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Porque A Arte Somos Nós

Uma das figuras mais icónicas da História da Humanidade, Sigmund Freud (1856-1939) dispensa apresentações. Mas listarei aqui as suas atribuições até para entendermos a sua complexa rede investigativa: cientista, médico, filósofo, “Pai da Psicanálise”, escritor, neurologista e deslindando, percebemos logo de caras o desejo (quase obsessão) pela fama do jovem Dr. Freud. Com parcos recursos, conseguiu formar-se em Medicina pela Universidade de Viena em 1881. Mesmo a contragosto, abriu o seu consultório para atendimento a pacientes, mas o que Freud mais queria era dedicar-se exclusivamente às pesquisas referentes à mente. Hoje o local abriga o Museu Freud.

O jovem excêntrico que legaria o seu nome para a posteridade necessitava de um ninho familiar, um aconchego, e foi por isso que após se desligar dos pais, no que toca à moradia, noivou e casou com Martha Bernays, com a qual teve seis filhos. Uma pequena vida burguesa garantida e a mente livre para divagar e estudar.

Esse pertencimento familiar seria pano de fundo para as suas investigações. De relação conflituosa com o pai, Jacob, que ia da admiração à vergonha devido ao facto deste não ser proeminente e se ter mostrado fraco em algumas ocasiões, chegando a ser sustentado por familiares, e com uma relação de medo e admiração pela mãe, Amália, nascia ali uma das maiores investigações pessoais de todos os tempos, fazendo com que os achismos e afeções contribuíssem para uma teoria que remonta à mitologia grega, o bem apresentado “Complexo de Édipo”. Desejo inconsciente de matar o pai para ficar com a mãe.

Antigo consultório e agora museu dedicado a Sigmund Freud, em Viena, Áustria

O sexo assume um papel preponderante nessas investigações e por intermédio dos sonhos se manifesta de forma verdadeira. Iniciei a leitura de “A Interpretação dos Sonhos” e logo nas primeiras 100 páginas percebi que a mão que segurava a pena combinava com um fluxo de consciência elegante e não foram poucas as vezes em que fiquei a investigar os meus próprios sonhos, com as neuroses e os traumas relativos. Parei a leitura e irei retomá-la agora, quase 3 anos depois.

Investigando para dentro, pergunto-me o motivo da interrupção. Talvez o meu erro tenha sido tentado lê-lo como um romance, de cabo a rabo. Mesmo tendo percebido ser uma excelente peça literária, retomarei do começo e o estudarei aos poucos, sem pressa e com gozo (a palavra aqui foi propositada) pelo ato da leitura. Farei resenha em breve.

A Filosofia é mãe da Psicologia. Mas nem por isso me aventuro a caracterizar o perfil desta filha. Mas de todos os nossos dramas e questões pessoais, o eco está na Filosofia, a ver que a filha é cria recente. Mas essa imersão pelos meandros da mente é interessantíssima e desafiadora. Por vezes “culpo-me” por cativar desejos intrínsecos e é bom saber que eles são os nossos constituintes. Se somos uma folha de papel é bom entendermos que para toda frente haverá um verso, que todo o lado A carrega em si um lado B e é nessa dualidade que nos tentamos equilibrar.

O meio no qual estamos inseridos nos oprime, nesta sociedade de regras e conceitos, quando ao nascermos fomos moldados a perpetuarmos aquilo que os nossos pais e os outros obrigavam de nós (haja superego para dar conta). Se nos sentimos desajustados, possivelmente é devido ao embate entre o desejo e o limite, a regra. Uma outra investigação que prometo empreender é acerca de “O Mal-Estar na Civilização“, o qual desconfio que me irei identificar.

Capa do livro “O Mal-Estar na Civilização” (Penguin Companhia, 2011)

Um jornalista e intelectual brasileiro, Paulo Francis (1930-1997) afirmou certa vez que a literatura de Freud era o que existia de melhor em termos de sacanagem erótica. Óbvio que entendi o chiste, até devido ao facto de ele ser um frasista incorrigível, mas acerca das pulsões sexuais interesso-me bastante pelo tema, com características fálicas que se impõe apesar do verniz da civilização que existe em cada um de nós. Essa natureza bruta é a madeira da lei, cabendo ao verniz a função de nos preservar de atropelos.

Freud é um pensador que nos acompanha diariamente, mesmo que não saibamos disso naturalmente. Perdoem-me as feministas, mas a histeria é hilária na sua simplicidade investigativa. Não é coisa de mulher, podendo ter efeito em homens também. Quantas vezes ficamos nervosos por uma dor e é necessário um átimo de raciocínio para nos olharmos ao espelho e ordenarmos a nós mesmos “Não fiques histérico, tenta manter a razão!?”

E por aí a coisa vai. Findo este texto introdutório humildemente me desculpando aos psicólogos profissionais. Sei que se trata de um texto raso, mas serviu para mim de mapa a traçarmos os périplos do Dr. Freud, assumindo o compromisso da leitura e do estudo, mais até pelo deleite que a sua prosa elegante me irá propiciar.

Duas observações finais: Freud parecia ser o teórico que formulava uma tese e depois lutava para que o mundo se adequasse a ela, razão pela qual foi solenemente ignorado pelos seus pares no início da carreira. Lembremos o desejo da fama.

“A Interpretação dos Sonhos” vendeu pouco mais de 300 exemplares nos seis primeiros anos da sua publicação, mas hoje é uma das obras mais lidas, estudadas e comentadas, fazendo valer a máxima nietzschiana de que “alguns nascem póstumos”.

Marcelo Pereira Rodrigues

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3 thoughts on “Um certo Dr. Freud

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