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Porque A Arte Somos Nós

Numa das suas apocalípticas frases, o filósofo Karl Marx (1818-1883) afirmou: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar“. Estudioso das incipientes relações de consumo, advindo da Revolução Industrial, o prussiano-alemão anteviu uma situação muito em voga na nossa época atual: o consumismo. De certa forma, é válido não esquecermos de contextualizar a época de Marx, mas é impressionante o eco advindo dos seus escritos nessa época em que muitos classificam como pós-moderna.

Certamente, é recorrente e válido lembrarmo-nos do nosso passado de criança, quando esperávamos o “Bom Velhinho” presentear-nos na noite de Natal. Ao acordarmos, corríamos para ver o que o “Papai Noel” havia deixado para nós. Geralmente, os miúdos ganhavam bolas ou carrinhos; as miúdas, bonecas ou cozinhas para brincarem. Isso fez parte da minha infância e acredito que tenha feito parte da vida de muitas pessoas.

Passado o primeiro deslumbramento com o presente em questão, deixávamos pelos cantos até que resolvíamos brincar aos “mecânicos”, retirando as rodinhas do carrinho de plástico (no meu caso) e por um descuido qualquer, perdia-as. Eis o brinquedo jogado definitivamente para o canto e é óbvio que ganhávamos o nome de “desmazelados”. Essa volta ao passado, à boa infância, constata-se atualmente no nosso constante processo de “infantilização” na nossa relação com os produtos, e é aí que entra Karl Marx.

Karl Marx

A maioria dos produtos que achamos “imprescindíveis” não passam de idealizações via propaganda, fetichismo da moda e com prazo de validade já nostálgico. É assim que funciona a roda! Ao nos depararmos com um telefone de altíssima geração na vitrine, deveríamos ter a perceção de que em três meses, no máximo, ele já será obsoleto. A solidez esvai-se constantemente, a mercantilização avassaladora e a teia de supostas necessidades que produz a figura do consumidor. Ele é o hífen entre a oferta e a procura, e nessa relação automática se perde o sentido para uma real necessidade.

Como “adultos infantilizados”, é claro que já deixamos as nossas crianças perderem a crença no “Pai Natal”, o que é ruim, uma vez que algumas lojas trocaram o sujeito que se vestia de “Bom Velhinho” por um “joão-bobo-robotizado e trémulo”, não contando, é lógico, com o ano de exceção que foi o da pandemia em 2020. Talvez sem atentar para o facto, alguns comerciantes roubaram a crença e o sonho de muitas crianças que esperavam sair às ruas para receber uma carícia de um Pai Divino. Quando muito, agora, presenciam o “fantoche trémulo”, fruto da automação desenfreada e irracional daqueles que apenas visam os lucros.

Pois bem, o “adulto infantilizado” certamente não parou para pensar nessa situação. Ademais, as vésperas de Natal são um somatório de demências permitidas. Nem a chuva e o frio dão jeito para refrescar e refrear um pouco a correria desembestada, as sacolas e sacolas de compras, o jeito paranoico de todos com a necessidade de vendas, os presentes que acreditamos merecer e que compramos para nós mesmos.

O barulho, a “roda-viva”, enfim… será necessária a solidão ao amanhecer do dia 25 de dezembro para percebermos que aquele produto que compramos não passa mesmo de um “carrinho”, e que dali a pouco estaremos “a retirar as rodinhas”. Nessa eudamonia irresponsável, inversamente vamos nos transformando em pessoas cheias de tudo, mas com um vazio na alma. Ter e não ser! “Tudo que é sólido se desmancha no ar“.

Marcelo Pereira Rodrigues

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