Num meio onde o sucesso do produto está fortemente associado à antecipação e publicidade (ao hype, se autorizado o estrangeirismo), é reconfortante ainda haver videojogos que, praticamente sem ninguém estar à espera, conseguem alcançar sucesso mediático - é o caso de “Blue Prince”.
O primeiro jogo do estúdio Dogubomb, lançado em abril deste ano, foi impulsionado pela presença imediata nas subscrições Xbox Game Pass e Playstation Plus. Ter chegado a uma grande quantidade de jogadores através destas assinaturas, as críticas esmagadoramente positivas e um interessante boca-a-boca fazem com que “Blue Prince” tenha chegado rapidamente a milhares de gamers, atraíndo todas as atenções. A aura mística do jogo começa desde logo pelo curioso género em que se situa: uma mistura entre jogo de puzzles, com elementos do género roguelike.
O jogador assume o papel de Simon, um jovem que recebe de herança por parte do seu falecido tio-avô a gigantesca mansão de Mount Holly, conhecida pelos seus 45 quartos. A passagem da propriedade de Herbert S. Sinclair para o sobrinho-neto está, contudo, dependente de uma condição imposta no testamento: Simon deverá localizar o Quarto 46, uma localização secreta dentro da casa.

Os 45 quartos da casa são representados por quadrados numa grelha de 9 linhas e 5 colunas. Apesar da ordem aparente, a propriedade de Mt. Holly apresenta uma curiosa característica. Com a exceção do hall de entrada e da antecâmara na ponta oposta da casa, as posições das restantes divisões da casa são alteradas de dia para dia. É na representação desta variabilidade que assenta a vertente roguelike do jogo. Sempre que o jogador abre uma porta para um novo quarto, são selecionados aleatoriamente três novos locais, dos quais é necessário escolher apenas um. Alguns destes quartos poderão não ter saída (como armários ou armazéns) e podem ter até 3 novas portas.
As divisões têm características muito próprias, tornando a escolha ponderada do plano da casa o principal puzzle do jogo. A gestão dos recursos do jogo é também um fator decisivo para que o jogador continue a ter oportunidade de explorar. Estes incluem: chaves, que permitem abrir portas trancadas (mais comuns à medida que o jogador se afasta da entrada da casa); gemas, necessárias para poder selecionar certas divisões (mais) importantes; e moedas, usadas para comprar ferramentas ou comida.
Além disso, a navegação pela casa deve ser consciente, pois cada mudança de divisão tem o custo de um “passo” e cada dia inicia-se com um plafond de 50 passos (que poderá, contudo, ser aumentado com comida ou em certos quartos especiais). Se o jogador ficar sem passos, perceber que não pode progredir mais na mansão ou simplesmente quiser reiniciar o seu progresso, esse dia é terminado e todo o progresso é reiniciado, incluindo quartos, recursos e itens.

Dada a dica inicial do jogo de que a antecâmara na outra ponta da casa poderá ser a “chave” para encontrar o Quarto 46, “Blue Prince” pode parecer inicialmente um desafio direto. A vertente de puzzle é complementada por fatores de aleatoriedade e gestão de recursos, criando um subgénero pouco explorado e que poderia ficar comodamente satisfeito apenas com a sua própria novidade. Mas é com a exploração atenta dos quartos, a experimentação de novas divisões e configurações, e a noção que cada dia difere do anterior que o jogo começa rapidamente a mostrar as suas camadas ocultas.
Após o jogador começar a encontrar padrões nos tipos de quartos, nas notas que são encontradas ou na forma como se podem usar as diferentes ferramentas, “Blue Prince” vai mostrando que chegar ao Quarto 46 não poderá ser apenas fruto da sorte ou de uma run mais sortuda, mas sim de uma estratégia de longo prazo que prime pela decifração de dezenas de segredos, assim como pelo aproveitamento das sinergias entre os diferentes compartimentos. Pela grande quantidade de informação que é necessário seguir em simultâneo, a recomendação do jogo em encorajar o jogador a tirar notas dificilmente poderia ser mais pertinente – e pode dizer-se até indispensável.

A vertente de Random Number Generation (RNG) poderá por vezes ser algo frustrante, sobretudo nos casos em que o jogador precisa de um quarto específico. Sendo essa talvez a crítica maior que se pode fazer ao jogo, o facto de cada novo dia na casa conter nova informação faz com que seja difícil ter runs desperdiçadas. Adicionalmente, mesmo depois de atingir o objetivo principal, uma narrativa secundária em forma de drama familiar é motivo suficiente para continuar a explorar Mt. Holly, a descobrir todos os seus segredos e a aproveitar um dos jogos mais surpreendentes dos últimos anos.
Sem querer privar novos jogadores do espírito de descoberta, apenas se acrescenta que o jogo se reinventa várias vezes ao longo da busca pelo enigmático Quarto 46. Fazendo lembrar tanto as melhores referências do género de puzzles, tais como “The Witness“, mas também fenómenos roguelike recentes como “Inscryption“, “Blue Prince” estabelece-se como um sério candidato ao estatuto de clássico. Podemos debater se será um marco no futuro, mas afirmar que “Blue Prince” é um dos melhores jogos de 2025 não merece sequer discussão.
Disponível em: PS5, Windows, Xbox Series X|S
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