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Porque A Arte Somos Nós

Fiódor Dostoiévski (1821–1881) é o que se pode chamar de um escritor completo. Completo e complexo. Em “Os Irmãos Karamázov” a literatura russa encontra o seu apogeu e transborda ao mundo a narrativa ampla, investigativa acerca das coisas da vida, dos amores e conflitos, etc. Mais que um escritor, Dostoiévski foi um psicólogo, mesmo que no seu período não existisse o exercício da profissão como tal. Foi também um filósofo, mesmo que não se considerasse um.

Não foi à toa que angariou o reconhecimento de dois grandes pensadores do século XIX: Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. Dostoiévski marca o seu nome no panteão dos grandes literatos da humanidade, ao lado de Homero (850 a. C.), Platão (428 a. C.–348 a. C.), Dante Alighieri (1265-1321), Luís de Camões (1524-1580), Miguel de Cervantes (1547-1616), William Shakespeare (1564-1616), Goethe (1749-1832) e Victor Hugo (1802-1885). E isso não é pouca coisa!

William Shakespeare

A vida complexa de Dostoiévski transborda nas suas narrativas. Longe de serem autobiográficas, ele despeja passagens e compartilha com os seus muitos personagens, alguns tão bem intimistas que quase ficamos a entender que existiram de facto, como se fossem de carne e osso. Sempre purgando os seus pecados, tais como escapar de uma pena capital, mas passar uma temporada detido na horrenda Sibéria; conviver com o alcoolismo e com outras mazelas familiares, como a morte de um filho pequeno, o autor que angariou reconhecimento ainda em vida, tinha em mente que a bonança e fartura destruíam a veia criativa na exigência que impunha a si mesmo.

Rico, juntava as economias e propunha um desafio a si próprio: ir para um casino e perder lá o último centavo. Derrotado, lançado ao solo e não tendo mais nada a fazer a não ser empenhar a pena e laborar a folha em branco, advém daí os seus maiores tesouros, tais como “Crime e Castigo“, “O Idiota“, “Os Demónios“, “O Jogador“, entre outros.

Vou me deter aqui com “Os Irmãos Karamázov” (Editora 34, 999 p.), um livro denso e que foi publicado em 1879, sendo o último romance escrito por ele, na visão de Freud a “maior obra de todos os tempos”. Vamos mergulhar nos aspectos mais sombrios da alma humana?

Tudo gira em torno de Fiódor Pávlovitch Karamázov, 55 anos, pai de três filhos. Este personagem é avaro, beberrão e egoísta, tendo sido abandonado pela primeira esposa e tendo ficado viúvo no segundo casamento, um senhor de posses que é assassinado e o que não faltam são suspeitos: ele era intratável e devasso ao extremo, um verdadeiro pústula. Ele mesmo se define assim, ao recusar um copeque (centavo) sequer aos seus filhos: “Na imundice é que é mais doce: todos falam mal dela, mas nela todos vivem, só que às escondidas, enquanto que eu sou transparente“.

As relações familiares não são as melhores possíveis, passando ao largo disso: o seu filho Dmitri, o mais velho, de 28 anos, toca uma demanda contra ele e passa a ser o suspeito do crime. Brigaram até por uma mulher (Agrafiena Alieksándrovna Svietlova, alcunha Grúchenka), e o filho é um inconsequente que herdou em muito o temperamento do pai. Por momentos, perde-se na farra e não gosta de pensar no dia seguinte, quando uma ressaca moral lhe irá acometer. Nessa relação sai até faísca, de dois oponentes, pai e filho, que estão prontos para se bater a qualquer momento. Mas é certamente o ápice da narrativa, com os conflitos decorrentes. Um autêntico “Complexo de Édipo”!

Aliócha é o filho caçula. Intenta uma carreira eclesiástica e está num mosteiro, ainda em dúvidas se seguirá o ofício ou não. Tem um temperamento dócil e apaziguador, dando-se bem com o restante da família, e é sempre a voz da razão nos conflitos familiares. Um personagem intrigante e que espelha as preocupações de Dostoiésvski com as coisas celestes.

O outro filho, o do meio, Ivan, é o intelectual filósofo por natureza. Sempre sorumbático acerca das coisas da vida. Aliócha define assim o irmão: “A alma dele é uma tempestade. A inteligência o prende. Há nele uma ideia grande e não resolvida. Ele é daqueles que não precisam de milhões, mas precisam resolver uma ideia“. Lê ao irmão seminarista o seu poema “O Grande Inquisidor” e problematiza a relação de Jesus Cristo com a religião católica em si, dando um nó na cabeça do caçula. Ivan e Dmitri estão envolvidos com uma mesma mulher, sendo que Aliócha tenta contemporizar a questão.

O narrador apresenta a questão: “Aliás, digamos de uma vez por todas apenas duas palavras sobre os sentimentos de Ivan pelo irmão Dmitri Fiódorovitch: terminantemente não o amava e às vezes sentia muita, muita compaixão por ele, mas até esta era mesclada de um grande desprezo, que beirava o nojo. Nutria uma extrema antipatia por Mítia, por ele todo, por toda a sua figura. Ivan via com indignação o amor de Catierina Ivánovna por ele“.

Adendo: Mítia é o apelido de Dmitri. Há um dito popular no Brasil em tom jocoso que afirma: “De tanto pensar morreu o burro”. Pois excessiva racionalidade, acuidade intelectual a ponto de sentirmos as engrenagens mentais de Ivan se movimentando lhe proporcionarão uma síncope nervosa, a ponto de ficar acamado, prostrado na sua enfermidade.

Fiódor Dostoiévsky

Um outro filho, o bastardo Smierdiakóv, é fruto de uma noite de sexo casual do velho com a louca da cidade, Lizavieta Smierdiáschaia, que estando prestes a dar à luz, salta o muro da propriedade de Fiódor Karamázov e concebe a criança num banheiro da casa dos criados, vindo a morrer em seguida. O bastardo fica ali, serve de criado ao ser adotado pelos caseiros Grigori e Marfa, sendo de natureza arredia, caladão ao extremo e que teve por hábito na juventude enforcar gatos. Um tremendo imbecil. Os seus irmãos mal falam com ele, e ele apenas responde ao ser indagado.

É analisado assim por Dmitri: “Smierdiakóv é um homem de índole reles e covarde. Não é um covarde, é um conjunto de todos os covardes do mundo juntos sobre duas pernas. Ele nasceu de uma galinha. Quando falava comigo sempre tremia pedindo que não o matasse, quando eu sequer levantei a mão para ele. Caía a meus pés e chorava, beijou-me essas botas aqui, literalmente, implorando que eu ‘não o assustasse’. Ouçam: ‘Não o assustasse’ – que expressão é essa? E eu até lhe dava presentes. Aquilo é uma galinha doente de epilepsia, de inteligência fraca e até um menininho de oito anos pode surrá-lo, que índole é aquela?

É um vil personagem que cresce bastante ao longo da trama, notadamente no julgamento de Dmitri.

O perceptível neste livro é que os personagens não são estanques e facilmente rotuláveis. Esta obra aborda bem as muitas questões filosóficas e existenciais levantadas por Dostoiévski ao longo de toda a sua vida. À medida em que vamos adentrando a trama de “Os Irmãos Karamázov”, reconhecemo-nos em muitos aspectos até pelo facto de ser uma explanação da vida que aborda com destreza o quotidiano ordinário e as divagações sublimes.

Após o assassinato do velho e a prisão de Dmitri (quem mandou ele alardear aos quatro ventos que iria assassinar o velho?) ocorrem as cenas do julgamento e a narrativa processual é caudalosa e intrigante, e pareceu-me estar sentado no banco de jurados e sem saber se votaria pela condenação ou absolvição. O diálogo entre Ivan e Smierdiakóv é revelador na tentativa de livrarem o irmão da cadeia. O imbecil dissimulado até que tem uma linha de raciocínio bastante lógica.

Dmitri possui arroubos de sinceridade no julgamento, quando se define: “Senhores, todos nós somos cruéis, todos somos uns monstros, todos levamos as pessoas ao choro, mães e crianças de colo, mas de todos – que assim fique resolvido neste momento -, de todos eu sou o réptil mais torpe! Que seja! Todo santo dia da minha vida batia em meu peito prometendo a mim mesmo corrigir-me, e todo santo dia cometia as mesmas vilanias. Agora compreendo que gente como eu precisa de um golpe, de um golpe do destino, para ser presa como por um laço e sujeitada por uma força externa.

O enigma está nos três mil rublos que foram furtados da casa do pai, sendo que no momento da prisão, Dmitri, após gastar horrores com a farra, ainda se encontra com bastante dinheiro; mas, ao mesmo tempo, ele havia recebido um empréstimo de uma bela mulher, que intentava negócios.

De qualquer forma, não iria entregar o final, mas o certo é que, ao chegar ao término, ainda restam dúvidas (ou pelo menos para mim foi assim) acerca do autor do crime e principalmente os motivos que o levaram a tal. Penso que aquele que se aventurar por este livro empreenderá uma jornada de forma a confrontar os seus próprios demónios. Ao mesmo tempo em que a literatura é densa e verborrágica, apresenta-se de modo coloquial e sempre em tom de conversação, fazendo assim o charme do livro. O fim apresenta-nos Aliócha participando num funeral de uma pobre criança da vila, um facto fora de toda a trama. Talvez se revele aí a compaixão pelos dramas alheios.

Da obra que li, ela tem um diferencial na tradução que faz toda a diferença: Paulo Bezerra fez a tradução ao português diretamente do russo. Dos escritos traduzidos até então, muitas obras em russo foram traduzidas para o francês e somente aí ocorria a tradução para o português. Característica comum é que a tradução francesa edulcorou muitas das expressões e sentenças contidas no original.

Freud tinha razão ao considerá-la a “grande obra da humanidade”.

Marcelo Pereira Rodrigues

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