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“Devemos lembrar também que aumentou o número de mulheres no mundo do trabalho, como dizíamos – e isso é um dado fundamental para o possível aumento do sexo no meio do expediente. Se antes existiam ‘apenas’ as secretárias, agora existem as gerentes, as colegas, as estagiárias, as sócias, as representantes, as clientes, as concorrentes, as advogadas, as médicas, as alunas na faculdade. À medida que o número de mulheres aumentou no mundo do trabalho, aumentou o número de esposas infiéis. O fenómeno é de mão dupla. A mulher viaja a trabalho e também faz sexo noutra cidade, onde ninguém a conhece. Claro que aqui conta o temperamento de cada um, mas, em alguma medida, a ocasião faz o ladrão.

Parece que nós, contemporâneos, esquecemos que quando se coloca homens ao lado de mulheres, a possibilidade de prática sexual aumenta. O próprio ambiente de trabalho se transforma num fetiche enquanto tal. Fazer sexo com a sócia ou a colega de trabalho na mesa do escritório quando este está vazio pode ser uma das formas mais excitantes de patrulhas contra o desejo sexual, esse eterno maldito. Eu apostaria no aumento do sexo no meio do expediente em meio à histeria de denúncias contra o assédio sexual na vida profissional.”


“Filosofia do Cotidiano: Um pequeno tratado sobre questões menores”

O livro “Filosofia do Cotidiano: Um pequeno tratado sobre questões menores” (Editora Contexto, 2019, 128 páginas), do filósofo Luiz Felipe Pondé revela mais do mesmo. Mesmo sabedor do subtítulo, o escritor esmerou em tratar de questiúnculas e, como se isso não bastasse, foi repetitivo. Sendo repetitivo, a leitura apresentou-se enfadonha.

O filósofo, escritor, ensaísta, professor universitário e palestrante brasileiro Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé

Conceituado intelectual brasileiro, professor universitário, colunista de um dos melhores jornais do Brasil, a “Folha de S. Paulo”, palestrante gabaritado, um dos participantes do programa de televisão “Linhas Cruzadas”, da TV Cultura (ao qual não perco um) e acadêmico por excelência, quando vai popularizar suas ideias tenta ser engraçado demais. E é aí que escorrega.

Se no livro “Filosofia para Corajosos – Pense com a própria cabeça” as provocações soaram originais, aqui neste livro as piadas prontas apontam para a mulher no mercado de trabalho (como na citação que abre este texto), à insegurança daqueles que exibem uma vida perfeita no Instagram e Facebook, a polarização político-partidária de idiotas fechados nas suas bolhas e nem a diagramação ousada da Contexto nos entretém. Outras discussões desnecessárias são aventadas.

Percebi neste emaranhado (encadernado como livro) o conselho do sábio Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Devemos ter cuidado ao olharmos para o abismo, pois em sentido oposto, o abismo também olha para nós“. Pondé questiona bastante este abismo, mas por vezes não é autocrítico para compreender que “certos quadros não merecem ser dependurados” (analogia que Gertrude Stein fez ao seu amigo Ernest Hemingway para reprovar um original) e, se muito, algumas destas sentenças pondenianas (termo que acabei de cunhar) cairiam melhor num post de rede social, tão superficial quanto algumas que lá se encontram.

O escritor norte-americano Ernest Miller Hemingway (1899-1961)

Para não me tornar repetitivo com a minha crítica, encerrarei com mais uma citação, desejando que num futuro breve Pondé nos brinde com algo mais original.

Dito de forma direta, para ser produtivo, há que brochar numa série de coisas que não tragam valor agregado ao mundo material. Você facilmente chegará a uma vida sem tesão quando crer firmemente que o quotidiano pode ser objeto de uma tabela de Excel, cujo objetivo é a prosperidade em níveis ontológicos (ou seja, totais). Tudo deve ser produtivo e organizado: o amor, as férias, os filhos, as doenças, o ódio deve ser canalizado para algo construtivo, a violência deve ser travestida de criatividade fora da caixa.

Você acorda e tudo que vê pela frente deve ser dissociado do erro, da insegurança, da dúvida. O quotidiano deve ser cristalino como a vida afetiva de um algoritmo.

Marcelo Pereira Rodrigues

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