O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

José de Sousa Saramago, neto de camponeses, nasceu na Azinhaga, no Ribatejo, foi serralheiro mecânico e subdirector do Diário de Notícias, e é o nosso único Nobel da Literatura da história. Mas, uma das coisas mais fascinantes a constatar nele é o facto de só ter começado a escrever de forma independente a partir dos 50 anos. Entre os primeiros livros e este “salto” passaram umas décadas, onde o próprio afirma “não ter tido nada para dizer“. É, ademais, um escritor polémico, sobretudo pela sua escrita invulgar, que subverte as regras ditas gramaticais; tornou a língua prática: usa apenas a vírgula e o ponto… “São as duas sinalefas que pautam uma melodia – uma pausa curta e uma pausa mais demorada“. Qual o objectivo? Tornar o discurso mais oral, e eliminar, o máximo possível, a barreira entre o escritor e o leitor.

Em 1992, o Secretário de Estado da Cultura vigente, Sousa Lara, vetou a obra “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, como afronta a um património religioso em causa. Em resposta, Saramago, “só” disse o seguinte: “O drama não é que as pessoas tenham opiniões. Isso é óptimo. O drama é que as pessoas tenham opiniões sem saber do que falam“. Foi acusado de dividir os portugueses, mas sempre ciente que tudo não passou de uma mera irreflexão e estupidez política. Foi uma violência que despoletou uma saída de Portugal: que não foi um corte com o País, não foi um exílio, mas sim uma revolta. Nesta obra, Saramago faz uma caricatura à Bíblia, a qual afirma ser “um manual de maus costumes.”

Estamos a falar de um autêntico visionário, que era sempre fiel aos seus pensamentos e convicções, não deixava ninguém limitar a sua liberdade de expressão e criativa, conseguindo sempre transpor nos seus romances metáforas repletas de sabedoria, audácia, paixão e compromisso para com a história, a vida e a arte. Entre inúmeras coisas, destacam-se algumas frases em vida que merecem mais que uma mera atenção: “Aquilo que vier a ser meu às mãos me há-de vir ter (…) Provavelmente tenho tudo porque nunca quis nada“. Decerto, algumas das epigrafes dos seus livros são também elas dignas de um enaltecimento, mesmo que breve: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara“, (“Ensaio sobre a Cegueira”), ou “O caos é uma ordem por decifrar” (“O Homem Duplicado”).

Como podemos ver, estamos a falar de um mestre das letras e da escrita, que não precisou depender de ninguém para chegar onde chegou. Este deixa-nos uma de muitas lições importantíssimas: “O teu sucesso chegará com tranquilidade. Se fores realmente bom, aquilo que és é o passaporte para um novo mundo de oportunidades“. Como diria outro génio, “põe tudo o que és no mínimo que fazes“.

Obrigado pelo património intelectual que nos deixaste. Até sempre.

Tiago Ferreira

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