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Porque A Arte Somos Nós

O segundo álbum da banda britânica Roxy Music, composta na altura por Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Andy Mackay e Paul Thompson, é uma referência do avant-garde musical dos anos 70, sendo que ainda hoje podemos ouvir esta obra e ficar surpreendidos com a sua profundidade e densidade artística.

Muito se deve a um contexto bastante específico. Em Inglaterra, após a Segunda Guerra Mundial, as escolas artísticas começaram a ser vistas como o “refundo” dos maus alunos. “Se não sabes fazer mais nada, vai para a escola de artes”. Melhor que isto: havia subsídios específicos para este tipo de situações. Se fizermos uma análise retrospectiva, artistas como Pete Townshend, dos The Who, Eric Clapton, David Bowie, ou Freddie Mercury, dos Queen, estudaram Artes.

Este álbum, lançado a 23 de março de 1973, coincide com o primeiro trabalho dos acima referidos Queen – com o seu homónimo – e com clássicos como “Dark Side Of The Moon”, dos Pink Floyd. Dentro do rock, são todos trabalhos bastante distintos, e o mesmo se aplica aos grupos. Os Roxy Music já haviam editado um trabalho homónimo no ano anterior, 1972, mas o seu sucesso foi insuficiente. A banda sabia que tinha de elevar os seus padrões a um nível superior: mais arrojado a nível melódico, poético, e até visual. Não é por acaso que os Roxy Music são uma referência do movimento glam.

A primeira faixa, Do The Strand, o único single do álbum, revela uma banda disposta a ensinar o que viria a ser a base do punk rock, com ritmos ora acelarados, ora com breves abrandamentos que Bryan Ferry usa para falar de “tango” e “fandango”. Beauty Queen é um tema charmoso, que aborda a obsessão de Ferry por uma mulher (talvez a da capa?) de forma suave, com a banda a servir de apoio a um dialecto poético.

Os Roxy Music ao vivo em 1973

Strictly Confidential faz jus ao título, com um instrumental psicadélico onde se destacam os pianos eléctricos e a guitarra de Manzanera. Esta ouçam num ambiente calmo. Editions Of You traz de volta o lado mais pop rock do álbum, na qual se destaca o saxofone de Andy Mackay e o sintetizador VCS3 de Eno, apesar de percebermos que é uma canção onde toda a banda tem o seu espaço para se destacar.

In Every Dream Home A Heartache, um tema mórbido, que nos faz questionar “como é que isto veio aqui parar?”. Os dois primeiros terços da música é apenas Bryan Ferry, num tom de narração, acompanhado por um órgão melancólico que nos faz sentir a morte do outro lado. De igual forma, somos capazes de imaginar um filme na nossa cabeça. Se não uma longa-metragem, uma cena, tal como a do início da segunda temporada da série da Netflix, “Mindhunter“. O outro terço é a explosão da banda para um fim psicadélico com muitos overdubs – um must!

The Bogus Man, a música mais longa do álbum (cerca de nove minutos e meio), põe-nos a pensar num homem misterioso que nunca ninguém viu a cara, mas que anda pelas ruas da cidade ao som de um ritmo sedutor e cheio de notas experimentais. Esta era uma faixa propícia para a banda improvisar novos sons durante os seus espectáculos ao vivo.

Bryan Ferry

Grey Lagoons é a música mais ‘alegre’ de “For Your Pleasure” (se é que podemos pôr as coisas nestes termos), deixando-nos mais relaxados para a ponta final do álbum – mas atenção, é um rock and roll refinado. Para terminar, For Your Pleasure, que avança para o fim como que se uma vela se estivesse a apagar, com muito eco. Este seria a última participação de Brian Eno num álbum dos Roxy Music.

“For Your Pleasure” está entre os 500 Melhores Álbuns de sempre, segundo a revista Rolling Stone. Este é um marco no glam-rock, nunca esquecendo a vertente avant-garde e a inspiração krautrock, ainda antes da explosão de grupos como os Kraftwerk.

Esta é uma obra-prima obrigatória para todos que gostam de música sofisticada, pois tal como a sua capa vinyl – onde vemos a namorada à altura de Bryan Ferry, Amanda Lear, que mais tarde se tornou a musa do pintor surrealista Salvador Dalí, com uma pantera -, este disco acrescenta uma nova dimensão ao próprio conceito de música e som, sem nunca perder de vista os high standards destes artistas enigmáticos.

Rating: 4 out of 4.

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