O escritor, filósofo e parceiro d’OBarrete, Marcelo Pereira Rodrigues, acaba de lançar um novo livro sobre Cinema intitulado “Cinema com Passaporte”. Tivemos uma pequena conversa com o pensador brasileiro, que nos desvenda um pouco mais do backstage do seu trabalho criativo e crítico. Vamos à conversa:
Diogo: Marcelo, desde já os meus parabéns por esta nova conquista, ainda para mais com a Sétima Arte no ‘papel principal’. Admito a minha curiosidade nesta compilação, grande parte escrita para o site português OBarrete. Vamos deixar rolar a cassete:
MPR: Diogo, primeiramente tenho que agradecer a oportunidade que foi ter trabalhado para OBarrete. Permitiu-me conquistar muitos amigos e leitores portugueses. Agradecer a você como editor pelas sugestões de filmes a avaliar, foram tantos, posso citar aqui dois: o português “A Herdade” e o enigmático “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence“, este sueco. Estes dois entraram no repertório de “Cinema Com Passaporte”.
Agradeço as felicitações, realmente foi uma forma de me reinventar. Após escrever 18 (dezoito) livros, nos géneros crónica, romance, ensaio, novela, conto, biografia, artigos filosóficos, foi a vez de me embrenhar pelos bastidores do cinema. Essa sua curiosidade (você terá o livro em mãos em breve) acabou sendo a de muitos dos meus leitores, que estão comprando o livro com gosto, fazendo-me cansar as mãos: estou a autografar vários deles.

Diogo: Que o Marcelo sempre gostou de cinema não é segredo, contudo, falar sobre um filme é diferente de criar uma narrativa fictícia. Sempre houve esta vontade de escrever sobre uma (ou várias) obra(s) cinematográfica(s)?
MPR: Mais uma vez, só tenho a agradecer a você, Diogo. Na Revista Conhece-te, por questões editoriais de espaço, sempre indiquei livros e filmes, mas a maioria eram breves. Lembro-me que enviei a você uma indicação de “Amour“, do cineasta Michael Haneke, um filme muito depressivo cujo mote era a eutanásia. Você deu-me algumas sugestões, estiquei a análise sem soar prolixo e, dada a liberdade que você me concedeu no que toca ao espaço, senti-me mais confiante e sem as amarras de antes.
Quando dei conta, percebi o óbvio: havia escrito várias análises e, num tempo propício a curadoria, surgiu “Cinema Com Passaporte”. Sim, o ensaio difere bastante do género romance, trata-se de uma vestimenta que se vai compondo de vários retalhos: partindo do cinema, a costura com a literatura, a filosofia, a cultura, as viagens e as conversas tão gostosas advindas de quando sofremos o gostoso impacto cultural de uma excelente obra. Certamente, esse é o meu propósito ao publicar este livro. Parece que o intento foi alcançado, já vou recebendo bons feedbacks.
Diogo: No que toca ao seu processo criativo como escritor, o que muda na análise (e escrita) aos filmes visualizados neste novo livro?
MPR: – Bom, mudou foi a valorização de cada ensaio por si mesmo. Quando iniciei os textos atinentes a análises de filmes, não sabia que viria a resultar num livro. De forma que o meu trabalho neste projeto foi o de curadoria, sopesar cada um dos 27 textos para que compusesse o todo harmónico. Foi lapidar, e gostei bastante deste repertório, embora saiba que haverá um volume 2. Dos textos, preparei-os para os meus leitores brasileiros, embora alguns leitores de Portugal já tenham manifestado interesse em comprar o livro, o que muito me honra. Compilação de artigos e ensaios é uma forma de reconhecimento que o trabalho criativo diário funciona.
Diogo: Acha que todos os filmes são passíveis de serem criticados por qualquer espectador? Ou existem agentes “com mais autoridade” do que outros?
MPR: Lembro-me que você, como editor, sempre valorizava as minhas análises pelo facto de ser filósofo. Mas nunca me senti com mais autoridade devido a esse facto. Expressamo-nos por amor, veja o caso do colega Bernardo Freire que é marketeer de formação e um cinéfilo por excelência. O seu livro “Visão de um Crítico” é excelente! Penso que a arte deve ser apreciada e comentada por todos aqueles que tenham sensibilidade. Sou filósofo por formação e um diletante em várias disciplinas, é genuíno em mim o desejo de aprender. Portanto, entendo que todos têm o direito a se expressarem quando são tocados por algo. Nada mais simples e democrático que isso.

Diogo: Na sinopse do seu livro, reparamos que a Filosofia tem um papel basilar nas suas análises. Achava ser possível ‘Cinema sem Filosofia‘?
MPR: Certamente. Diria até que a literatura ocupa esse espaço com muito mais proeminência, haja vista as análises baseadas em Dostoievski, Kafka, Philip Roth, etc. Na análise do filme “Mank“, aventei sobre o óbvio: o argumento é o primeiro tijolo do alicerce da obra. Filmes, portanto, são livros. Lembro-me da cena de Gary Oldman, bêbado, entrando numa festa e esbravejando acerca da burrice dos convidados, todos da fauna do cinema: ele cita trechos de Shakespeare (se não me engano) e Cervantes. E diz perentoriamente que os presentes não eram familiarizados com o hábito da leitura. Àquela época e nos Estados Unidos. Imagine hoje, desconfio que deteriorou bastante.
Diogo: Das análises que faz em “Cinema com Passaporte”, destaca algum texto/filme em específico para os dias de hoje? Um texto que nos possa “salvar da mediocridade contemporânea”?
MPR: Analisando o todo do livro, percebi o óbvio: o quanto é importante conhecermos a história de modo a evitarmos repeti-la. Respondo isso devido a um bando numeroso de desarrazoados que pedem o retorno da ditadura militar ao poder. Os ‘Travis’ de “Taxi Driver” são muitos: reacionários ao extremo, discursos inflamados e pouca ou nenhuma compreensão da realidade.
O HAL de “2001: A Space Odyssey” está aí presente: sou eu física e intelectualmente respondendo a esta entrevista ou uma IA? A angústia dos nossos dias, especialmente das pessoas mais sensitivas, o entorpecimento via consumo das massas, os extremismos ideológicos, as amizades e relacionamentos líquidos e uma variedade de outras coisas. Bem, penso que grande parte do mundo está muito medíocre e, se a leitura de “Cinema Com Passaporte” puder contribuir com um refrigério, e ainda suscitar boas gargalhadas, tanto melhor.
Diogo: Quais os artistas da Sétima Arte mais fascinantes para o Marcelo? De atores a realizadores, ou até argumentistas.
MPR: De atores, a lista é grande: Clint Eastwood, Jack Nicholson, Robert De Niro, Ricardo Darín, Phillip Seymour Hoffman, Heath Leager, Daniel Day- Lewis, Jessica Lange, Leonardo DiCaprio, Sylvester Stallone, Edward Norton, Joachin Phoenix, Sean Connery, Morgan Freeman.
No que toca a realizadores, Woody Allen (às vezes precisamos rir um pouco), Scorsese, Hitchcock, Stanley Kubrick, Clint Eastwood, Quentin Tarantino e Nolan.

Diogo: Se esta última obra é sobre Cinema, qual será o próximo passo de Marcelo Pereira Rodrigues?
MPR: Certa feita, escrevendo o prefácio para um dos meus livros, “Acústico MPR: os piores sucessos & os melhores fracassos de Marcelo Pereira Rodrigues“, a crítica literária Vicência Jaguaribe atribuiu-me uma frase do modernista brasileiro Mário de Andrade, cito: “Sou trezentos. Sou trezentos e cinquenta“. Penso que isso dá uma dimensão ao meu trabalho: como escritor, já escrevi no género crónica, romance, ensaio, artigo, conto, infantil e biografia. Nos ensaios, prestei homenagens a escritores clássicos, filósofos e agora é a hora do cinema. Para o futuro: música talvez? Futebol? Uma novela? Um argumento para cinema? Artigos sobre o futebol? Enfim, são muitas as possibilidades. Deixemos para o futuro os próximos passos. Obrigado pelo bate-papo.
Na vida do artistas não existem limites para sua criatividade, exigência e curiosidade. Marcelo é a prova disso mesmo. De forma a deixar alguma água na boca para o que aí está a chegar, vamos à sinopse deste “Cinema com Passaporte”:
“O cinema permite-nos viajar para dentro de nós mesmos. Fazendo intercessões com História, Filosofia, Literatura, espaço sideral, política, etc. o filósofo Marcelo Pereira Rodrigues nos convida a 27 filmes que são cults e se tornaram clássicos. Remexendo no seu baú de textos a publicar (que são tantos, perto de 400), sacou personalidades e temas dos mais sortidos.
Nesta miscelânea entram Pepe Mujica; o combate ao Sendero Luminoso; Hitchcock; Ernest Hemingway; Fitzgerald; Stanley Kubrick; Jack Nicholson; Robert de Niro e o seu táxi; Philip Roth; Clint Eastwood; O Leopardo; Dostoievski; Kafka e Orson Wells; Richard Wagner; Bergman e outros.
Escapando do tão somente cinema hollywoodiano (e é claro que temos excelentes filmes), o autor iniciou a sua jornada pelo Uruguai. Atravessou o rio La Plata e desembarcou na Argentina. Chile e Peru completaram o tour sul-americano. Reverência aos clássicos do Tio Sam e do Velho Continente, com uma escalada em Portugal, Itália, França, Irlanda do Norte, Alemanha, Polónia, Dinamarca e Suécia.
Misturando reflexões filosóficas, digressões existencialistas, recortes de diários de bordo de viagens feitas com passaporte e tudo, o certo é que destas indicações o sentar-se em frente à tela (ou telona) e mastigar pipocas não cairá bem. Estes filmes merecem respeito. Com humildade e reverência, “um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior” presta uma singela homenagem.“

Para mais informações sobre como obter este “Cinema com Passaporte”, enviar mensagem para o seguinte número (Whatsapp): 31 98569-3602
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