O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

Se por um lado podemos apelidar Ludwig van Beethoven de uma mente brilhante, a verdade é que ele era, também, violento, depressivo e anti-social, algo que era visível no facto de não se conseguir relacionar com as pessoas para as coisas básicas do dia-a-dia. Contudo, chegou aos corações do mundo inteiro através da música: uma música ousada, original, de uma intensidade emocional e um poder que nunca haviam sido imaginados. Há, portanto, duas palavras que o definem: atormentado e triunfante.

Talento é o que um homem possui; génio é o que possui um homem“, e Beethoven era um possuído. Ele eleva-nos de um modo único, mas tem, por detrás dessa genialidade, uma vida subjugada à luta contra a perda de audição e maus tratos. A verdade é que a sua paixão lhe salvou a vida e mudou a música para sempre.

Nasceu numa família de músicos na Alemanha, em 1770. Tímido e enérgico em criança, teve aulas de piano com o seu pai, que era verdadeiramente abusivo com ele. Contudo, aos cinco anos, Beethoven já era uma grande promessa. O seu pai via no filho “o novo Mozart”. Decerto, Ludwig era um apaixonado pela música e foi isso que fez com ele não desistisse da sua carreira, apesar dos maus tratos do seu pai (que era um alcoólatra). Muito por essa influência, na sua mente, o mundo era um lugar perigoso: aprendeu cedo que é difícil acreditar nas pessoas. Desta forma, mantinha-se afastado da desagradável vida familiar, vivia isolado e tinha uma expressão sombria. Era uma criança calada, infeliz, que não falava com ninguém, que treinava melhor quando estava sozinha e tinha pânico em lidar com outras pessoas. Deu o seu primeiro concerto (público) com apenas sete anos.

Uma das maiores qualidades de Beethoven era que, além do fogo da sua inspiração instantânea e espontânea, este tinha também uma determinação incrível. Aos 10 anos abandonou a escola para se dedicar inteiramente à música e, no começo da adolescência, tinha como objectivo quebrar as concepções da composição clássica, pois acreditava plenamente que a música tinha o poder de transformar as pessoas.

Por outro lado, Viena em 1787 era incontestavelmente a capital da Europa e Beethoven queria conhecer Mozart. Tocou para ele, tendo a sua performance atordoado o grande mestre. A sua “escrita” era incrivelmente desconfortável: ia de uma nota a outra de forma selvagem. Ele desenvolveu uma forma de arte onde a emoção é a primeira coisa que nos atinge. Rebelde, independente e instável, tudo isso se repercutia na sua música. Este estava convencido de que, enquanto criador, só estava apenas abaixo de Deus. Beethoven é, sob muitos aspectos, o primeiro artista moderno que trabalhava para a sua própria inspiração (“There’s only one Beethoven“).

Em 1800, com 30 anos, Beethoven realizou o marco mais importante da carreira de um compositor, ao escrever a sua primeira sinfonia. Uns anos mais tarde, perde a audição e torna-se violento, com oscilações de humor e vergonha. Ele sabia o quanto ainda tinha dentro dele, e apesar de toda a infelicidade, tinha um incrível poder criativo. O caos na sua mente reflectiu-se nas partituras, furiosamente rabiscadas, uma vez que dedicava a sua música ao espírito da revolução. Para os que lhe eram próximos, parecia que ele se retirava para um mundo dentro da sua mente: um mundo de paixão, fúria e melodias silenciosas. Beethoven não fazia nada sem paixão, sem estar completamente comprometido. A sua verdadeira amante era a música, que para ele se tornou um acto psicológico, uma visão do mundo, o único modo de ordenar as coisas.

Muitos dos críticos consideravam as obras de Beethovem, em geral, segundo dois pontos de vista: ou como resultado apenas do controle musical do compositor (em detrimento da espontaneidade criativa), ou então, como resultado da fantasia irracional do génio e da ausência de regras. Numa análise de Trio para piano , clarinete e violoncelo op. 11, podemos ler, por exemplo: “[O compositor], com o seu conhecimento harmónico incomum e amor pela composição séria, daria-nos muitas obras de qualidade […] se quisesse escrever sempre de maneira mais natural do que rebuscada“.

Um outro exemplo é a crítica francesa publicada no Le Globe em maio de 1828: “De tempos em tempos encontramos [em Beethoven] os defeitos da Escola Alemã: mais bizarrice do que encanto, mais cálculo do que inspiração verdadeira”. Por outro lado, havia também críticos que acentuavam apenas o génio irracional nas composições de Beethoven. Na análise de Sonatas para piano Op. 10, podemos ler: “A sua abundância de ideias […] ainda leva Beethoven, muito frequentemente, a amontoá-las de maneira selvagem, umas sobre as outras e, de uma maneira algo bizarra, a agrupá-las de maneira a produzir não raro uma artificialidade obscura ou uma obscuridade artificial“.

Segundo o crítico George Grove, a Quinta Sinfonia foi frequentemente caracterizada “como se fosse um milagre da irregularidade”, como se Beethoven tivesse “abandonado as regras ordinárias que regulam a construção de uma peça musical” e colocado no papel a primeira coisa que vinha à sua mente.

Em 1827, o compositor mais famoso de todos os tempos faleceu. Beethoven escreveu uma série de obras-primas, que incluem sinfonias, sonatas e quartetos.

A música estava sempre na sua mente: no meio de tanta escuridão na sua vida, ele sempre foi em busca da luz – e conseguiu.

Um génio.

Tiago Ferreira

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