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A Jangada da Medusa” (1818-1819) é um quadro do pintor francês Théodore Géricault exposto no Museu do Louvre. Uma obra impressionante: homens amontoados em forma de pirâmide sobre uma embarcação tosca, a vela enfunada, as ondas movimentando o mar, corpos decepados, seres emaciados como figuras de cera e, num canto, um machado sangrento e um uniforme vermelho e azul abandonado, símbolo do colapso militar e político de França, após a queda de Napoleão.

No contorno dramático, recortado contra um céu cinzento, um braço projeta-se para o infinito. Existe emoção nos rostos e gestos dos sobreviventes, dos que subiram do abismo do desespero ao ápice da fé, ao verem uma pequena mancha no horizonte enorme da tela. Era o Argus, o navio que os resgatou, aproximando-se.

Existe uma história por trás do quadro: no verão de 1816, uma fragata, a Medusa, naufragou na costa de África, quando levava soldados para o Senegal, colónia francesa. O incompetente capitão entrou num bote, deixando os passageiros, que considerava serem seus inferiores sociais, entregues à própria sorte. Centenas de homens e uma mulher construíram uma jangada e ficaram à deriva no oceano por treze dias. Apenas quinze sobreviveram nessas terríveis circunstâncias e relataram casos de canibalismo e loucura. O facto chocou a nação. O quadro trouxe a arte para a polémica área do protesto, da manifestação política. Misto de arte e realidade, embora nunca a pintura pudesse fazer justiça ao horror e à angústia dos homens na jangada.

Auto-retrato de Jean-Louis André Théodore Géricault, pintor francês do Romântico (1791-1824) / Wikipédia

Assistindo a um vídeo chocante de refugiados espremidos numa balsa de borracha, no exato instante em que vários se afogaram nas águas do Mediterrâneo, lembrei-me da Jangada do Medusa. De como tudo se repete no tempo e com tintas muito mais fortes do que poderíamos imaginar. A vastidão salgada transformada num imenso cemitério calcinado de ossos humanos, boiando como restos de conchas e corais.

Filas de refugiados procuram entrar na Europa. Chegam castigados pelos conflitos, pela pobreza, pelas guerras civis, pelos levantes populares, pelos terroristas, pelos grupos radicais, pela fome, pela seca, pelas perseguições. Arriscam-se em travessias perigosas, em barcas superlotadas, controladas por traficantes. São sírios, afegãos, eritreus, somalis, nigerianos. Pedir asilo é um direito humano. Os países deveriam unir-se numa operação de livramento. Não ajudar é desumano, indefensável, é içar uma ponte levadiça enquanto milhares morrem no fosso que rodeia as muralhas dos nossos castelos. Mesmo que tenhamos receio, que os consideremos estranhos, com intenções desconhecidas, a solidariedade, essa forma de amor, lançaria fora o medo.

E navegando da África em direção ao Atlântico, encontramos ainda sob a pele de espuma do mar, o rasto dos navios negreiros, verdadeiras tumbas, cargueiros que transportaram escravizados durante séculos. Caixões atirados às águas, com negros empilhados, amarrados por correntes, tratados como animais, feras acuadas, panteras famintas. Os olhos chispando de raiva e revolta.

Quando o esquife balançava, era vómito por todo lado, sujeira, brasas, gemidos, gritos, carnes putrefatas. Pela proa e pela popa corriam as sentinelas da Coroa guardando o ouro e as riquezas. A cobiça devorava os seus fígados e almas como abutres. Lá vinham as barcas com a bandeira brasileira hasteada durante o dia e o brilho dos tocheiros à noite. Tão atuais os versos indignados do poeta Castro Alves: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se é loucura ou se é verdade tanto horror perante os céus?“.

Imagens como esta continuam a ser recorrentes por essas águas fora, com pessoas em busca de uma vida melhor

Leio agora o romance “Antes que as Palavras te esqueçam“, de Leonardo Tonus, poeta e pesquisador radicado em França. Obra escrita em formato epistolar, cartas enviadas por L., personagem narrador, ao seu amigo Jamal, um refugiado afegão que está em Berlim. Jamal foi repatriado ou está em vias de sê-lo, totalmente desesperado e vulnerável. As cartas de L. nunca recebem as respostas de Jamal, num misto de comunicação e silêncio.

Tudo tenso e poético. Há impossibilidade de diálogo, afinal somos todos deslocados, desterrados, estranhos. As reflexões sucedem-se: imigração, o quotidiano de estrangeiros em países europeus, a memória das guerras, o nazismo, o muro separando os cidadãos e as famílias, as feridas e as pedras de tropeço nas ruas. Transcrevo o trecho:

Mas como falar em direitos humanos para aqueles que não têm o direito de os possuir? Como reconhecer a dignidade dos que hoje são vistos como uma ameaça à ordem pública, ao mercado de trabalho, às identidades nacionais? Se uma ordem judicial assim é absurda, o que pensar então da sua transgressão? O que aconteceria se decidissem falar ou rir? Seriam amordaçados e privados de comida e água? Drogados e jogados para fora do avião em pleno voo? Que conspiração poderiam tramar sessenta e nove afegãos algemados dentro de um avião durante dez horas e quinze minutos?

E você, meu amigo, no que terá pensado durante todo esse tempo, sentado no seu assento, sozinho, junto à janela? Terá sentido saudade do mundo que deixava para trás? Ou, já resignado, pensava no que o esperava ao chegar, ao trilhar esse caminho sem volta?

Ambos sabemos, Jamal, que não há retorno possível para quem volta. Que ninguém refaz o caminho ao regressar. Que voltar não é um verbo redondo.

É crítica a situação mundial de refúgio. Para a jangada do Medusa, a visão de um diminuto navio trouxe esperança. E agora, sobrevoando a vastidão dos mares, de que nave, de que helicóptero, de que coração altruísta descerá a corda da salvação?

Raquel Naveira

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