Quando Protágoras afirmou que “O homem é a medida de todas as coisas“, logo foi acusado de relativista. De facto, se sou a medida, o ponto de referência a partir do qual todas as coisas são avaliadas, como escapar do subjetivismo? Sem uma verdade universal e absoluta, como escapar do relativismo? É verdade que, se cada pessoa sustentasse uma opinião completamente diferente, teríamos tantas verdades quantas pessoas. Mas será que cada pessoa tem realmente uma opinião totalmente diferente? Ou será que as pessoas, na maioria dos casos, compartilham opiniões semelhantes sobre várias questões?
Essa tendência de convergência não é arbitrária, mas segue certos critérios. Ao refletirmos sobre isso, percebemos que o relativismo e o subjetivismo não são consequências inevitáveis de se reconhecer que, ao menos em parte, a verdade depende da perceção individual.
A Verdade Egoísta
Historicamente, a ideia de uma verdade puramente individual é absurda. Desde os filósofos gregos, a busca por uma verdade universal, independente dos caprichos individuais, foi uma ambição humana central. A Verdade – com V maiúsculo – deveria ser absoluta, imutável. No entanto, com o tempo, essa visão mostrou-se irrealista e infrutífera. A verdade absoluta é uma quimera, e insistir nela é ignorar o que realmente está em jogo.

Verdade e Valor
Quando chamamos algo de verdadeiro, acreditamos que aquela informação é útil, correta e valiosa para descrever o mundo. As verdades que aceitamos orientam as nossas decisões e ajudam-nos a alcançar os nossos objetivos. Mesmo informações negativas são valiosas, pois permitem-nos evitar o que nos causa dor ou desconforto. Assim, ao aceitar algo como verdadeiro, estamos a aceitar também que isso é valioso para nós. Mas, se os nossos valores influenciam o que aceitamos como verdadeiro, isso implica que a verdade tem uma dimensão egoísta. Isso, porém, não significa automaticamente que devemos cair no relativismo, como se todas as verdades fossem igualmente válidas. Podemos refletir para escapar dessa armadilha.
Da Verdade Egoísta à Verdade Compartilhada
Somos seres sociais desde o início das nossas vidas. A nossa existência depende dos outros para a nossa subsistência e aprendizado. A vida em comunidade exige convergência de comportamentos, crenças e convicções. Por isso, a nossa verdade não pode ser exclusivamente individual. A chave para sair do relativismo radical é, portanto, entender que os nossos valores não são apenas individuais, mas também partilhados.
Relativismo Comunitário?
Ao aceitar que a verdade pode ser compartilhada dentro de uma comunidade, poderia surgir uma nova forma de relativismo, onde cada grupo teria a sua própria verdade. Mas isso já não acontece na prática? Em muitas comunidades religiosas, por exemplo, há convicções firmes sobre a verdade dos seus dogmas e regras, levando-os, por vezes, a se tornarem inimigos de quem não professa as mesmas crenças. O mesmo pode acontecer em outras áreas, como política, economia e até mesmo na ciência. Quando grupos não concordam, acusam-se mutuamente de erro. Isso nos levaria a um tipo de relativismo comunitário: diferentes verdades para diferentes grupos. Mas será que podemos escapar disso, ou toda a verdade será relativa a cada grupo?
Diferentes Verdades Não Significam Verdades Igualmente Boas
Aceitar que o conhecimento é falível e em constante evolução não significa dizer que todas as verdades, soluções ou estratégias se equivalem. Devemos admitir que cada pessoa ou grupo defende a sua própria visão, e esse ponto de vista deve ser considerado o referencial para julgar as verdades dos outros. No entanto, essa defesa não é arbitrária. A vida em sociedade é uma constante negociação entre interesses individuais e coletivos. Para atingir os nossos objetivos, precisamos de cooperar, e a cooperação é mais eficaz quando as pessoas compartilham os mesmos objetivos. Da verdade egoísta, cada um de nós precisa de passar para uma verdade compartilhada.

Defendendo A Nossa Verdade
Agora surge a pergunta difícil: não seria arrogante defender que a nossa verdade – as nossas estratégias, valores, modo de vida – é melhor que a de outros? O que significa defender, por exemplo, uma conceção científica da realidade como superior a outras? Ou como defender valores éticos e sociais como mais valiosos do que outros? A resposta está nos resultados. As melhores teorias científicas não apenas organizam a nossa experiência de maneira coerente, mas também oferecem previsões precisas que impactam diretamente a realidade.
Mas percebamos: o que a ciência – quando bem-feita – nos traz de melhor não é apenas a possibilidade de transformar o mundo ao nosso redor, mas o facto de manter vivo o espírito crítico, a tolerância e a capacidade de mudar de opinião mediante novas evidências. Aceitar a própria falibilidade é um dos mais importantes efeitos colaterais do pensamento racional.
Em termos de valores éticos e sociais, tampouco se equivalem os costumes e modos de vida. Quando defendemos, por exemplo, valores como gentileza e tolerância, também estamos em busca de um mundo melhor para todos, não apenas para nós mesmos. Esses valores promovem uma sociedade em que mais pessoas são felizes, e isso é bom para todos.
Então, sim, vemos que, mesmo se admitimos que toda a verdade – leia-se: tudo aquilo que aceitamos como verdadeiro – é contaminada pela nossa perceção individual, ainda assim podemos almejar defender as nossas verdades – nossos valores – como melhores do que as alternativas, sem temer acusações de arbitrariedade. Afinal, não há nada de arbitrário em defender, por exemplo, valores e verdades que estimulam tolerância, inclusão e pensamento crítico: é uma defesa explícita de um modo de vida – ao mesmo tempo ético e metodológico – que maximiza, na medida do possível, uma vida coletiva mais harmoniosa.
Conclusão
Em última análise, a verdade não é uma construção exclusivamente individual, mas é moldada pela convivência social e pela interação constante entre os membros da comunidade. A verdade, longe de ser uma perceção pessoal, é uma construção coletiva que surge da convivência e da comunicação compartilhada. O sucesso da comunicação e da interação humana depende da capacidade em compartilhar uma visão comum da realidade, num esforço coletivo de entendimento.
Artigo publicado originalmente na 291.ª edição da Revista Conhece-te
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