OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Como no filme “Meia Noite em Paris” (2011), de Woody Allen, uma família brasileira excursionava pela França e visitavam avidamente a Cidade Luz. Honório estava com a sua esposa, e na companhia de seus sogros. Saltava aos olhos as diferenças de opiniões e gostos entre ele e os outros. Nos dois primeiros dias em Paris, visitaram a Champs-Élysées, o Arco do Triunfo, o Museu do Louvre e os jardins das Tulherias, tudo muito rápido e superficial.

Onde já se viu entrar no Louvre, reclamar do ingresso de 15 euros e permanecer no lugar apenas uma hora, sendo quinze minutos na praça de alimentação, mais dez na lojinha comprando um livro ilustrado em português sobre o local? Sempre voto vencido, Honório descobriu a sua incompatibilidade para ser feliz ao lado do trio. Na próxima, tentaria escapar de visitações conjuntas.

Na segunda-feira, acordou cedinho. Acordou a esposa e revelou o desejo de dar uma voltinha pelos arredores. Dolores reclamou do fato de ter sido acordada, revirou-se para o lado e colocou novamente o tapa-olhos para dormir. Alertou o marido para que estivesse no hotel às 14:00 horas, pois iriam as Galerias Lafayette para as devidas compras. Honório tomou um banho rápido, vestiu-se elegantemente e desceu para um rápido café. Perguntou ao garçom o itinerário até a Maison de Balzac, ao que ele não soube ao certo. Maison era casa, que fique bem claro.

Então ele acessou o seu smartphone, orientou-se pelo grande mapa de papel que estava em seu bolso e pressentiu que em 20 minutos, andando bem, chegaria ao local. Ele estava hospedado no Hotel Beaugrenelle, que distava 15 minutos da Torre Eiffel. Um módico hotel, para o gosto chique e extravagante de sua esposa e sogros. Já ouvira toda sorte de reclamações, devido as acomodações serem pequenas, mas para ele estava tudo muito bom e eficiente.

Despediu-se no hall do hotel e ganhou a rua, completamente escura ainda, devido ao outono intenso que apontava dois graus Celsius e as ruas estavam completamente desertas, isso às oito da manhã. Vez ou outra cruzava com um automóvel. O vento frio açoitava-lhe o rosto. Ele, com as mãos nos bolsos do sobretudo, seguia e ia se esquentando um pouco. Viu a soberba Torre Eiffel e atravessou a ponte sobre o Rio Sena. Viu jardins e pessoas que ousavam passear com os seus cães.

Perguntando aqui e ali, sendo o último interlocutor um quitandeiro, achou-se na Rua Raynouard. Viu o portão com um batente aberto e foi avisado por um senhor transeunte que o lugar estava fechado para reformas, que apenas o jardim estava aberto a visitações. Entrou. Passeou pelo jardim, deu uma olhada pelas vidraças da casa e se emocionou ao saber que ali fora uma das casas do autor a quem admirava bastante, simplesmente o autor de “A Comédia Humana“.

O jardim com heras no muro apresentava alguns bustos do anfitrião, dois ou três, ele sentou-se em um banco com pintura verde escuro e rememorou algumas passagens de livros de Balzac. Como não se emocionar com as personagens de “Ilusões Perdidas“, naquilo que o próprio título já vaticinava que seriam desventuras em série de Luciano de Rubempré, vindo do interior, Angoulême, tentando vencer na cidade grande?

Honório viajou nas lembranças naquela hora, rememorando as passagens que o alter ego de Balzac fazia os seus empreendimentos via imprensa e gráfica, para a publicação de seus próprios folhetins e livros. As festas da alta sociedade parisiense, com as suas figuras decadentes e pomposas, sendo Balzac o repórter que dissecou grande parte dela. Honório riu ao perceber que o próprio Balzac era um impostor naquelas festas, uma vez que não tinha eira nem beira para participar delas. Mas, como se fosse um personagem de si mesmo, pertencia a esse mundo glamoroso e decadente da Paris de sua época.

Honório viu um preguiçoso Sol apontar timidamente, lutando para aparecer detrás das pesadas cortinas de nuvens negras. Arrefeceu o espírito e chegou a sentir calor no pescoço, devidamente enrolado a uma echarpe. Lembrou-se do termo “mulher balzaquiana” e da redenção a que o autor fez com todas as mulheres com 30 anos ou mais, entendendo a época que os atributos da beleza e jovialidade só pertenciam às mulheres de no máximo 25 anos. Daí o título de um importante livro: “A Mulher de Trinta Anos“.

Riu ao se lembrar de sua esposa, sempre preocupada com os cuidados do corpo e da pele, mas pouco afeita ás questões intelectuais mais sérias. Nem a literatura de auto-ajuda a entretinha. Criada nos moldes do consumo por pais abastados, não se preocupava com assuntos literários e vida de pensamentos. Não problematizava nada. Apenas vivia.

O visitante caminhou um pouco mais. Observou nos fundos da casa a cúpula da Torre Eiffel e atestou o óbvio: ela não havia sido construída ainda nos tempos de Balzac. O que acharia ele daquela vista? Honório achou-a bonita, obstaculizada em parte por uma árvore desfolhada e seca. Incrível a passagem do tempo, dessas coisas que existem e dessas que não existem mais, sendo que algumas aparecem com o tempo. Deu mais uma volta e retornou ao banco, estranhando um pouco o fato de não haverem pedreiros no local, turistas tampouco. Nada de nada. “Melhor assim”, refletiu, “desse modo posso viajar nas lembranças e nas referências”.

Revisitou mentalmente “O Pai Goriot“. Outra crítica contumaz do autor à sociedade francesa, onde uma filha explora as riquezas do pai, para deixá-lo numa pensão miserável e obter o dinheiro para adquirir um pomposo vestido para um baile da alta sociedade. Honório refletiu sobre a superficialidade de algumas pessoas e no quanto Balzac tinha de psicólogo ao analisar atitudes de seres humanos, não à toa criando personagens que, muitos afirmam, chegaram a três mil, sendo que a maioria transitava entre as suas outras obras com desenvoltura. “Que mente fecunda“, analisou.

Perdeu-se ali mais algum tempo, e quando deu por si estava com dormência na perna direita. Levantou-se, bateu o pé e sacou o smartphone para fazer algumas fotos, sendo que uma fez o selfie numa foto que lhe marcaria para sempre. O pobre menino do interior de Minas enfim conhecia a casa do autor que havia embalado alguns de seus dias na juventude, quando se perdia nos maçudos livros para combater o tédio de uma vida monótona. Riu gostosamente, amparado pela ausência de outros visitantes no lugar, certamente mais preocupados com as visitações mais tradicionais da capital francesa, mas que, para o desespero dele, concentrava, muita gente.

De volta ao Brasil, sua esposa o informa que receberão para o jantar um casal de amigos, da alta indústria metalúrgica do Estado de São Paulo, os Pires y Cavalcantis. Adverte-o para que se prepare bem, faça a barba e Honório, sabedor do intervalo de cinco horas entre o aviso e o jantar, consente e avisa apenas que ficará em seu escritório e biblioteca para passar um pouco o tempo.

— Por favor, amor, não vá perder as horas lá dentro. Sempre que fica lá você esquece do tempo.

— Pode deixar, amor.

— E faça a barba. Nossos convidados são muito elegantes.

— Não te farei passar vergonha – e saiu, dirigindo-se para a sua Bat-Caverna.

Fechou a porta e sentou-se no canapé. Avistou os clássicos da literatura francesa em sua estante e se dirigiu a ela. Sacou “Ilusões Perdidas”, retornou ao canapé e pôs-se a ler algumas marcações e rabiscos que fizera nos destaques de algumas passagens. Sentiu-se reconfortado e viajando novamente pela casa do amigo Balzac e, ali naquele silêncio, era como se estivesse conversando com o próprio. O livro, adquirido em um sebo em 24 de junho de 2007, permitiu-lhe uma viagem fantástica, em passagens como estas (não sabia ao certo o motivo de aquelas passagens terem lhe chamado a atenção):

“… obras tão fracas como “A Mulher de Trinta Anos”. (Nota introdutória de Paulo Rónai);

“Luciano encarna, antes de tudo, o tipo universal do talento provinciano seduzido pelo brilho da capital”. (Nota introdutória de Paulo Rónai).

E no livro propriamente dito:

Quem topa tudo, dizia o velho Séchard, não paga nada“.

“’Será que meu filho enriqueceu?’ pensou, ou ‘projeta ele, desde agora, não me pagar?”.

“— Ah! Compravas livros? Farás maus negócios. As pessoas que compram livros não são as mais indicadas para imprimi-los – respondeu o Urso.”

“Tomaram assim os Cointet a dianteira nesse ramo lucrativo e caluniaram David Séchard acusando-o de liberalismo e de ateísmo”.

“David, porém, teve de obrigar-se a jamais imprimir qualquer outro jornal, fosse qual fosse, sob pena da multa de trinta mil francos por danos e prejuízos”.

“O amigo de David Séchard era um jovem de cerca de vinte e um anos, chamado Luciano Chardon, e filho de um amigo cirurgião-major dos exércitos republicanos, afastado do serviço por um ferimento”.

“Uma das infelicidades a que estão sujeitas as grandes inteligências é a de compreender forçosamente todas as coisas, tanto os vícios quanto as virtudes”.

“Luciano havia lido muito e muito comparado; David pensara muito e muito meditara”.

“’Ao boi a paciente agricultura, e ao pássaro a vida indolente’, pensava o tipógrafo. ‘Serei o boi e Luciano será a águia’”.

“— Senhor – disse a David, tirando do bolso um enorme caderno -, aqui está uma memória que desejo publicar. Quer calcular quanto vai custar?”.

“… dois jovens cisnes, aos quais a vida provinciana não cortara ainda as asas”.

“… costumes antiquados daquelas famílias presas de um realismo ininteligente, imbuídas de devoção antes que religiosas, vivendo todas imóveis como a sua cidade e o seu rochedo”.

“O habitante do Houmeau parecia-se muito a um pária”. “Quanto ao Sr. de Nègrepelisse, daria todos os livros da filha para salvar um boi doente”.

“Acreditava-se muito forte em diplomacia, a ciência daqueles que não possuem nenhuma outra, e que, por seu próprio vazio, mais profundos parecem; ciência, aliás, bastante cómoda, por isso que se demonstra pelo exercício mesmo de seus altos empregos; porque precisando de homens discretos, ela permite aos ignorantes nada dizerem, fecharem-se em acenos de cabeça misteriosos; porque, enfim, o homem mais forte nesta ciência é aquele que nada, conservando a cabeça acima da onda dos acontecimentos que simula conduzir, tudo reduzindo, assim, a uma questão de leveza específica. Aí, como nas artes, se encontram mil mediocridades para um homem de génio”.

“Quanto às mulheres, na maior parte tolas e sem graça, vestiam-se mal, todas tinham alguma imperfeição mal disfarçada. Nelas, nada era completo: nem a conversação nem a indumentária, nem o espírito nem a carne”.

“A Sra. de Bargeton, entusiasmada com a renascença devida à influência da flor-de-lis, admirava Chateaubriand por ele ter chamado Victor Hugo de menino sublime”.

“Tocou para ele alguns belos trechos de Beethoven e o arrebatou”.

“Apregoou pelo departamento um sarau com gelados, doces e chá, grande inovação numa cidade onde o chá se vendia ainda nas farmácias, como droga empregada contra as indigestões”.

“Luciano mordeu a maçã do luxo aristocrático e da glória”.

“Luciano escreveu uma longa carta à sua Luísa, porque se achava mais ousado com a pena na mão do que com a palavra nos lábios”.

Descartes tinha a aparência de um bom negociante holandês. Muitas vezes, encontrando Montesquieu com seu ancinho ao ombro, seu boné de noite à cabeça, os visitantes de Brède o tomavam por um vulgar jardineiro”.

“Em geral, o senso necessário à compreensão da poesia é raro na França, onde a inteligência seca prontamente o manancial das santas lágrimas do êxtase, onde ninguém quer dar-se ao trabalho de decifrar o sublime, de sondá-lo para perceber o infinito”.

“Ainda que o impressor se houvesse resolvido a falar de si, não achou nada para dizer ao dar o braço à bela Eva para atravessar o Houmeau”.

“Os deveres da sociedade lhe devorarão o tempo, e o tempo é o mais precioso capital das pessoas que só têm a inteligência por fortuna”.

“Ora, os êxitos literários só se conquistam na solidão e através de um trabalho obstinado”.

“A mão-de-obra nada custa na China; um dia de trabalho vale três sous“.

“As criaturas de talento nunca são compreendidas por sua família”.

“Os três filhos apressaram-se então a contar à mãe assombrada seu encantador projeto, entregando-se a uma dessas loucas conversas de família em que a gente se apraz em armazenar sonhos e semear os projetos, em gozar de antemão todas as alegrias”.

“A fortuna de minha mãe era a sua inteligência e sua beleza”.

“Essas moscas sugadoras de sangue acorrem bem depressa para se saciarem nas picadas que fizeram”.

“Sr. Chardon, aliás de Rubempré”.

“Os provincianos são naturalmente importunos, gostam de contrariar as paixões nascentes”.

“Escolho a pistola, sou o ofendido”.

“Mãe e filha haviam empregado todas suas economias para fornecer à casa de David as coisas em que os rapazes nunca pensam”.

“… e logo estaremos em Paris. Lá, querido, é que há vida para criaturas superiores”.

“Para os artistas, o grande problema a resolver é o de se porem em evidência. Surgirão logo para você mil oportunidades para fazer fortunas, sinecuras, uma pensão do governo”.

“Viu-se em Angoulême como uma rã debaixo de sua pedra ao fundo de um pântano”.

“Um homem deve estudar bem uma mulher antes de lhe deixar perceber como se manifestam suas emoções e pensamentos”.

“… ele se entregava às suas alegrias de camundongo recém-saído da toca”.

“Luciano não se podia queixar: Gentil e Albertina os serviam. O jantar não tinha ali o aspecto de abundância e de bondade essencial que distingue a vida na província. Os pratos, racionados pela especulação, vinham de um restaurante vizinho, parcamente servidos, cheirando a jejum. Paris não é nada agradável nessas pequenas coisas a que são condenadas as pessoas de fortuna medíocre”.

“Ser algo em sua terra e nada ser em Paris são dois estados que requerem transições”.

“Apesar de o vulgo não admitir que os sentimentos mudem repentinamente, o certo é que dois amantes separam-se mais depressa do que se ligaram”.

“Esse pobre rapaz é singularmente enfadonho”.

“— Assim acontece com todos aqueles que têm um mundo de pensamentos no coração e no cérebro. Os homens que têm tantas coisas a exprimir em belas obras por muito tempo sonhadas, professam certo desprezo pela conversa, comércio em que o espírito se amesquinha, malbaratando-se – disse a orgulhosa Nègrepelisse, que teve ainda a coragem de defender o poeta, menos por Luciano que por ela mesma”.

“Afinal de contas, publicam-se aqui todas as semanas volumes de versos dos quais o pior vale mais que toda a poesia do Sr. Chardon”.

“Após descobrir que havia um traje para a manhã e um traje para a noite…”.

“O problema da indumentária é aliás enorme para aqueles que desejam aparentar o que não têm, porque é quase sempre o melhor meio de vir a possuí-lo mais tarde”.

“— Tua vaidade, meu caro poeta, é tão grande, que a pões até mesmo na amizade! – exclamou Fulgêncio. — Toda vaidade desse género acusa um egoísmo assustador, e o egoísmo é o veneno da amizade”.

“— Seria a sepultura do belo, do suave Luciano que amamos e conhecemos – de Arthez. — Não resistirias à constante alternativa de prazer e de trabalho de que é feita a vida dos jornalistas, e resistir é o fundamento da virtude. Ficarias tão encantado por exercer o poder, por ter direito de vida e morte sobre as obras do pensamento, que te tornarias jornalista em dois meses. Ser jornalista é passar a pro-cônsul ma república das letras. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer! Esta máxima é de Napoleão, e é fácil de compreender”.

“Diante do insucesso das diligências a propósito de seu primeiro romance, Luciano estava pouco tentado a escrever um segundo”.

“A amizade perdoa o erro, o movimento irrefletido da paixão, mas deve ser implacável para quem premeditadamente vai traficar com a sua alma, o seu pensamento e o seu espírito”.

“— Se eu tivesse de dar um conselho ao senhor – disse Barbet – seria o de deixar os versos e entregar-se à prosa. Ninguém mais quer versos nas livrarias do cais”.

“— o jornal não pode recuar. O Sr. Chatelet incomodou-se: não o deixaremos em sossego durante uma semana”.

“… ele deve ser um grande poeta no prazo de três meses”.

“Todos nós gostamos de Nathan e vamos atacá-lo”.

“Franklin, que inventou o para-raios, o boato e a república”.

“— O jornal – disse Lousteau — toma como verdade tudo o que é provável. Partimos daí”.

“É preciso que sejas mau com os homens; é boa política”.

“— Acreditas que Dauriat tenha lido ou feito ler teus sonetos? – perguntou-lhe Estévão ao ouvido.

— Acredito – respondeu Luciano.

— Olha para o cordão e a marca.

Luciano viu a tinta e o cordão a concordarem perfeitamente.

— Qual dos sonetos lhe agradou mais particularmente? – perguntou Luciano ao livreiro, empalidecendo de cólera e de raiva.

— São todos notáveis, meu amigo – respondeu Dauriat -, mas aquele sobre a margarida é delicioso, termina com um pensamento subtil e delicado. Foi aí que compreendi o êxito que sua prosa há de obter. Por isso, imediatamente recomendei-o a Finot. Escreva-nos artigos, havemos de pagá-los bem. Olhe aqui: quer pensar na glória, muito bem, mas não esqueça a parte sólida e aceite tudo o que se apresentar. Quando for rico, então escreva versos.

O poeta saiu bruscamente para as galerias para não estourar. Estava furioso.”

“Uma das manias desses espíritos tacanhos é a de imaginar que sob o sol não há lugar para dois êxitos. Fará, por isso, com que teu artigo saia no jornal em que trabalha”.

“Não há nada para dar autoridade a um crítico como o falar de um autor estrangeiro desconhecido”.

“… ‘literatura de ideias’. Armado dessa expressão, jogas todos os mortos ilustres à cabeça dos autores vivos. Explicarás então que em nossos dias surge uma nova literatura na qual se abusa do diálogo (a mais fácil das formas literárias) e das descrições que dispensam a ideia”.

“Farás incidir essa argumentação sobre Nathan, demonstrando que é um imitador e que tem apenas a aparência do talento”.

Anuncia-se uma segunda edição do livro do Sr. Nathan. Pretendíamos guardar silêncio sobre essa obra, mas a aparência de êxito nos obriga a publicar um artigo, menos sobre a obra em si que sobre a tendência da nossa jovem literatura“.

“O Barão Châtelet comete a tolice de tomar a sério os artigos”.

“‘A ironia é como o algodão, que, fiado muito fino, rebenta’, disse Bonaparte”.

“As pessoas calmas cujo tema só se fixa depois do profundo esquecimento em que tomba um artigo injurioso, essas manifestam a verdadeira coragem literária”.

“Hoje, a crítica, após haver imolado o livro de alguém, estende-lhe a mão. A vítima deve abraçar o verdugo sob pena de ser fustigada pelos açoites do escárnio”.

“Havia apenas dois partidos: o realista e o liberal, o dos românticos e o dos clássicos”.

“Se o ministro da Justiça se suscetibilizar com algum tópico engraçado e lhe provarmos que Luciano é o seu autor, há de encará-lo como indigno dos favores do rei. Para que o grande homem da província perca um pouco a cabeça, estamos preparando a queda de Corália: há de ver a amante vaiada e sem papéis”.

“Na vida dos ambiciosos e de todos quantos não podem triunfar senão com a ajuda dos homens e das coisas, segundo um plano de ação mais ou menos bem estabelecido, observado e mantido, há um momento cruel em que não sei que poder os submete a rudes provas: tudo falha ao mesmo tempo, por todos os lados os fios se rompem ou se emaranham, a desgraça surge de todos os cantos. Se um homem perde a cabeça em meio dessa desordem moral, está perdido. Os que sabem resistir a essa primeira revolta das circunstâncias, que se conservam firmes deixando passar a tormenta, que fogem, subindo, por meio de um espantoso esforço, à esfera superior, esses são os homens realmente fortes”.

“Os aplausos causavam-lhe uma espécie de embriaguez inútil ao seu amor-próprio, mas indispensável à sua coragem. Um murmúrio de desaprovação ou o silêncio de um público distraído anulavam-lhe os recursos”.

“Todos os cronistas atribuíam a Corália a queda da peça”.

“Seus amigos davam a Corália, numa fraseologia admirável de bondade, de interesse e complacência, os mais pérfidos conselhos”.

“Não se deve nunca passar de um campo a outro sem antes haver preparado boa cama”.

“Quem era ele nesse mundo de ambições? Uma criança que corria atrás dos prazeres e gozos da vaidade, sacrificando-lhes tudo; um poeta sem reflexão profunda, dirigindo-se de uma luz para outra luz como uma borboleta, sem plano fixo, escravo das circunstâncias, pensando bem e agindo mal. Sua consciência foi-lhe um carrasco impiedoso”.

“A atriz havia representado numa pequena peça, de improviso, e conseguira uma desforra, obtendo aplausos legítimos e não estipendiados”.

“O seu irmão é uma pequena águia a quem cegaram os primeiros raios do luxo e da glória. Quando uma águia tomba, quem pode saber no fundo de que precipício se deterá? A queda de um grande homem está sempre em proporção da altura a que chegou”.

“… a tarefa de um escritor é conceber paixões, pois sua glória consiste em expressá-las”.

“O seu Luciano é um homem de poesia e não um poeta, sonha e não pensa, agita-se e não cria. É, permita-me que o diga, uma mulherzinha que gosta de aparecer, o principal vício do francês”.

“Poderá fazer um belo livro numa fase de cólera ou de felicidade, e mostrar-se insensível ao sucesso depois de o ter desejado”.

“Quando concedida muito facilmente, a admiração é um sinal de fraqueza”.

“Diverte-se com os bufões, sem lhes pedir outra coisa senão prazer, e esquece-os prontamente”.

“Enquanto for jovem, Luciano agradará; mas, aos trinta anos, em que posição estará ele”?

“Não se colhem as searas regadas a tinta (quando se colhem) senão dez a doze anos após a semeadura, e Luciano tomou a erva pela espiga”.

“Ora, na mesma tarde a casa Cointet Irmãos recebera de Paris os três mil francos de letras falsificadas por Luciano”.

Foi interrompido por batidas na porta. Sua esposa o alertava que já eram quase seis horas e era a hora de fazer a barba e tomar o banho. Sabia ela que Honório ficava absorto na biblioteca e perdia a noção do tempo ali. Ele fechou o livro, saiu rapidamente e foi fazer a sua toalete. Retornando, sua esposa, muito bem vestida e com um coque e maquilhagem parecendo que iria a um baile, implicou com a simplicidade de suas vestes.

Para evitar aborrecimentos, trocou a indumentária e vestiu uma calça social com um paletó cinza, sobre uma camisa branca da Hering. Um sapato mais informal e enfim sentia-se completamente deslocado, menos pela roupa e mais até pela previsão do papel difícil que teria que desempenhar frente aos convidados, os famosos Pires y Cavalcantis, grandes industriais, membros do Rotary, maçons, habitués das colunas sociais da Folha e Estadão e mais uma série de coisas, inclusive com contatos no governo de São Paulo e com amizade com o ministro da Economia. Enfim, os dois eram o que tinham de mais importantes no tocante a pertencimento social.

Chegaram. Cumprimentaram-se. Informalmente, Honório conduziu os convidados a uma sala de estar, onde um vinho glamoroso os aguardava. Aos poucos, separaram-se as conversas. O anfitrião e Alberto falavam sobre negócios, economia global, eventos internacionais, uma missão comercial do Brasil em Nova Iorque, obviamente assuntos aventados por Alberto. Honório concordava, pouco afeito a esses assuntos de tanta monta, ele que era professor de filosofia na USP.

A esposa e Sara conversavam sobre eventos beneficentes, colunas sociais, as últimas compras feitas em Nova Iorque, tudo pelo prisma da convidada, pois a anfitriã apenas aspirava a esse mundo. Na verdade, a sua estratégia era conquistar a confiança de Sara aos poucos, de modo a lhe propor um vantajoso negócio (ao menos para ela, claro. Via-se claramente que ali a riqueza era desproporcional. Sara entendia como centavos o que era milhão, enquanto a anfitriã lutava a duras penas para chegar à metade de um milhão). Jantaram e enfim conversaram amenidades, com a anfitriã comentando a viagem a Paris, antecipadamente proibindo o marido de dizer o hotel em que ficaram, por vergonha. Até que, lá pelas tantas, Sara esclareceu:

— Amiga, fora os eventos beneficentes, não invisto nada em projetos que visam lucros. Nas empresas dele – apontando para o esposo – ele agora só sabe dos números na Bolsa de Valores. Não interferimos em assuntos de finanças nas nossas empresas e, devido a isso, vejo com poucas possibilidades o negócio da revista que me propôs.

A anfitriã mal disfarçou uma contrariedade. Honório segurou-se para não emitir nenhuma opinião e o clima ruim foi quebrado pelo convidado, que elogiou a safra do vinho francês. Passadas duas horas, chamou o seu motorista particular, que em um Audi veio lhe buscar. Fechando a porta atrás de si, a esposa estava terrivelmente abalada, e começou a descontar a sua frustração em Honório. Mal conseguindo se segurar, ele ousou rir, tentando disfarçar.

Foi a deixa para que a esposa lhe lançasse toda sorte de impropérios, a ponto de o esposo pedir encarecidamente que ela se controlasse, pois chamaria a atenção dos vizinhos. Ela argumentou bufando que ele poderia dormir no sofá, no quarto de hóspedes ou biblioteca, que pouco estava se lixando para ele. Saiu bufando.

Honório sentiu-se aliviado com a retirada da mulher. Sentou-se no sofá, sorriu discretamente e evocou entre lábios o título do livro de Balzac: “Ilusões Perdidas”!

“A mulher de trinta anos”, Balzac
“Ilusões Perdidas”, Balzac

Marcelo Pereira Rodrigues

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