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A vida de Dom Pedro II toca-me profundamente. Sinto ternura, respeito e piedade por ele. Um menino que perdeu a mãe, a sofrida Imperatriz Leopoldina, com um ano de idade. Viu o pai partir para o exílio, depois de abdicar a seu favor, quando ele tinha cinco anos de idade e nunca mais esteve com ele. Um órfão, aos cuidados de aias, tutores, professores; um menino sobre quem pesava o destino de ser monarca, símbolo da união e da integridade de um Império que vivia à beira da anarquia e da dissolução das províncias.

Aos quinze anos foi declarado maior de idade. Colocaram sobre os seus frágeis ombros de adolescente o manto suntuoso, sobre a sua cabeça infantil a coroa de um reino tumultuado. Começou o seu aprendizado político com cautela e dificuldade. O seu prazer pela leitura fazia dele um erudito moderado, aplicado aos negócios do país, que aos poucos se pacificava. O seu casamento com Teresa Cristina, feia e manca, quatro anos mais velha, foi outro contrato de Estado. É verdade que Teresa Cristina era bondosa.

Viveram juntos quarenta e seis anos e tiveram quatro filhos. Certamente encontraram a chave da amizade e da convivência harmónica, muito acima das paixões fugazes e ardentes. Com vinte e cinco anos era um homem amadurecido, firme politicamente, mas o seu maior interesse continuava sendo a leitura: história, filosofia, direito, astronomia, hebraico. Declarou certa vez: “Se eu não fosse imperador, queria ser mestre-escola. Não conheço missão mais nobre do que essa: dirigir as inteligências moças e preparar os homens do futuro.

Coroação de Dom Pedro II aos 15 anos de idade, a 18 de julho de 1841, por François-René Moreaux / Wikipédia

A decadência do Império deu-se principalmente à Guerra do Paraguai, à expansão do café e à questão da abolição da escravatura. A monarquia não acompanhou com ousadia e entusiasmo as tendências progressistas do exército, dos comerciantes, dos industriais, do funcionalismo público e ficou atada aos antigos nobres escravocratas. Neste ponto, em que eram necessárias coragem e juventude, o imperador estava velho, cansado, indiferente, sem disposição para lutas e mudanças. Sobre este momento de crepúsculo, escrevi:

O Brasil Imperial

Vai mal:

Chega de escravizar,

De tinir os ferros,

De estalar açoites,

De prender algemas

Nos braços negros,

De estancar feridas

Com sal.

Chega de alimentar a nobreza cabocla,

De regar com sangue o latifúndio,

De engordar as casas exportadoras,

De resistir às mudanças

Para o bem social.

Chega de empréstimos,

Falências,

Nos engenhos as moendas emperraram,

A flor do algodão secou como palha,

Atearam fogo ao cafezal.

O trono balança,

O imperador, D. Pedro II,

Não acompanha o progresso do mundo:

Lá fora há indústrias,

Vapores,

Trens,

Sopra o vento liberal.

O trono balança,

O imperador está velho, doente,

Pensa na Academia Francesa,

Em hieróglifos egípcios,

Em amigas da corte,

Em longos saraus.

D. Pedro coça a barba,

Deposita cetro e coroa

Sobre o trono que balança,

De sua valise

Saem as pontas do manto real.

Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, por José Correia de Lima (1843) / Wikipédia

Os militares conspiravam e, a 16 de novembro de 1889, Dom Pedro II recebeu a mensagem do Marechal Deodoro da Fonseca, comunicando a instalação da República e o exílio. Dom Pedro embarcou no dia seguinte com a família para Portugal, onde morreu em menos de um mês a Imperatriz Teresa Cristina. Depois ele foi para Paris, onde viveria os seus últimos anos, morador de um modesto quarto de hotel, passageiro de velhos coches alugados, rato de biblioteca.

Identifico-me com Dom Pedro II: com a sua solidão, com a sua dedicação aos livros, com a sua busca de sabedoria, com o seu amor ao Brasil, com o seu caráter mais voltado à contemplação do que à ação. Delirei:

Se eu vivesse na corte de Dom Pedro II

Seria monarquista,

Teria um retrato dele na sala de jantar:

A farda azul-marinho,

As barbas brancas,

Os olhos observando os gestos,

Um retrato tão vivo

Que não poderia encará-lo à noite,

À luz da lamparina.

Se eu vivesse na corte de Dom Pedro II,

Acreditaria em fatalismo,

Em poderes divinos

Que marcam reis e escravos;

Teria seios volumosos,

Vestidos de renda,

Seria uma dama requintada

Que guardaria para si

O orgulho

De uma vasta cultura cristã

E mais nada.

Se eu vivesse na corte de Dom Pedro II

Seria como ele,

Fascinada pelo Egito antigo

Desvendaria hieróglifos nas pedras à beira-mar,

Andaria numa liteira de cetim

E só diria “obrigada” em francês.

Se eu vivesse na corte de Dom Pedro II,

Teria chorado ao vê-lo partir

Com o seu travesseiro de terra brasileira.

Se eu vivesse na corte de Dom Pedro II

Seria súdita leal,

Meio estranha,

Meio louca,

Como uma noiva

Deixada no altar

Ou trancafiada num convento.

Não pensem que este poema seja uma exaltação à monarquia. A única aristocracia a que realmente almejo é a espiritual.

Raquel Naveira

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