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Porque A Arte Somos Nós

Umberto Eco, estudioso do fenómeno literário e estético, autor consagrado, transformou-se de um momento para o outro numa figura de primeiro plano da Literatura Mundial. Na base deste êxito, um romance: “O Nome da Rosa“, que publica aos 48 anos. Este seu primeiro romance vendeu um milhão de exemplares em Itália. Em Portugal, a primeira edição esgotou em 15 dias. A nova edição deste livro de Umberto Eco continua a ser dos mais procurados nas livrarias.

“O Nome da Rosa”, apesar de ser um livro denso, passado na Idade Média, conquista o leitor através de um enredo de características policiais. Esta obra chegou a ser adaptada ao cinema em 1986, com Jean-Jacques Annaud a dirigir Sean Connery (trailer). Por outro lado, “O Pêndulo de Foucault” é, também, um dos seus livros mais conhecidos.

Umberto Eco nasceu em Itália, em 1932. Licenciou-se em Filosofia e foi Professor de Semiótica na Universidade de Bolonha. Como ensaísta, publicou livros importantes como: “A Obra Aberta“, “Diário Mínimo“, “A Definição da Arte“, entre outros. O também sociólogo é, indubitavelmente, uma das personagens mais fascinantes do mundo cultural contemporâneo. O riso, a estupidez, a mentira, são temas que tinha quase como obsessão no seu trabalho tão vasto.

O apelidado “mestre no retrato da humanidade”, sempre preocupado com o saber e em fazer chegar a sabedoria aos estudantes, escreveu mais de 40 obras, entre ensaios e romances, romances que alguns demoraram mais de cinco anos a escrever, mas sempre acreditando na verdadeira função do livro: “Creio que o romance deve divertir, deve apaixonar“. Enquanto escritor e investigador prolífico, os seus livros conheceram diversas traduções, tal como as suas múltiplas colaborações na imprensa italiana (em particular na revista L’Espresso e no diário Repubblica).

O Pêndulo de Foucault (1988)
Como Se Faz Uma Tese (1977)

Na década de 1970, o escritor passa a tratar quase que exclusivamente da semiótica. Eco descobriu o termo “Semiótica” nos parágrafos finais do “Ensaio sobre o Entendimento Humano” (1690), de John Locke, ficando ligado à tradição anglo-saxónica da semiótica, e não à tradição da semiologia relacionada com o modelo linguístico de Ferdinand de Saussure. Pode-se dizer, inclusive, que a teoria de Eco acerca da obra aberta é dependente da noção peirciana (alusivo ao filósofo Charles Sanders Peirce) de semiose ilimitada.

Já na década de 1980, Umberto Eco escreve importantes textos nos quais procura definir os limites da pesquisa semiótica, bem como fornecer uma nova compreensão da disciplina, segundo pressupostos buscados em filósofos como Immanuel Kant e Charles Sanders Peirce.

Durante, pelo menos, 30 anos escreveu artigos e ensaios sobre os vícios do jornalismo e o seu último livro, lançado em 2015, intitula-se “Número Zero” e é, precisamente, uma paródia ao jornalismo. Desta forma, Umberto Eco construiu uma popularidade considerável, devido, nomeadamente, pelo seu interesse pelos temas da cultura popular, dos filmes de Walt Disney à banda desenhada e ao mito de James Bond, que analisou com agudeza e ironia nos seus textos.

Posteriormente, Umberto Eco faleceu com 84 anos, em 2016. Deu aulas em várias universidades, incluindo Harvard e Yale e, entre os vários galardões que recebeu, foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias em 2000. Decerto, o autor define como mundo possível “um estado de coisas espoletadas por acções, escolhas“. Assim, defendia que a literatura era “terapêutica” por permitir, precisamente, escapar do mundo real e das suas ansiedades e descontinuidades.

Umberto Eco
Umberto Eco dá conselhos aos mais novos

Desta forma, o autor defendia que as inquietações humanas podem ser vencidas através do anulamento da nossa insensibilidade – o chamado nirvana, onde, justamente, há o fim dos sofrimentos, das dores e das paixões. Assim, do mesmo modo, há paixões da alma que influem sobre o corpo, como a dor amorosa, de natureza melancólica, que se torna obsessiva quando a memória insiste, insistentemente, em fazer chegar o objecto amado à mente de quem ama.

Mais tarde, Aristóteles diria que “o sábio busca alcançar a ausência de dor, não o prazer” (ataraxia e apatia) e Umberto Eco estendeu a sua reflexão a isto, defendendo o humor como um instrumento crítico, criticando os fundamentalistas que, com a sua religião ou com outro assunto que considerassem um dogma, matavam a sátira.

Umberto Eco dá-nos uma panóplia profunda de temas, sobre os quais só podemos retirar significação e um crescimento intelectual – uma fonte digna, somente, de um revolucionário que não teve medo de levantar conjecturas e “ferir” o pré-concebido.

Tiago Ferreira

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