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“Quero dar uma festa realmente má. Estou a falar a sério. Uma reunião onde haja briga e sedução e pessoas sendo ofendidas e mulheres que desmaiam na casa-de-banho. Espere e verá.”


“Suave é a Noite”

O romance “Suave é a Noite” (Editora Record, 4.ª edição, 317 páginas) do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, foi lançado em 1934 e passa-se na década de 1920, apresentando-nos a Riviera Francesa e o lindo casal Dick e Nicole Diver, ele um psiquiatra e ela uma rica herdeira de um património dos Warren, família industrial dos Estados Unidos. Felizes e exuberantes, gostam de promover festas e a felicidade parece ser o ingrediente das suas respetivas existências.

Na praia, conhecem a atriz Rosemary Hoyt, que vinha de fazer o seu primeiro filme em Hollywood, “A Filhinha do Papai”, e a sua exuberância loura e jovial encanta ao casal Diver, que na festa promovida alusiva ao 4 de julho, Independência norte-americana, recebem alguns amigos e entre eles, a atriz e a sua mãe, que vive em função da filha e é fútil ao extremo, não se preocupando em nada com valores morais a ensinar.

Lemos permissividades e Nicole praticamente obriga o esposo a dar atenção a Rosemary, com ela a aceitar várias danças com Tommy Barban, um estimado amigo aventureiro que adora participar numa guerra ou nas caçadas em África, um sujeito sempre de partida. Essa liberalidade festiva esconde o drama da instabilidade emocional de Nicole e ficamos a saber que antes de ser o seu esposo, Dick havia sido o seu psiquiatra. Num sanatório na Suíça, ela fora internada com um problema sério por se ter transformado na amante do seu pai, pequenina ainda.

O escritor, romancista, contista, roteirista e poeta norte-americano Francis Scott Key Fitzgerald

Esse trauma à presença masculina e a ares antissociais vai sendo quebrado pelo competente Dick, jovem promessa na área da Psiquiatria que tenta publicar um livro científico. O mentor de Dick alerta-o para essa complicada transferência e salienta o óbvio: que a paciente via nele um ídolo, um Deus, que estaria sempre a postos a ajudá-la. Mas não adianta. O coração fala mais alto e o casamento acontece, com o psiquiatra a ter direito a uma boa fortuna, mesmo que não intente aproveitar-se dela. Ama Nicole e a vinda dos dois filhos, Lanier e Topsy, parece atestar o protótipo de uma família feliz.

Contudo, tanto glamour e festividade parecem esconder dramas pessoais e um certo fastio para com a vida. Com Dick, isso já era esperado, pois a sua profissão exige uma consciência afiada, e Nicole podemos afirmar que é feliz, ainda que escondendo o seu medo e insegurança. Ao longo das páginas, observamo-la mais entediada, gastando o seu dinheiro em compras supérfluas e o esposo bebendo rotineiramente, sendo obstinado no trabalho e agora enamorado de Rosemary. O projeto do livro está engavetado, e podemos perceber que o fausto corrompeu as suas iniciativas.

Fitzgerald problematiza os dramas daqueles que fizeram sucesso no passado, como o músico Abe North, amigo dos Diver, que há sete anos não consegue repetir o sucesso obtido com as suas atuações. Entrega-se à bebida e o seu alcoolismo atinge níveis alarmantes, mais uma prova de que a ascensão e a queda fazem parte da mesma moeda. Um romancista, McKisco, está às voltas com as vésperas de lançamento do seu livro e irá bater-se em duelo com Tommy, por questões ideológicas, e Fitzgerald narra todo o temor do intelectual no enfrentamento à questão.

“Terna É a Noite” é o título, em português, do filme realizado por Henry King, em 1962, que surge da adaptação da obra literária de F. Scott Fitzgerald. No elenco destacam-se os nomes de Jennifer Jones, Jason Robards e Joan Fontaine

Todo esse paraíso artificial da Vila Diana, na Riviera, esconderá enlaces dos mais perigosos, como quando Dick cede aos encantos da jovem atriz e Nicole acaba entregando-se aos galanteios de Tommy, e assim observamos a carreira médica de Dick ficar comprometida, a ponto de se entregar mais e mais à bebida. Pai amoroso e certamente esposo amoroso, mas não fiel, vê-se sustentado por Baby, irmã de Nicole que comanda as finanças da família. Tudo isso não caminha para um final feliz, a ponto de o médico perder o verniz da civilização e provocar brigas desnecessárias, sofrendo golpes físicos que lhe atormentam a alma.

Desconfio que Fitzgerald se tenha inspirado na sua própria vida para compor este romance. Seguem as pistas: ele era alcoólatra como Dick; a sua companheira Zelda era emocionalmente instável e bastante maluquinha; o casal gostava de participar em festas e Tommy parece ser o retrato falado de Ernest Hemingway, que era amigo do casal e que no filme “Meia-Noite em Paris” (2011), de Woody Allen, aparece a aconselhar o escritor a se separar de Zelda, pelo facto desta estar a atrapalhar a sua escrita, e subtende-se que exista algum relacionamento entre esta e o autor de “Adeus Às Armas“.

O certo é que em toda a exuberância e jogos sociais, a superficialidade acaba por aparecer deixando todos desamparados frente a uma verdade inconteste: por mais que a vida possa ser glamorosa e feliz, o tédio acaba por imperar naquela equação tão bem pensada pelo filósofo Arthur Schopenhauer, a do desejo, satisfação do desejo, tédio, desejo novamente e assim segue a roda. Bastante reflexivo!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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One thought on ““Suave é a Noite”: Literatura de alto nível

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