OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Este é a continuação do conto da semana passada “Expiação Pública e Raiva“.

Nicodemos crescera em uma cidade do interior. Menino pobre, sempre fora excluído dos amiguinhos e das casas das famílias mais abastadas do lugar. Cidade com cerca de três mil habitantes, Nico observou a si mesmo como não pertencente àquele mundo e àquelas pessoas. Não gostava de jogar futebol, soltar pipas, brincar de bolinha de gude. Vivia então enfurnado em casa, para desespero da mãe que pressentia que o menino não batia bem das ideias. Como refúgio a tanto isolamento, Nico lia. Lia livros de viagem e foi assim que começou a aprender o inglês. E, aos poucos, todos observaram o talento nato do rapaz, que causara constrangimento a uma professora do segundo ano do ensino médio ao criticá-la por pronunciar erradas as lições dadas.

Já visto como metido e antipático, foi posto de lado e, quando tirou o terceiro ano, rumou para Belo Horizonte. Um tio havia arranjado uma entrevista de emprego num cursinho de línguas e ele foi aprovado logo nos primeiros minutos. Longe de sua cidade natal, sabedor de que aos 18 já estava vencendo na cidade grande, sua auto-estima subiu. Subiu a tal ponto que chegou a ficar megalomaníaco. Quando retornava à sua cidadezinha, ele o fazia como quem está fazendo um favor de visitar os nativos. Para muitos que entendiam que Belo Horizonte era uma terra distante, tanto quanto Londres, Paris ou Berlim, passou a inventar viagens e mais viagens. Era um sujeito culto e viajado. Para deleite, enamorava-se das meninas, pois perdera o status de menino pobre para o daquele que, através do esforço e do estudo, havia vencido na vida. Já conseguira alugar uma casa melhor para a mãe e seus dois irmãos, no centro da cidade, e todos entenderam que o menino tinha dado boa coisa na vida. Com o passar dos anos, foi rareando as suas visitas e, quando voltava, dizia que o semestre tinha sido muito disputado, pois tinha ido a Tóquio, Barcelona e Istambul. Dizia até com certo enfado, desgostoso de tantas e tantas viagens, horas nos aeroportos, cancelamentos de voos e conexões, extravios de bagagens. E claro, pegava as meninas da cidade, todas loucas pelo viajante Nico. O problema é que Nico mentiu tanto, mas tanto, que passou a ficar esquizofrénico. Acreditava nas próprias mentiras, a ponto de sentir cansaço físico por tantas e tantas horas de voo em aeroportos do mundo inteiro. Claro que na escola só viajava em períodos de férias, bem, viajava na sua cabeça. Por isso os guias que adquiria para compor roteiros e cenários e sempre lembrar as cidades que havia visitado. Observou que era respeitado agora. O passo a seguir foi a comparação. Seu estrangeirismo se dava assim: tudo o que era do Brasil não prestava. Transporte público? “Uma merda!”. Educação? “Uma bosta!”. Saúde? “As pessoas morrem nas filas de hospitais!”. O brasileiro em si? “Ô povinho ignorante, preguiçoso, feio e esquisito!”. Primeiro as pessoas tratavam os comentários como anedóticos, depois refletiam e ficavam indignadas, observando estar diante de um snobe. Por isso, não foram poucos os conselhos para que ele se mudasse, livrando-se dos silvícolas. Nico assumiu um ar blasé, nariz empinado e, no inverno, vestia-se como um europeu, de sobretudo e tudo o mais a que tinha direito. Na escola, desconfiavam que ele era gay. Nicodemos odiava o próprio nome. Por isso o diminutivo Nico caía-lhe bem.

Conhecera Gregório numa divulgação em parceria entre o curso onde trabalhava e um pré-ENEN onde o filósofo fazia uns bicos. Quando este se apresentou como filósofo, logo Nico remeteu a Sócrates (Grécia), Descartes (França) e Nietzsche (Alemanha). “Sim, a nata do pensamento da humanidade está na Europa”. Além de lecionar inglês e, de forma esquizofrénica, mentir descaradamente sobre os passeios que fizera a Londres (“aqueles ónibus de dois andares, os telefones públicos vermelhos e o Big Ben são um charme), a Paris (“vocês precisam ver como é lindo o Louvre, inclusive comprei tíquetes para uma semana, o Palácio de Versalhes e o Rio Sena”), Amsterdam (“onde a coisa é tão liberada que se compra maconha em supermercado, onde nascem a olhos vistos as lindas tulipas; as prostitutas, não que eu considerasse ter acesso a uma delas, são expostas em vitrines e passeia-se de bicicleta por conta da cidade plana”), Roma (“verdadeiro museu a céu aberto”) e Nova York (“realmente, não se conhece o mundo se não conhecer Nova York”) e ia Nico enumerando cidades, países, hábitos, costumes e cultura, não se esquecendo da pontualidade no transporte público, limpeza nas vias urbanas, falta de mendigos nas calçadas e tudo o que de paradisíaco havia no exterior, em contraponto às mazelas do Brasil, verificável no caos urbano que era Belo Horizonte.

Sócrates
René Descartes

Nico comprava guias turísticos e, na impossibilidade de ir de corpo, alma e mente, sonhava e lia informações, para dar ares de quem realmente viajara, e era considerado por todos praticamente um europeu. Costumava dizer, para a sua turma de alunos: “Sem querer me elogiar, vocês precisam ver, pelo simples fato de me vestir, na Europa sou confundido com europeu. Quando me pedem informações e sabem que eu sou brasileiro, vá lá, falo inglês fluentemente, mas não gosto de me exibir, digo que sou do Brasil e todos, sem exceção, falam: ‘Pois nem parece!’”. Os alunos ficavam num misto de admiração, estupefacção, chateação e o sentimento de que seu professor era um snobe. E a vida ia seguindo, estando Nico, naquele momento, na Leitura do Shopping Cidade para comprar mais um guia turístico, agora da Alemanha. Foi quando se deparou com Gregório, que acabara de deixar para vender o seu mais novo e único livro… Cumprimentaram-se:

— Olá professor! Passeando por aqui? – perguntou Gregório.

— Vim comprar um guia para a Alemanha. Viajo para lá nas férias.

— Bacana.

— Bacana? Disse a Alemanha, não vou para Mariana. Tem um minuto?

— Ah, desculpe-me. Você vai para a Alemanha. Sim, claro, tenho tempo livre.

— Que tal tomarmos um café?

— Pode ser.

Nico se dirigiu ao caixa, pagou as suas informações pela Alemanha e sugeriu ao escritor irem ao café do segundo piso, o Mr. Black. Sentaram-se, fizeram os seus pedidos e Nico começou:

— Como está a divulgação do seu livro?

— Estou na luta, distribuindo eu mesmo os exemplares.

— Pena a sua ter nascido num país onde não se lê, né?

— É, mas tem espaço para todos.

— Se você estivesse na Europa…

— É, mas estou em BH, devo me adequar a isso.

— Sabe, quando estive em Paris, fiquei admirado com uma coisa. Nos cafés, que inclusive fazem lembrar este aqui, as pessoas nas mesas lêem livros, revistas e jornais. Discutem política, filosofia, cultura… – falando baixinho – olhe ao seu redor: algum brasileiro lendo neste espaço?

Gregório deu uma olhada de soslaio, verificou que as pessoas estavam sentadas no café bebendo café, mas não achou nada demais.

— Mas também não dá para ler nesse barulho…

— Mas como os franceses conseguem, Gregório?! Como os franceses conseguem?

— Deve ser hábito enraizado deles. Nada demais.

— Como assim, nada demais? – aumentou um pouco a voz, para que alguns escutassem e provocou – brasileiro é um povo bárbaro, pouco afeito à cultura.

— Fale baixo, por favor! – não devemos generalizar.

— Está bom! Vou ser discreto. Europeus são discretos. Até argentinos são discretos.

Mostrando interesse em ouvir as narrativas de viagens de Nico, Gregório sugeriu que ele falasse algo. Como oferecer bananas a macaco. Nico se empolgou:

— Londres! Londres! Você precisa conhecer Londres. Os ingleses são fantásticos! Cultos. Pragmáticos. São de pouca conversa. A terra da Rainha, dos Beatles e Rolling Stones. Garoa em muitos dias do ano. As ruas alternam-se entre modernas e clássicas. Muitos bosques.

— Nada de ruim?

— Não, claro que não. Muita riqueza, renda per capita da população alta, o transporte público funciona, a saúde pública anda às mil maravilhas e, quando fiquei lá, fiz tantos amigos que muitos me convidaram para ficar.

— E por que não ficou? – a pergunta era óbvia.

— Então, por que não fiquei?

— Sim. Por que não ficou?

Nico percebeu que a pergunta estava revestida de ironia zero, era uma pergunta desconcertante que Nico, em sua esquizofrenia, ainda não conseguia responder. Mas tentou:

— Sabem-se lá os motivos. Não sei por que, mas tenho ainda algumas pendências em BH. Mais dia menos dia, poderei escolher o meu destino. Quem sabe até a pacata Edimburgo?

— Fale-me um pouco de Edimburgo…

— Edimburgo fica na Escócia, que também faz parte do Reino Unido – “Envenenaram a água santa com a sua concupiscência”, tentou se lembrar de informações vagas colhidas em um guia lido – tem um castelo lindo que fica no topo de uma montanha, muita arte e cultura, muitas bandas de rock nasceram lá, acho inclusive que o Snow Patrol é de lá, garoa muito também, mas o legal é que, ao contrário de tantas e tantas cidades na Europa que visitei, dá para se andar a pé e conhecer bem os lugares. Come-se muito bem por lá, e é barato. A taxa de criminalidade na Escócia é baixíssima, a proporção deve ser a seguinte: mata-se por ano lá o mesmo que se mata por dia no bairro onde eu moro aqui em BH.

— Nossa! – surpreendeu-se Gregório.

— Nossa mesmo! Tá vendo como morar no Brasil é uma merda? – levantou um pouco a voz.

Gregório pegou o seu braço, olhou ao redor e sentiu que alguns presentes olhavam com antipatia para aquele snobe. Pediu a discrição tão importante nos hábitos dos europeus, dos não “indígenas”. Nico se lembrou e tornou:

— Veja o seu caso: com todo o respeito, mas se você estivesse na França lançando livros, estaria com filas e sua mão ficaria com câimbras de tanto autografar…

— Mas sinceramente, não vejo assim. Estou começando agora. E no mundo todo, há uma quantidade muito grande de escritores.

— Deveria ver de forma melhor e mais abrangente. Por que não escreve em inglês?

— Porque eu não sou inglês – respondeu o óbvio.

— Mas imagine. Inglês é uma língua universal, português é uma língua limitada a alguns países e isso delimita em muito o público – pelo menos nessa parte da conversa Nico foi elucidativo.

— Sim, sei que é universal. Mas fiz uma coletânea de artigos que foram publicados em um jornal de bairro. Minhas pretensões são modestas – e a bem da verdade, Gregório já havia ido a Paris e percebido que as coisas não eram bem assim. Mas era discreto a ponto de não comentar, gostava de conhecer as coisas pelas perspectivas das outras pessoas – e agora pretende viajar para onde? Algum intercâmbio?

— Nada! Vou a turismo mesmo! Vou à Alemanha. Programo viajar no final do ano.

— Vai pegar a temporada de inverno lá?

— Sim, nada mais chique que o inverno europeu. Não tenho nada a ver com esse país tropical e onde as pessoas ficam se torrando nas praias, nessas excursões idiotas.

— Sim, mas cada país tem sua peculiaridade, não?

E Nicodemos continuou sua exposição sobre o estrangeiro e as vantagens de se morar por lá (ele ainda faria isso) e veria o Brasil apenas nos noticiários internacionais, relatando as chacinas que faziam o país ter mais vítimas que em muitas guerras mundo afora, como Afeganistão, Iraque e Síria. Esclareceu que ficaria duas semanas na Alemanha, visitaria Berlim, Munique, Hannover, Frankfurt, Bonn, Colónia, Dortmund, talvez visitasse a Áustria e República Checa (isso era quase certo).

Gregório pediu a conta, Nico fez questão de pagar e se despediram. Nico saiu com a sensação de conforto pela oportunidade de falar de seu mundinho cor-de-rosa. Gregório foi interpelado pela garçonete, que, disfarçadamente, perguntou:

— Este seu amigo é veado?

— Não, acho que não – concluiu o escritor, despedindo-se dela também.

Gregório morava ao lado do shopping, na indiana “Rua São Paulo”, e num prédio misto de comercial e residencial, com portaria que passava grande parte do tempo administrando o entra e sai dos moradores e visitantes. Cada sala apartamento podia ser bem considerada um bunker, ainda mais a de Gregório, que possuía um olho mágico, uma porta de ferro gradeada maciça e, fechando-a, deixa a todos nós leitores fora de seu quotidiano.

Nicodemos pegou uma lotação, chateado por não estar em um ónibus de dois andares na capital da Inglaterra. Naquele tumulto de gente entrando, saindo e na quantidade de pessoas em pé se esbarrando, fingiu que dormia para não dar lugar a nenhum senhor ou senhora. Desceu no ponto próximo ao seu apartamento, não sem antes ser imprensado, relado e tocado por indígenas brasileiros suados. Bufou. Desceu.

Encontremos Carla fechada em seu quarto, refletindo sobre “Beleza Americana“. Por que Greg havia lhe indicado aquele filme? O filme era maravilhoso, tocante, cheio de sentimentos e de escárnio à classe média burguesa nos Estados Unidos. Mas que bem poderia ser adaptada à sociedade em qualquer parte do mundo. Lembrou-se do beijo que ganhara… Nunca havia sido beijada assim, loucura demais e represada de Greg que, pelo menos, saiu do seu mundinho. Com as amigas que fantasiavam com o professor, Carla manteria segredo, pois a relação de ambos pertenceria apenas a ambos. E até pelo fato de Carla não ter amigos, verdadeiramente. Seu verniz de civilidade era apenas uma cerca para manter as aparências. Não resolvera questões com sua mãe. Poderia se matar a qualquer momento. Se não era uma intenção presente, tampouco deixava de ser. Queria antever a idade adulta através dos olhos de Greg, adulto, e que tinha suportado 40 anos de uma vidinha que parecia sem graça. Como ele conseguiu isso? Buscaria essa resposta e, pelo menos por ora, não se mataria. Ouviu batidas na porta, abriu e sua mãe a convidou às compras; era o dia do mês clássico para  comprar, comprar, comprar. Sua mãe era uma maníaca compulsiva por compras e, quando parava em frente a uma loja de departamentos, tinha alguns hábitos estranhos: mesmo não bebendo vinho, comprava taças e portas-copo a preço de um salário mínimo e, tão logo acabava o gozo pela aquisição em si, o prazer efémero transformava-se em frustração. Carla resolveu sair, vestiu uma roupa qualquer e foi advertida por Brigitte, “Onde já se viu visitar o quarto piso do BH Shopping assim?”. Carla desconversou, abraçou a mãe e disse que quando muito ficaria na FNAC, na Leitura. “Pelo menos ali é um oásis de cultura e discernimento. Poderei ver alguns lançamentos”.

Com parcimónia, arrumou-se para evitar chateações com a mãe. Chegaram ao shopping e, enquanto a sua mãe, toda empetecada, desfilava pelo local, Carla refugiou-se na Leitura. Olhou alguns livros, sentiu saudade de seu amigo Nietzsche e foi à secção de Filosofia. Abriu “Assim Falava Zaratustra” ao léu e leu: “Com os vossos valores e as vossas palavras do bem e do mal, vós, os apreciadores de valor, exerceis poderio; e é este o vosso amor oculto e o esplendor, o tremor e o transbordar da vossa alma. Dos vossos valores, porém, surge um poder mais forte e uma nova vitória sobre si, que parte os ovos e as cascas do ovo. E o que deve ser criador no bem e no mal deve começar por ser destruidor e quebrar os valores. Assim a maior malignidade forma parte da maior benignidade; mas esta benignidade é a criadora. Digamo-lo, sapientíssimos, embora nos custe muito; calarmo-nos é ainda mais duro: todas as verdades caladas se tornam venenosas. Aniquile-se tudo quanto pode ser aniquilado pelas nossas verdades! Há ainda muitas casas a edificar! Assim Falava Zaratustra”.

Como era praxe, sua mãe ligava de cinco em cinco minutos para tomar opinião sobre objetos que desejava comprar. Carla concordava, para não estender conversa. Na terceira ligação, informou que sua bateria estava acabando e… a ligação caiu. A bateria estava cheia, na verdade o que estava acabando era a paciência da filha com as loucuras de consumo da mãe. 

Brigitte passou também na casa de câmbio, trocou reais por euros e visualizou sua estadia na França. Um sentimento ruim tomou conta de seu peito: sua filha não admitia viajar com ela e, na falta de um grande amor, viajaria sozinha. Seu amor era apenas o amor-próprio de quem aparecia em colunas sociais de Belo Horizonte e isso lhe bastara até então. Mas desconfiava que lhe faltasse algo, talvez um romance iniciado e que a fizesse se sentir mulher novamente. Uma mulher que se perdesse nos braços de um homem, isso, sim, seria a sua melhor viagem! Sentia-se solitária desde que se separara do marido. Fechou-se para o mundo e os amores e tudo em nome do amor incondicional pela filha, que não fazia questão de demonstrar amor nenhum, tudo o que fazia era de má vontade. Esse sentimento ruim fez com que fosse ao banheiro. Retocou a maquilhagem, deu dois tapas de leve no seu rosto e, ao sair, encontrou uma socialite que a cumprimentou com olhar superior, mas disfarçou e falou das amenidades e dificuldades da vida da alta classe: “Brigitte, minha querida! Estivemos ontem com o governador. Você sabia que distribuem bótons? Funciona assim: quem pode chegar perto do governador são pessoas discriminadas com determinado tipo de bóton. Fiquei ao lado dele em várias fotos e a imprensa nacional deu cobertura. As amigas dizem que inclusive me viram de relance no jornal da Globo News. Mas a festa foi um sucesso! O governador é tão simpático! Você precisava ver! – e observando as sacolas de compras da amiga, indagou: “– Mas você não traz suas empregadas para carregarem as compras?” – parecia horrorizada.

Com esse acúmulo de informações e na certeza de que não era tão chique assim, pois não tivera a oportunidade de ir à festa do governador, desconversou e inventou:

— Alicinha, minha linda! Minha empregada está no andar de baixo, toda carregada. Minha filhinha está na livraria, também com algumas compras.

— Ah, a sua filhinha! E me diga, ela já foi a Disney?

— Não quis. Bateu o pé e não quis.

— Com todo o respeito, amiga, sua filha é esquisita. Você não me falou que ela não quis a festa de 15 anos.

— Isso mesmo! Não quis…

— Esses adolescentes que aborrecem…

— Aborrescentes! 

Despediram-se e foi o bastante para Brigitte se ver refletida na amiga. Será que aos olhos dos outros ela era assim também? “Vaca metida, essa Alicinha! E bem feito, nem sabe que o marido fez um cruzeiro no Caribe com a secretária peituda”.

Procurou a filha na FNAC. Nada. Desceu na Leitura e foi encontrá-la na secção de Psicologia. Convidou-a a tomar um café e encetaram conversa:

— Filha, comprou qual livro?

— “Uma Temporada no Inferno“, de Rimbaud.

— Rambo? Aquele do cinema? – estranhou a mãe.

— Não, mãe. R I M B A U D! Rimbaud. Escritor francês.

— E que coisa é essa de inferno? É uma leitura boa para você?

— Acredite mãe! É sim. Boa para todo mundo que gosta de ler – enfezou.

Sua mãe percebeu a hostilidade. Resolveu mudar de assunto e falar das compras que havia feito. Comprara um jogo de facas para cortar carnes, um casaco de três mil reais e um leque à francesa para quando fosse viajar. Uma gargantilha de dois mil reais e duas botas, “fiquei na dúvida sobre qual bota compraria, mas no fim levei as duas!”.

Carla sorriu, disfarçou o seu desinteresse com um arquear da sobrancelha e bebeu o café, sua mãe percebeu certo grau de depressão:

— Chateada com algo, minha filha?

— Não – na verdade Carla não queria estragar o deslumbramento antes da viagem de sua mãe. Estou bem…

— Sempre com essa cara emburrada.

— Mãe, é a única cara que tenho!

— Sabe quem eu encontrei?

— Não.

— Alicinha. Aquela que te falei que o marido a trai com todo mundo. Agora está no Caribe com uma de suas secretárias. Uma loira peituda, vi-a uma vez tentando disfarçar o affaire com o safado.

— Mãe, por que se mete nisso?

— Por nada! Mas, Carlinha, você precisa ver! Toda vez que me encontra arruma jeito de me espinafrar, de jogar indiretas e agora, acredite! Implicou com o fato de eu mesma estar levando as minhas compras.

— Mãe, não ligue.

— Como não ligar? Ela me sugeriu que eu trouxesse a empregada, duas, a bem dizer, para carregar os embrulhos. Maldita vaca!

— Mãe, me dá um abraço?

— O que? – Brigitte estranhou.

Carla ficou de pé, sua mãe não teve jeito de refutar, sentiu o aperto nas costas e um choro convulsivo e constrangedor para a sua posição de grã-fina e socialite. Sentiu-se invadida, pediu para que a filha parasse de dar escândalo, mas, a cada vez que pedia isso, parecia convulsionar o choro da filha. O gerente chegou a perguntar se estava tudo bem, Brigitte disfarçou e disse ser a filha muito emotiva. Mais choro convulsivo.

O melhor abrigo de Carla era o peito e os braços da mãe. Ela se perderia ali. Amava sua mãe, descobrira isso agora. Coitada! Ela não tinha culpa de sua futilidade. Não tinha culpa de ser vazia. Vazia também era ela, Carla! Vazia de uma vida sem sentido e insossa. Sua temporada no inferno traduzia-se em 15 anos vividos como se estivesse perdida. Lembrou-se do beijo de Greg. Lembrou-se da erecção de Greg. Mas não o amava, isso não. Era apenas sua amiga. Lembrou-se da leitura e do amigo alemão, Nietzsche. Nietzsche era a sua válvula de escape. Acalmou-se aos poucos e chegou a molhar verdadeiramente o vestido da mãe, dirigiram-se ao estacionamento e um silêncio constrangedor pairou sobre mãe e filha até a volta ao condomínio.

Marcelo Pereira Rodrigues

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