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Porque A Arte Somos Nós

Partindo do pressuposto que esta obra desafia as concepções literárias, alternando entre poesia e prosa, temos aqui, n’”O Ano da Morte de Ricardo Reis” a tentativa de elevar o texto e a narrativa a uma espécie de ensaio, tanto fruto de intertextualidade, como de tentar contar uma verdade através da irrealidade e da imaginação. Ricardo Reis vive atormentado por um passado que lhe causa sofrimento, algo que o corrompe; ele está de regresso a Portugal depois da morte do seu criador, e é precisamente essa coexistência que confere ao livro uma (ir)realidade sublime, na forma e em conteúdo.

Esta é uma obra repleta de multiplicidade de sentido, cheia de ironia e sarcasmo, tão características nas obras de José Saramago, que, além de homenagear Fernando Pessoa, personificando um dos seus heterónimos na narrativa, é capaz de manter um certo distanciamento lírico (frieza), sobretudo pela índole do Reis Saramaguiano.

A dada altura, Ricardo Reis, de forma totalmente irónica – ou talvez não – faz uma clara banalização da existência humana, exclamando que depois de morto, tudo deixa de importar, porque poetas e bandidos tornam-se todos iguais, mas, claro, o que ficou escrito é todo o seu possível património. Além disso, “A leitura é a primeira virtude que se perde“, pois, na realidade, a arte é capaz de transformar o (nosso) mundo, mas, para isso, é necessário haver um certo distanciamento entre a obra e o criador e – é curioso realçar – esta dicotomia é similar à relação, como explica Saramago, entre a palavra e o pensamento.

José Saramago

Neste prisma, Reis tende a desprezar a Natureza como fonte de inspiração, ou até de ideal, o que demonstra que o seu processo criativo é mais frio, mas sempre com o mote maior de que “os poetas são aqueles eternos insatisfeitos“. Porém, o curioso a destacar é que o verdadeiro desígnio de Reis era o profundo silêncio da alma (ataraxia): na ambição de enriquecer o mundo, conseguir metaforizar “um silêncio que fosse melhor que as palavras“, uma vez que “são essas as melhores palavras, as que nada dizem“.

Por outro lado, importa entender qual é objectivo claro de José Saramago. O escritor, com “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, visa entrelaçar ficção, realidade e História, numa vertente pós-moderna, de forma a extravasar a tensão entre o poder e as personagens socialmente marginalizadas. Ou seja, tem o desígnio moral de denunciar comportamentos e atitudes, através de uma evocação do passado, não com a intencionalidade de refutar ou contradizer o discurso histórico, mas sim o de aprofundar o seu labirinto textual.

Assim, o escritor inventa uma relação ficcional entre Literatura e História, a partir da qual o propósito não é ignorar a existência do passado, mas, por outro lado, pô-lo em questão, daí se considerar esta obra uma metaficção historiográfica e paradoxalmente auto-reflexiva. Desta forma, a conjugação de protagonistas históricos e ficcionais é capaz de estimular as fronteiras entre o real e o imaginário: nomeadamente, a construção de Ricardo Reis como alguém independente de seu criador, Fernando Pessoa. Aqui temos não só um esforço, por parte de Saramago, de ludibriar o leitor, mas, também, de subverter as características literárias do real e do ficcional.

É curioso, ainda, destacar que, durante o enredo, há encontros entre Reis e Pessoa, nos quais fica difícil depreender, com objectividade, os aspectos que definem quem é, efectivamente, quem. Além disso, é, precisamente, pela falta de capacidade da arte generalizada em dar uma representação (real) à vida, que se tornou peremptório inserir personagens e factos históricos no cerne da ficção. Assim, a narrativa é capaz de estimular o leitor a sair da sua zona de conforto intelectual, do lugar-comum, a fim de repensar, de forma crítica, a História, a Sociedade. Ou seja, esta obra exige um leitor mais reflexivo e analítico.

Fernando Pessoa, o criador de Ricardo Reis

Assim, Saramago, no fundo, incita a uma revisitação profunda pela tradição da literatura, partindo de Camões e, ficcionando o real, entra em confronto para com a obra poética de Fernando Pessoa. Há, portanto, uma diversidade assumida de textos, que enriquecem a história, a partir de marcos de influência literária. Através de diversas metáforas, consegue dar ao texto um cariz muito próprio e irónico, permitindo analisar um Portugal em ascensão, em apogeu e, claro, em declínio. Mas não podemos deixar de enaltecer a intenção maior da escrita saramaguiana: o de reconfigurar a realidade histórica através da ficção, com Ricardo Reis como protagonista nesta viagem literária.

Portanto, não há um desprendimento da factualidade, mas sim uma recuperação e uma discussão da envolvência narrativa. De que forma? Através de um diálogo com o passado, ambicionando novas possibilidades literárias. Ou seja, reviver e recriar são as palavras de ordem deste livro: através da intertextualidade é-se capaz de aprofundar a multiplicidade da história; ou melhor, contribuir com uma nova história e, claro, uma nova visão desta.

Neste prisma, há inúmeras reflexões sobre o fazer literário, elevando o discurso crítico e alterando o sentido dos factos. Mas, se o objectivo de Saramago é o de reconfigurar o passado através da ficção, importa também frisar que não existe uma única verdade – simplesmente, todas elas andam à volta do ponto de vista/mensagem por detrás da história (contada ou escrita). Decerto, ignorar os ensinamentos da poética clássica é um erro na perspectiva saramaguiana, que procura a felicidade no mundo das palavras.

Assim, ao lermos “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, através da sua rica intertextualidade, temos a porta para um novo mundo: um universo cuja génese transgressora, tão característica dos movimentos literários que culminaram no discurso fantástico, nos permite sair da periferia literária e elevar o espírito crítico e analítico.

Tiago Ferreira

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2 thoughts on ““O Ano da Morte de Ricardo Reis”: O caos como porta para um novo mundo?

  1. marcelopereirarodrigues diz:

    Parabéns pelo texto!

    1. Tiago Ferreira diz:

      Muito obrigado!!

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