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O livro “A Conspiração Franciscana” (Editora Arqueiro, 2007, 440 páginas) é uma excelente obra publicada em 2005 por John Sack. O enredo passa-se em Assis e arredores, com mais alguns cenários de uma Itália ainda fragmentada do século XIII, sendo que a história nos prende do início ao fim. Tudo começa com o conturbado sepultamento de Francisco, o posterior santo de Assis, pois as autoridades eclesiásticas desejavam criar o mito de que ele havia sofrido os estigmas de Jesus Cristo e, para tanto intentavam esconder o seu corpo pelos motivos óbvios.

O herói da trama é Conrad, um franciscano que fez votos de pobreza e vive recluso numa cabana, sem tomar banho e tendo como companhia apenas uma corça com quem conversa de vez em quando. (Adendo: Arioswaldo, a minha personagem do romance “O Filósofo Idiota“, tinha a estranha mania de conversar com uma cabra, a Glória Maria). O anacoreta está bem até receber a visita de Fabiano, um jovem que se revela na verdade ser uma moça, Amata, fugida de um massacre do qual a sua família havia sido vítima, e ela traz uma carta de um frei superior, pedindo ajuda a Conrad para a elucidação de um mistério, que tem a ver com os bastidores da existência de Francisco.

Reticente ao começo, Conrad aceita a missão e logo perceberemos traços de romance no enredo, mas o nosso herói é muito cabeça dura e parece ter o firme propósito de não se engraçar para o lado da espevitada moça, aludindo a sua presença à tentação do diabo, pois o charme e a sedução que emana das mulheres é extremamente perigoso.

Capa do livro do escritor, filósofo e nosso colaborador, Marcelo Pereira Rodrigues

A novela passa a ser de aventuras quando a trupe, agora acrescida de um mendigo meio amalucado, soma-se aos dois e estes sofrem uma emboscada na estrada. Com isto, parece que os altos emissários da Igreja já sabem dessa investigação proposta por Conrad, mesmo sendo ele um pobre franciscano sem muita erudição. Encontram abrigo na casa de uma benfeitora cristã e esta acabará a cuidar da educação de Amata, dando-lhe civilidade e cultura.

A Conrad é oferecido uma túnica nova, a oportunidade de um banho e refeições quentes, um luxo para ele tendo em conta as suas convicções. Ele aceita por um bom motivo: necessitará de um tempo para estudar o pergaminho de frei Leo, investigar o paradeiro da sepultura de São Francisco e preparar a sua viagem de prospeção.

Amata cresce muito na trama. Donna Giocoma, a benfeitora, oferece essa possibilidade. A intrépida mulher toma modos e após a morte de Giocoma, passa a ser assediada por pretendentes que anseiam alianças em torno da sua herança, uma vez que a benfeitora não tinha herdeiros diretos e deixou tudo para a protegida. Ela chega a ser raptada (mulheres à época tinham pouca vontade) mas consegue desvencilhar-se buscando o auxílio de um tio distante que confronta o pretendente oportunista, que queria casar à força.

Destinos que se cruzam, o amalucado pregador de praça é na verdade um primo seu, que na verdade é um notário que deixou aos cuidados deste tio rico do castelo a guarda da sua filha, que é apaixonada por Amata. Sob a guarda e cuidados neste castelo, Jacopo revela-se um intelectual de primeira, que procura auxiliar Conrad na sua missão.

O coração de Amata é atraído para Orfeo Bernardone, um marinheiro mercador que, acreditem, vem a ser filho da família que executou os familiares dela. Ao princípio pensando em vingança, mas depois convencida pela sinceridade do amor do pretendente, ainda por cima ele havia sido proscrito da própria família por não concordar com a covardia, encontraremos cenas ardentes de amor e as dificuldades superadas por este destino cruel, que às vezes nos apresenta situações incontornáveis.

O escritor John Richard Sack

Conrad passa uma longa temporada na prisão de um mosteiro, mas nada que difira muito da sua caverna de outrora, e assim os seus votos de pobreza parecem ser justificados. Parece resignado a morrer ali, ainda para mais na companhia de um frade que se havia rebelado e ousado investigar também mistérios da Igreja. Relações que se entranham, o certo é que Orfeo, o pobre marinheiro enamorado da sua amiga Amata serviu o Papa numa missão em Veneza e pedirá o beneplácito do Pontífice.

Liberto da prisão, nosso herói dirigir-se-á a um leprosário, para seguir os passos de seu Mestre, Francisco, que chegava a beijar as pústulas dos enfermos. Num ambiente lúgubre e fétido, Conrad tirará lições com um médico, que não expõe as suas opiniões publicamente, mas que explica ao nosso frei que muito provavelmente Francisco havia sido vitimado pela peste, e que achava pouco provável os estigmas de Cristo.

Conrad terá a oportunidade de uma entrevista com o Papa, que lhe convence a fazer um voto de silêncio e alude ao erro da vaidade intelectual do nosso frei, que parece concordar e assim ficará o dito pelo não dito. O bonito do romance é que não é aventado nenhum final feliz para o nosso herói, nada sublime, a não ser o seu silêncio e recato no desejo último de regressar à sua cabana e à sua contemplação e oração.

O preâmbulo mostra-nos o mapa da Itália à época e a lista das personagens auxilia o nosso entendimento deste emaranhado. Uma leitura fluida e agradável, forçando-nos a viver na mentalidade da época e da forte pressão da Igreja na condução da vida das pessoas. Escritor moderno, John Sack soube mergulhar numa época de oitocentos anos para não se perder em anacronismos frívolos. Uma leitura prazerosa!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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