O filme “Belfast”, do realizador Kenneth Branagh, é um drama com duração de 1h39min. Traz no seu elenco nomes como os de Jamie Dornan, Caitriona Balfe, Judi Dench, Jude Hill, Cláran Hinds, entre outros. O mote é o conflito religioso entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, em finais da década de 1960. Apresentado em branco e preto, logo Jude Hill (interpretando Buddy) nos captura com o seu sorriso franco e dentes da frente proeminentes de um miúdo.
Embora comece de forma tensa com a queima e depredação de casas e estabelecimentos comerciais católicos, com a intervenção da polícia e barricadas a posteriori, ficamos em suspenso com a intervenção de Ma (Caitriona Balfe) que acaba por se servir de uma brincadeira do filho para o salvar. O pai trabalha fora, vem a casa de quinze em quinze dias e discussões atinentes a dinheiro são frequentes. Como diz um provérbio: “Casa onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão“. Como sonhar não custa nada, o pai sonha com paragens distantes, tais como Vancouver e Sidney, chegando a mostrar ao filho um mapa mundial. A mulher é mais pés no chão, ralhando com ele acerca deste devaneio.

Este microscópio familiar acentua-se e conta ainda com as presenças dos avós, brilhante e amorosamente representados por uma irreconhecível Judi Dench (só soube que era ela ao ler os créditos) e Cláran Hinds (interpretando Pop). Sabe estes amores forjados por décadas de companheirismo e respeito? Esta relação assim o é. O avô é carinhoso com o neto, ouvindo-o pacientemente e orientando-o acerca do flirt com a amiga da escola. Como as notas obtidas nas avaliações indicam o lugar onde cada aluno se senta, é um sonho do nosso amiguinho sentar-se ao lado do seu amorzinho platónico. No que toca a estratégias, as ‘olhadelas’, que me fizeram lembrar das primeiras cartas endereçadas aos meus primeiros amores.
Economicamente escrevendo, a Irlanda do Norte é o primo pobre do Reino Unido. O eldorado para trabalhadores sempre foi Londres e a possibilidade de levar a família para o local de trabalho é proposta. Mas como se adaptar a uma nova vizinhança, quando o bairro em Belfast já se apresentou à família como o verdadeiro quintal de casa, onde todas pessoas se conhecem e apenas agora, nos tempos mais recentes, a intolerância aliada à marginalidade grassou e partiu para a violência?
O avô herda problemas de saúde desde os tempos em que trabalhava nas minas de carvão. Reticente a médicos, dá-se o seu falecimento e um novo conflito faz Pa (o pai de Buddy) zangar-se com um chefe de uma quadrilha. Uma cena que toca bastante é o miúdo captado para pertencer a um gangue, a sua invasão e o saque ao supermercado para roubar uma caixa de sabão em pó. “Biológico“, diz ele, como para se desculpar com a irascível mãe, que o agarra pelas orelhas e o faz devolver o butim.

Tristeza e compreensão necessária, a avó vê a partida de toda a família e aterrada ao sítio, aguardará a morte. O amor do casal, pessoas que se conhecem desde sempre, tem altos e baixos (amar nunca é um mar de rosas) e este microscópio familiar entrega-nos um bom guião, uma boa fotografia e planos longínquos da ilha que não se curva.
Conflitos, mortes e destruição sempre permearam o aspecto religioso, basta ver o atual conflito Israel – Palestina (sob o braço do Hamas). Na verdade, sob a roupagem religiosa estende-se um manto de ódio e intolerância. Relembrando as aulas de Geografia no Ensino Médio, ao decorar as capitais dos países europeus, Belfast e Dublin sendo as capitais irlandesas, o certo é que na minha ordenação atual, Dublin é o cenário do icónico romance de James Joyce (1882-1941), “Ulisses“. Já Belfast ficará na minha retina por muito tempo através deste belo filme.
Nomeado para sete categorias nos Óscares de 2022, “Belfast” levou a estatueta de Melhor Argumento Original. Mérito e tanto, pois escrever uma história sobre factos corriqueiros reais apresenta-se como um grande desafio, sendo que em nenhum momento essa dramatização familiar se equivoca em didatismo pedante sobre o conflito em si, ficando como pano de fundo dos graves problemas que comprometem o idílio.
