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Porque A Arte Somos Nós

No que toca a “American Beauty”, indo diretamente ao assunto, as estreias do então realizador de teatro Sam Mendes, e do argumentista de televisão Alan Ball, culminaram numa obra de excelência tal, que é difícil conceber que esta seja a primeira tentativa de ambos no fantástico universo do cinema.

Nomeado para oito Óscares na cerimónia de 2000, dos quais arrecadou cinco – entre eles o de Melhor Filme – “American Beauty”, ou em português, “Beleza Americana“, é um drama cómico com sugestões obscuras marcantes e uma quota-parte de ressonância emocional que convida o espetador a analisar a sua própria existência à medida que decorrem as duas horas de filme.

O protagonista, Lester Burnham (Kevin Spacey), é um homem de 42 anos sem qualquer entusiasmo pela vida. Está preso a um casamento (Annette Bening) que é o oposto da versão idealista “felizes para sempre”, a sua filha (Thora Birch) pensa que ele é um autêntico falhado e o seu trabalho está tão estancado como a sua vida sexual. O próprio refere que o ponto alto do seu dia é a sua sessão matinal de masturbação no chuveiro.

Lester Burnham (Kevin Spacey) e Carolyn Burnham (Annette Bening)

Até que, sem expectar, fica enamorado por uma amiga (Mena Suvari) da sua filha aquando uma performance de cheerleaders na qual ela participara. Isto reacende a vontade de viver de Burnham, sendo o ponto de partida para uma série de mudanças e atitudes, mas com que consequências?

Esta chama inicial é o combustível de um filme cuja genialidade está em aproveitar com juízo todas as personagens, não havendo assim uma única cena desperdiçada ou momentos de interesse menor. Além do mais, o argumento de Alan Ball passa grande parte do tempo a desconstruir estereótipos e a revelar informações que mais tarde ou mais cedo são postas em causa.

Isto provoca alterações de tom na narrativa que por vezes estão associadas ao trágico, outras vezes são passíveis de causar gargalhadas. De uma ou outra forma, nota-se em “Beleza Americana” uma vivacidade e um gozo que espelham o estado de espírito dos seus criadores.

Está claro que um filme sobre aparências e vidas suspensas também só funciona na medida em que os atores correspondem aos papéis. Sam Mendes, ao comando das interpretações, demonstra a confiança característica de alguém com currículo em trabalho de palco, levando Spacey a uma das melhores atuações da sua carreira. A sua interpretação suscita parte da graça das cenas, no entanto, possui da mesma forma uma leveza interessante, como se o trabalho do ator fosse de fácil digestão.

A sensualidade de Angela Hayes (Mena Suvari)

Na mesma página encontra-se Bening, que no papel de mulher alienada da relação e altamente focada no seu sucesso enquanto agente imobiliária, interpreta a personagem com uma aura caricatural, proporcionando momentos hilariantes.

Cada elemento do elenco conta uma história por si, recheando “Beleza Americana” de conteúdo e pensamentos que acompanham o espetador além filme. Dentro das reflexões da narrativa, uma salta à mente pela sua beleza diferenciadora. Uma cena onde uma personagem expressa o possível encanto de um saco de plástico a dançar com as folhas por meio do vento.

Um acontecimento de tal forma mundano que atribuir-lhe encanto pode soar pretensioso, mas que no contexto da obra prevalece como uma chamada de atenção perspicaz para valorizarmos os pequenos momentos da vida, os pormenores aparentemente (in)significantes, a capacidade de perspectivar algo que pode fazer a diferença na correria do dia-a-dia.

Bernardo Freire

Rating: 4 out of 4.

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