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Porque A Arte Somos Nós

As pessoas me questionam muito acerca da atividade de filósofo. Ainda bem que aquele cliché do filósofo ser um cara descabelado, com óculos fundo de garrafão e meio alheio às coisas práticas da vida caiu em desuso. Para quem consegue enxergar para além dos clichés, é importante elencar o filósofo como um pensador sobre problemas atuais da modernidade, talvez uma voz dissonante no rebanho do lugar comum e dos modismos de plantão. Mas há uma mistificação tola no trabalho do pensador e, humildemente, quero tentar desfazer.

Primeira desmistificação: a ideia de que o filósofo é inteligente. Simples assim. Não são poucas as pessoas que me dizem: “Marcelo, admiro a sua inteligência baseada nos grandes nomes da Filosofia”. Devagar com o andor. Vamos refletir sobre: realmente devo isso à minha formação académica. Mesmo não me tendo transformado num académico, tive que me debruçar sobre escritos de Platão, Aristóteles, Epicuro, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Erasmo de Roterdão, Nicolau Maquiavel, Descartes, Montaigne, Immanuel Kant, Fichte (sobre o qual me debrucei na minha tese de conclusão de curso), Schelling, Hume, John Locke, Hegel, Schopenhauer, Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger, Bertrand Russell, Sartre e Foucault. E de muitos outros.

Michel de Montaigne
Bertrand Russell

Mas essa leitura obrigatória não me tornaria mais inteligente, até sob o risco de eu ser apenas um “rato de biblioteca”. Se me dou bem com as palavras, ainda pelo fato de ser um amante da literatura, e de dar muito mais ênfase para romances que tratados metafísicos, vide minha admiração pelas obras primas de Voltaire, Balzac, Zola, Marcel Proust, Oscar Wilde, Albert Camus, André Gide, Simone de Beauvoir e agora os modernos Jonathan Franzen (sou fanzaço!), Umberto Eco, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Marquez, Dan Brown (este mais pop, mas leitura agradabilíssima). Pois bem, desconfio que seja um pouco versado em letras. Mas ainda assim ressalto que isso não comprova de imediato a minha inteligência.

Inteligência, a meu ver, é fazer a transposição de estudos de grandes pensadores e tentar encontrar verosimilhanças com o mundo e os problemas atuais. Nos idos do ano 2000, formei um Curso Livre de Filosofia chamado “Conhece-te a ti mesmo”. Junto com os meus alunos (única oportunidade em que fui realmente professor), trazíamos à baila pensamentos de grandes filósofos e tentávamos uma adaptação reflexiva sobre as nossas coisas quotidianas. O saldo se mostrou positivo, sentíamos que produzíamos conhecimento e que esse conhecimento partia de cada um de nós. Tive como alunos donas de casas, domésticas, médicos, engenheiros, juízes, advogados, comerciantes, empresários, enfermeiras, estudantes do ensino médio e muitas outras atividades.

Se no início da minha vida profissional eu me tinha em alta conta (me achando simplesmente o mais inteligente entre os meus pares), com a idade e os cabelos brancos vamos aprendendo a relativizar um pouco a nossa importância. A arrogância é uma vestimenta que cai bem apenas à imaturidade. E até pelo fato de cada livro ser na verdade um portal que se abre a outros livros, outros estudos e outras análises, bem, é cada vez mais correta a percepção de Sócrates do “Só sei que nada sei”.

Oscar Wilde

Ainda na universidade, eu sentia que não daria para filosofar adequadamente. Estava muito empenhado na literatura de Fichte para concluir a minha tese e nos ensinamentos dos professores percebia certa fragmentação nos estudos por meio de partes de apostilas e confesso que estudei muitos filósofos superficialmente. Estava com a certeza de que, após sair da universidade, teria sim tempo e condições de enveredar por um estudo mais aprofundado, uma reflexão crítica, mais apurada e consoante com a realidade (e longe de puras especulações metafísicas). E isso se deu de fato. E se dá até hoje.

Mesmo produzindo muito literariamente (sou editor há 19 anos de uma Revista homónima ao curso que ofereci há tempos) e sendo escritor de fato e de ofício, tenho em mente hoje que é necessário esfriar a cabeça e desalojar um pouco o nosso armário cerebral. Nem sempre um guarda-roupa cheio é sinónimo de que temos boa roupa para vestir. É preciso oxigenar um pouco as ideias e limpar o armário de vez em sempre para deixar entrar ideias e conceitos novos, não se tornando expert em velharias e diletantismo académico. É necessário ler um romance com olhos virgens, tentar captar a ideia do autor e se deliciar com isso.

Então fica registado que trabalho com ideias, conceitos e literatura o tempo todo. Mas isso não me torna mais sabido que os demais. Penso que cada um, na sua área de atuação, possui inteligência para determinada função. Atesto a minha considerável e notável burrice para assentar pisos, instalar um chuveiro, fazer um projeto de engenharia civil, dirigir um automóvel, montar uma planilha administrativa, dentre tantas outras atividades. E confesso o quanto admiro a inteligência desses nerds que vivem na Internet 24 horas por dia e sacam tudo, até de comércio electrónico. Enfim, não sou tão inteligente assim.

Agora, devo salientar e fazer uma inveja a vocês não filósofos. A leitura dos clássicos da Filosofia Ocidental (compreendida em aproximadamente 2500 anos) nos dá uma direção e a analogia que faço é a seguinte: imaginem um regato com uma montanha deslumbrante ao fundo, mata atlântica, pássaros raros e silêncio provindo da natureza em si. Pois este é o cenário de todo aquele que se embrenha nas leituras e nos estudos sobre as coisas do espírito. Mas aí é que está a questão: para atingir esse lugar paradisíaco, é necessário antes, munido de um facão e de muita coragem, desbravar uma mata cerrada e ameaçadora. Assim é a filosofia.

Aqui é necessário discernir a filosofia das filosofias. Enquanto a primeira busca uma investigação racional (e por que não dizer emocional?) e que parte do indivíduo numa atitude reflexiva e serena, por outro lado pipocam os charlatães que se propõem a vender pílulas de felicidade na forma de auto-ajuda. São os “ídolos de pés de barro”, expressão usada por Nietzsche para difamar os oportunistas.

Immanuel Kant

Enquanto essas bengalas atuam para isolar e desestimular o pensamento próprio de cada um, a Filosofia (a dita senhora grega, instaurada na Grécia do século V a. C.) instiga a pensar com a própria cabeça, investigar as próprias emoções e sentimentos, ir além e criar um pensamento mais autoral e seguro. Também é mister desprendermos de muitos professores (sempre levei muito a sério a ideia de Nietzsche de “assassinar os nossos mestres, pois só assim poderíamos um dia sermos mestres também”). Mais ou menos por aí.

Ser filósofo é ter mais prazer em suscitar dúvidas que procurar certezas. Pois é importante salientar que muitas de nossas questões já foram respondidas pela tradição. Infelizmente, por meio de dogmas, tradições ocas e medos, escorados pelas autoridades religiosas e por aqueles que querem manter o status quo, pois o poder é muito mais do que a força física, quase sempre é exercida através da psicologia que faz temer os líderes (volto a repetir, todos de pés de barro).

Ser filósofo é ser senhor de seu destino, e muito antes disso ser uma bênção, a muitos é visto como maldição, pois é bem mais fácil pertencer ao rebanho de ideias e de atitudes. Mas serão sempre pessoas que nunca chegarão a visualizar o regato paradisíaco. Ser filósofo é ser estranho a esse mundo, a começar de suas próprias questões, e cada vez mais caminhar solitariamente rumo à montanha “onde o ar é frio”.

Mais um ser estranho que um ser abençoado pela inteligência. Talvez as duas coisas. Quem saberá ao certo? Espero ter cumprido bem a minha missão de discorrer sobre a atividade do filósofo (antes de ser uma atividade meramente especulativa, é o famoso “carregar pedras”). Mas cuidado ao se aventurarem por essa Ciência Mãe: corre-se o sério risco de não mais suportar programação de televisão aberta, discurso de padres e de políticos, pessoas com falas ‘chinfrins’ e festinhas de confraternização de final de ano.

Marcelo Pereira Rodrigues

Pintura de Man Ray, “La Fortune” (1938)

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