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Porque A Arte Somos Nós

Um ensaio é pouco para discorrer acerca de “Ilusões Perdidas“, do francês Honoré de Balzac, de modo que farei uma breve introdução acerca do homem Balzac, acentuando algumas características bem peculiares. A seguir, discorrerei sobre o livro em si, dividindo a narrativa em partes, a ver: a descrição da província francesa Angoulême, e a descrição da capital, Paris. Tudo isso analisado a partir de um ponto de vista também provinciano.

Honoré de Balzac (1799-1850) deu ao conjunto de sua obra o nome de “Comédia Humana“. Desses volumes, “Ilusões Perdidas” é o seu trabalho de maior fôlego. O autor possuía uma característica bem particular: fazia as suas personagens transitarem pelos seus romances. Estudos mais fundamentados fazem crer que Balzac conseguiu criar ou citar cerca de três mil e quinhentas personagens. Provinciano, mas com sonhos fidalgos, ele pagou o preço por viver apenas da literatura (maldito clichê), “comendo o pão que o diabo amassou”.

Se o leitor(a) se lembrar do termo “mulher balzaquiana”, na casa dos trinta anos, já terá captado um traço defendido pelo escritor na obra “A mulher de trinta anos“. É que à época a sociedade tradicional francesa entendia a mulher desejável apenas até à idade de 25 anos. O escritor foi pouco convencional ao desmistificar esse gosto. Balzac e este articulista bem sabem o quanto uma trintona nos desperta o interesse.

“Ilusões Perdidas”, Honoré de Balzac

Toda escola de Jornalismo (falo das universidades sérias) recomenda a leitura de “Ilusões Perdidas”. É que ao longo da trama, o autor vai fazendo um raio-X acerca do jornal. Fornece todos os detalhes sórdidos, as mesquinharias, as futricas, os jogos de interesses e o mal que a imprensa pode acarretar na vida de pessoas simplórias. Luciano Chardon, que almeja o título de nobreza Rubempré, pode ser considerado o alter ego de Balzac. Luciano é um poeta provinciano, escritor e futuro jornalista que sonha vingar em Paris.

Se o leitor(a) analisar bem o título, as ilusões perdidas remeterão obrigatoriamente ao fracasso do intento, mas é sobremaneira importante passear pelo enredo. Esse título desgostoso tem genérico no Brasil, algum tempo depois, quando Lima Barreto titulou a trajetória da personagem Policarpo Quaresma (“Triste fim de Policarpo Quaresma“). Também um ótimo livro!

A primeira parte da obra “Ilusões Perdidas” tem como cenário a cidade de Angoulême. Província bem característica francesa, faz com que o autor discorra brilhantemente sobre o modo de vida tacanho de seus cidadãos. Luciano tem o sonho de ser aplaudido pelos seus poemas. Encontra interlocução apenas no fiel amigo David Shéchard e na Senhora de Bargeton, “mulher balzaquiana” à frente de seu tempo, que promove saraus literários em sua residência, um marco para aquelas moças de postura pudica. A amizade de David e Luciano é transcendental, fiel, a ver o perdão que o primeiro sempre dá às tresloucadas aventuras perdulárias do promissor poeta.

Num desses saraus, Luciano é convidado a ler os seus escritos. Logo percebe, humilhado, que Angoulême não comporta mais o seu talento. As pessoas simplesmente não compreendiam poesia; eram rústicas e roceiras, a bem da verdade. Rumores tomam forma no caso de amor entre Luciano e a Senhora de Bargeton, um escândalo para aquela pacata cidade.

Angoulême torna-se mais sufocante do que seria no normal. Torna-se uma prisão sem grades para Luciano. Este apresenta um caráter frágil, pouco afeito ao trabalho braçal. Se quisermos fazer uma analogia interessante, a atualidade dessa condição se faz presente em muitos neófitos em literatura que desejam crer terem lançado o “livro do ano”, mas renegado ao ocaso pelos interesses de pessoas que não sabem o que é arte, cultura, literatura. Daí o desprezo a esses literatos… 

Um provinciano na capital! Luciano empreende uma malfadada fuga com a Senhora de Bargeton. Ambos já não suportavam a província. Logo de cara, as aparências se mostram desanimadoras. Por um capricho ou por um desgosto, a Senhora de Bargeton se separa de seu pupilo, por entender que, por mais que fosse belo, Luciano não tinha classe nenhuma para frequentar os belos salões parisienses. “Uma vez provinciano, sempre provinciano”, parece ser o pensamento dela acerca dele.

Luciano Chardon

É dessa forma que Luciano se vê sozinho na metrópole Paris. Frequentando o Quartien Latin (bairro latino, existente até hoje e um dos pontos turísticos mais visitados), Luciano vai se virando como pode, fazendo as suas refeições no Flicoteaux, uma tasca para pobres estudantes na capital. É lá que ele fará boas amizades, como a de Daniel de Arthez, intelectual cheio de princípios, mas pobretão.

Logo Luciano será introduzido na república de Arthez: jovens idealistas que não fazem concessões quanto ao sucesso. À primeira vista, Luciano é acolhido nessa república, mas os seus sonhos de grandeza e megalomania o farão desejar a todo custo o sucesso. Agora Luciano é movido por um motivo especial: fazer a Senhora de Bargeton ver que ele é capaz de caminhar com as próprias pernas.

O “poeta de Angoulême” começa a buscar possíveis editores para os seus livros, uma vez que possuía tanto um romance quanto um libreto de poemas. Após negativas e mais negativas, compreende a perfídia de editores inescrupulosos e seus sonhos vão se acomodando até ser introduzido nos meios jornalísticos, escrevendo uma crítica teatral que o alçará à condição de disputado crítico na imprensa local. Aqui se revelará toda a maldade, todos os bastidores, tudo aquilo que deverá ser elogiado ou achincalhado. Detalhando o que seria na verdade o jornal, a personagem Cláudio Vignon dispara, nessa seguinte citação:

O jornal em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos e de um meio passou a ser um negócio. Não tem fé nem lei. Todo jornal é, como disse Blondet, uma loja onde se vendem ao público palavras da cor que deseja. Se houvesse um jornal dos corcundas, haveria de provar noite e dia a beleza, a bondade, a necessidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Desse modo, todos os jornais serão, dentro de algum tempo, covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos. Matarão as ideias, os sistemas, os homens e, por isso mesmo, hão de tornar-se florescentes.

Qualquer semelhança com a atual situação não terá sido mera coincidência, a ver a indústria jornalística amparando políticos corruptos, mais notáveis em cidades do interior.

Desiludido em Paris, o provinciano Luciano de Chardon se vê obrigado a retornar a Angoulême. Por total falta de perspectivas, Luciano conhece a fama, mas de modo efémero. O que sobe rápido desce mais rápido ainda. Na bancarrota de seus sonhos, ele engana sua família e benfeitores mentindo e vivendo uma vida cheia de lascívia e auto-engano. Como avalista de seus tresloucados projetos, o amigo David entra numa fria e num processo que permeará grande parte da terceira fase da obra. Um dos grandes achados de Balzac (e fina ironia) foi publicar trechos de um processo que ele mesmo estava sofrendo, por insolvência financeira. Obviamente, isso atesta mais verdade à obra.

“A volta do filho pródigo” encontra razão e sentimento no apoio de uma família que quase ruiu por causa da soberba adolescência. Mas o perdão traveste-se de amor, compreensão e remete a algo metafísico. Luciano encontra (ou reencontra) o amor que lhe faltava na “Cidade Luz” (termo posterior). Problemáticas à parte, “Ilusões Perdidas” pode bem servir para pessoas que sonham morar no estrangeiro, afinal, sonhos infundados podem nos fazer acreditar que “algodão-doce é nuvem”. Ilusões todos têm, mas perdê-las pode significar o fim de um ciclo romantizado e ingénuo. Luciano pagou caro o seu desejo de fama. E você leitor(a), quer pagar para ver?

Marcelo Pereira Rodrigues

O escritor Marcelo Pereira Rodrigues em Maison de Balzac, em Paris

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