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Porque A Arte Somos Nós

O novo filme de Spike Lee, “Da 5 Bloods” (em português “Da 5 Bloods – Irmãos de Armas“) foi a mais recente grande aposta da Netflix no que toca a películas susceptíveis aos concursos dos Festivais de Cinema por esse mundo fora. Foi também o grande destaque na era “pós-pandemia”, se é que assim podemos denominar o presente. Contudo, o grande foco da narrativa vai para um tema recorrente nas obras de Lee: o racismo.

Vivemos tempos conturbados na luta pela igualdade racial. Se calhar nunca os deixamos de viver, mas estes ecoam de uma forma mais audível e até visível. Hoje em dia é simples e banal a captura de imagens e vídeos, transformando o espaço público numa espécie de palco. Obviamente que as coisas não são assim tão literais (para já), e as pessoas não podem simplesmente gravar e expor outras sem as devidas autorizações.

No entanto, forças de segurança e agentes da comunidade, como a polícia, estão muito mais expostos, e por um lado ainda bem. Refiro-me claramente ao que aconteceu com George Floyd, que motivou manifestações e protestos, sendo que algumas dessas revoltas acabaram em violência e pilhagem.

Infelizmente o racismo é um problema mais complexo, mas a sua exposição é cada vez maior, o que motiva e origina reacções mais precipitadas e de “cabeça-quente”. Essas desigualdades perpetuam-se pelo mundo fora, mas o grande foco está nos Estados Unidos da América (EUA).

Podíamos fazer um artigo inteiro sobre a história dos escravos, a sua origem, o que motivou estes a chegarem à América, e de como os próprios americanos colonizaram uma das atuais principais potências mundiais a nível económico e militar. Mas isso fica para outra vez. O importante de realçar aqui é o facto de Spike Lee se focar na história norte-americana, tal como o já havia feito em “BlacKkKlansman: O Infiltrado” (2018), e esmiuçar episódios particulares, tal como um grupo de cinco combatentes na Guerra do Vietname.

Paul (Delroy Lindo) e David (Jonathan Majors)

Este capítulo da história dos EUA já deu origem a, passo a expressão, dezenas de filmes sobre as diversas atrocidades acontecidas durante a invasão do Vietname, que durou cerca de 20 anos. Neste “Da 5 Bloods”, um grupo de cinco soldados está encarregue de recuperar uma carga ‘especial’ da CIA, perdida na selva, que é nada mais nada menos que uma grande quantidade de ouro. Esses soldados são: Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Stormin’ Norman (Chadwick Boseman). Todos eles são afro-americanos.

Ao longo da narrativa somos transportados entre o passado e o presente destes indivíduos, sendo que na verdade aqui só me refiro a quatro dos cinco, pois Stormin’ Norman é morto em combate e fica preso a esse mesmo passado. Como forma de verem o seu trabalho recompensado, os soldados tentam esconder e proclamar o ouro todo para si e para os seus “irmãos” – a comunidade negra a viver nos EUA, que tinha os rostos de Martin Luther King Jr., Malcom X e James Baldwin na luta contra a segregação racial.

Os soldados acabaram por fracassar, em parte, na sua missão. Não trouxeram a fortuna consigo, mas conseguiram escondê-la. Agora, aproximadamente 40 anos depois, os quatro amigos encontram-se de novo no Vietname para recuperar a ‘sua’ fortuna e levá-la de volta para os EUA, juntamente com os restos mortais de Norman. Este último é descrito como uma espécie de general, pois sempre conseguiu manter a equipa unida e defendeu sempre uma doutrina pacífica, à luz do que se estava a passar “por casa”.

A cidade de Saigon aos dias de hoje

A idade já se faz notar nos rostos e na forma como caminham os quatro personagens principais – que se eleva para cinco na ida para a selva, pois o filho de Paul, David (Jonathan Majors), acaba por se juntar ao pai na aventura. De forma a tentar disfarçar o tempo, o realizador grava as cenas do passado com câmaras de 16 mm, permitindo uma recriação à época. Ao início tudo parece fácil, um compromisso algo banal, tendo em conta que estes soldados já conheciam a selva, mas os interesses pelo prémio iriam falar mais alto.

Esta obra é um teste ao Homem, quer na forma como olhamos para nós próprios, quer nas consequências das decisões tomadas pelos que nos rodeiam. A camaradagem é a palavra de ordem, com Lee a buscar constantemente captar o sentimento de que “a união faz a força”. Com o movimento “Black Lives Matter” em erupção pelo mundo, é impossível dissociar esta mensagem de apoio a todos os que sentem na pele as injustiças do passado e do presente.

No entanto, a questão do racismo nesta obra escrita, para além de Spike Lee, por Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott, é mais abrangente do que na maioria das obras deste género, pois o cineasta retrata também o ponto de vista dos vietnamitas durante e no pós-guerra.

As sequelas do conflito são nítidas. Percebemos isso em certas situações onde os americanos são bem recebidos pelos locais, ao contrário de outras cenas onde os ânimos se exaltam por ambas as partes. Não podemos ignorar a história, e não esquecer que a guerra dividiu muitos vietnamitas. Ao longo da jornada, um grupo local tenta impedir o sucesso dos quatro (mais um) ex-soldados, proclamando o ‘tesouro’ para os locais. É essa “caça do gato e do rato” que pauta o corpo da história, estando o poder do argumento na semiótica e na riqueza das acções e dos cenários.

Uma das principais pontes cinematográficas dá-se com o filme de Francis Ford Coppola, “Apocalypse Now” (1979) – em “Da 5 Bloods”, este é o nome do bar onde se inicia a história, tecendo uma ligação ao tema da guerra e funcionando como uma previsão do que viria a acontecer. Já na selva, vamos ouvindo a voz de Marvin Gaye a questionar o porquê de toda a brutalidade infligida entre os Homens, todo um sofrimento que advém desde os tempos do Olimpo.

“Da 5 Bloods”

Nesse sentido, Lee acaba por dar continuidade à linhagem de “BlacKkKlansman: O Infiltrado”: mostrar ao espectador que no fundo somos todos humanos, reforçando a nossa história e os caminhos por nós tomados. Mais uma vez, essa provocação funciona ao som de What’s Going On? e Got to Give it Up.

À medida que vão surgindo novos problemas, vamos sofrendo baixas fatais por parte dos nossos personagens principais, todas essas relacionadas com sequelas da guerra, directa ou indirectamente. A obra consegue ser bastante gráfica, inclusive nos seus arquivos de vídeo que Lee utiliza como diálogos e para complementar cenas chave ao longo do filme, acrescentando intensidade e nunca deixando esquecer o passado “tal e qual” ele existiu (ex: a “famosa” imagem de um monge tibetano a arder em protesto contra o presidente Diem, na cidade de Saigon).

O elenco mostra estar à altura do desafio, com principal destaque para Delroy Lindo, que demonstra uma sinceridade muito peculiar ao longo de toda a jornada. Com uma personalidade bastante “difícil”, este tem comportamentos bastante osciláveis, sendo sempre uma alma pura que enverga muitos monstros do passado, todos eles provenientes da guerra. A sua principal perda foi o seu amigo Norman, e, na verdade, no grupo só Lindo parece ter honesta vontade de encontrar e levar o amigo para casa.

Mais poderíamos estar a falar sobre “Da 5 Bloods”, mas só uma visualização por parte do espectador fará toda a diferença na mensagem que Spike Lee nos tenta transmitir. Esta obra é já uma forte concorrente à próxima edição dos Óscares, oferecendo à Netflix mais uma cartada importante no que toca à hegemonia comercial na sétima arte. Tão ou mais importante, é a forma como a empresa de streaming consegue trabalhar com cineastas do calibre de Lee. Contudo, vale a pena realçar que quem fica a ganhar é o espectador, e isso viu-se bem com “Da 5 Bloods”.

Martin Luther King Jr. é um pilar no desenvolvimento do argumento

O elevado orçamento permitiu a Lee e à sua equipa de produção uma liberdade total no que toca às filmagens, aos locais onde estas são feitas e aos equipamentos utilizados. Em certas alturas, no retrato do passado, Lee optou por não utilizar a tecnologia do filme “O Irlandês“, de Martin Scorsese (2019). Falo da “manipulação da idade”, que para retratar cenas do passado, os atores são os mesmos, mas com traços mais jovens. Em “Da 5 Bloods” os atores apresentam os mesmos traços num tempo passado, que, segundo o crítico de cinema Bernardo Freire, “pensam o passado com o corpo do presente, como se estivessem de novo na guerra“.

No que toca ao argumento do filme, este irá dar que falar na categoria de Melhor Argumento Original na próxima Gala dos Óscares.

Muito focado na cultura e na comunidade negra norte-americana, Spike Lee consegue fazer-nos repensar a história de um ponto de vista inteligente e humano. Este nunca esquece a condição do Homem, levantando problemas no meio do caos. A Guerra do Vietname é o reabrir de uma ferida do passado e gravá-la de outro ponto de vista. Ressuscitar problemas pouco mediáticos que o “homem branco” decidiu deixar de lado. O problema é que a história não se apaga, e “Da 5 Bloods” vem gritar-nos isso mesmo ao ouvido, de forma a não cometermos os mesmos erros. Fá-lo bem e oportunamente, mas é pena por vezes o cineasta fechar-se demasiado num tipo de discurso muito focado em certas comunidades.

Rating: 3.5 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

3 thoughts on ““Da 5 Bloods”: Um passado eterno (visto de outra perspectiva)

  1. marcelopereirarodrigues diz:

    Excelente a sua crítica. Não assisti ao filme, mas o farei em breve. Parabéns pela riqueza de detalhes!

    1. Muito obrigado Marcelo! Espero sempre manter esta exigência. Abraço

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