OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

“A poesia proporciona-me a descoberta de alguns dos meus sentimentos possíveis. Ela pode ampliar em mim o campo da minha capacidade de sentir coisas novas.”


“As artes da palavra: Elementos para uma poética marxista”

Aquando da minha formação em Filosofia pela Universidade Federal de São João del-Rey, no Brasil, lembro-me de ter assistido presencialmente a uma palestra de Leandro Konder (1936-2014) que me chamou bastante a atenção. Leandro foi um dos maiores estudiosos de Karl Marx (1818-1883) no Brasil. Um dos seus livros mais destacados é “Marx, vida e obra” (Editora Paz e Terra, 1968). Nesta crítica, irei abordar “As artes da palavra: Elementos para uma poética marxista” (Editora Boitempo, 2005, 111 páginas).

Aqui, ele publica alguns ensaios acerca do realismo na literatura ao longo dos tempos. Através dos géneros poesia, romance, teatro, crónicas e o próprio ensaio, além de cartas, Leandro observa a contextualização da obra e o seu respetivo autor. O livro passeia pelas origens do teatro grego, indo até William Shakespeare (1564-1616) e Bertolt Brecht (1898-1956).

Considerada por muitos género menor, a crónica manifesta-se no Brasil do século XVIII ainda com resquícios de certa formalidade académica, lembrando que Machado de Assis (1839-1908), considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o qual concordo, foi um dos primeiros a escrever estes textos mais fragmentados para jornais. Daí a tradição brasileira de bons cronistas. Konder esclarece-nos que a sátira, o descompromisso ao escrever pequenas amenidades e muito mais, são frutos desta escola que logrou êxito entre nós.

Capa do livro “As artes da palavra: Elementos para uma poética marxista”

Já na poesia, o sociólogo Konder esclarece a dificuldade de se ler poesia. Diametralmente oposta à prosa, o género necessita de um estranhamento particularizado. Tenho essa mesma opinião e costumo brincar que para um filósofo cartesiano que aprendeu desde cedo a trabalhar com a razão e o método, é muito complicado ler e ouvir “inspirações que me vieram à cabeça assim de repente” (um pouco de deboche meu para maus poetas, mas claro, toda regra tem exceção). Konder dedica um ensaio a Fernando Pessoa (1888-1935) e aos seus heterónimos de forma primorosa.

O romance é observado além daquele conceito ultrapassado de que “era a manifestação do mundo burguês”. As explicações para a obra de Honoré de Balzac (1799-1850) são esclarecedoras. Fruto de uma contradição, Balzac seria o alter ego Luciano de Rubempré no livro “Ilusões Perdidas“. Ele aspirava à alta classe francesa e, mesmo assim, sem ser socialista ou comunista, tinha o reconhecimento de Friedrich Engels (1820-1895) e Marx que viam nele um retratista da sua época, na denúncia das suas mazelas.

Por falar em Marx e Engels, as cartas entre ambos são citadas. Leandro discorre sobre a forma sarcástica com a qual Marx debochava dos seus adversários. Especialista em Marx, Leandro contribuiu muito para os estudos deste pensador no Brasil, dissociando Marx, o marxismo e os marxistas, a tríade que é sempre complicada de se estabelecer.

Um livro leve, bom de se ler, que me rememorou leituras já feitas e indicou outras a serem feitas, como a dos poetas Shakespeare e Brecht. Com uma escrita simples e direta, lendo remeti à sua palestra quando conduziu o auditório com extrema elegância e discernimento.

Quem não consegue incorporar significativamente nada do que a humanidade criou de melhor será, com certeza, um espírito limitado, mal provido de imaginação criadora.

Trecho do livro

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

Se queres que OBarrete continue ao mais alto nível e evolua para algo ainda maior, é a tua vez de poder participar com o pouco que seja. Clica aqui e junta-te à família!

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: