psicanálise e possibilitou a Psicologia.
Mas bem, responderia às questões iniciais deste artigo que tudo é perpassado em nós pela Vontade cega que nos iguala a um inseto e pela Representação que fazemos do mundo.
Estudando Marcos Bulcão, o livro económico em páginas oferece-nos uma investigação portentosa a respeito de nós mesmos. Questionado o autor sobre o público-alvo a que se destina, afirmou ser propício a psicanalistas, psicólogos, filósofos, enfim, à turma das Ciências Humanas. Discordo em partes, pois penso que todo aquele curioso pela investigação e pela aventura do conhecimento, poderá muito bem ler, estudar e se deliciar com a leitura. Armem-se de facões e adentrem a mata cerrada. Um idílio os espera.
Um orgulho enorme editar este livro pela MPR Edições.
Texto de Marcelo Pereira Rodrigues

Crítica
Neste livro “A Constituição da Realidade”, resultado da dissertação de mestrado do autor, é exposta a importante questão da realidade na teoria psicanalítica. A sua leitura revela trabalho erudito e finura na análise conceitual.
Podemos considerar que o esmero na análise dos conceitos de sujeito e realidade revela-se, além de tudo, no respeito às ambiguidades dessas noções no campo tratado. O autor trabalha a relação entre os dois campos do saber, filosofia e psicanálise, passando pelas conceções metafísicas e epistemológicas de Kant e de Descartes, estabelecendo os limites entre a exigência do saber filosófico e da psicanálise. É a constituição do sujeito que norteia essa comparação e delimitação.
A análise da filosofia kantiana enfoca as noções de coisa-em-si e de causalidade, referindo-as ao conceito de das Ding e das cadeias significantes em Lacan. O autor conclui pelo estabelecimento da divergência constitutiva entre a psicanálise e o kantismo, tendo como centro a razão e a universalidade kantianas e as conceções de sujeito e de pulsão lacanianas.
Do lado da análise da filosofia cartesiana, por sua vez, exibe-se a correspondência entre as duas verdades postas por Descartes, a que emerge da fase pré-cogito e dúvida, enquanto verdade do sujeito, e a verdade garantida pelo Deus, como verdade do Outro.
Entendemos que é inegável o mérito do presente trabalho, sendo notável, sobretudo, a clareza do texto e a sua precisão conceitual num campo — o dos ensaios na tradição lacaniana — onde tais qualidades são raras. Faz-se notar ainda a largueza da bibliografia, tanto na vertente da teoria psicanalítica como da filosofia. Por tudo isso, não temos dúvida de que o leitor se beneficiará muito da leitura deste livro.
O autor deste último texto, Bento Prado Júnior, é Professor Titular do Departamento de Filosofia e Metodologia das Ciências, Universidade Federal de São Carlos. Professor Emérito, FFLCH, Universidade de São Paulo.

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