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Porque A Arte Somos Nós

“A meu ver, a felicidade do homem consiste em bem viver; e não, como dizia Antístenes, em morrer bem. Não creio que deva grudar, agora, um rabo de filósofo a um corpo de homem já gasto, nem quero que o tempo que ainda me resta a vegetar seja um desmentido à parte mais longa e bela da minha vida”

Aos 38 anos, Michel de Montaigne (1533-1592) resolveu retirar-se do mundo e das coisas ditas práticas. O pensador francês, que chegou a ser prefeito de uma província de Bordeaux, pressentiu que já estava velho e que lhe restava pouco tempo para se dedicar àquilo de que mais gostava: ler os clássicos, fazer os seus fichamentos de leituras e escrever as suas memórias, recheada de citações filosóficas e argutas. Como escrevia intuitivamente, o sábio (mesmo que assim não se definisse) enclausurou-se no seu castelo e no topo deu uma revitalizada na sua biblioteca, repaginando-a e criando assim o seu céu particular, para que pudesse desfrutá-lo em vida ainda.

O filósofo escrevia sobre tudo. Fazia comentários sobre as obras dos filósofos gregos clássicos e adaptava-os à sua época. Tinha um ar meio blasé ao lidar com temas da sua época, e não poupava as ditas classes mais privilegiadas e influentes como a dos médicos. Ele mesmo que sofria de pedra nos rins, causa aliás da sua morte, assim se refere aos profissionais da Medicina, cito: “Quem jamais viu um médico confirmar simplesmente a receita de um confrade, sem nada acrescentar ou cortar? Revelam assim a inanidade da sua arte e mostram que mais os preocupam a própria fama e os lucros do que os doentes“.

E um pouco mais adiante: “Quantos médicos não vemos, atribuindo-se uns aos outros a culpa pela morte das suas vítimas? Recordo-me de uma doença muito perigosa, não raro mortal, que se observou há tempos nas cidades da minha região, atingindo principalmente as classes pobres. Passada a epidemia depois de ter feito um número considerável de vítimas, publicou certo médico uma obra em que criticava o uso da sangria no combate ao mal e confessava ter sido esse tratamento a causa principal dos casos fatais“.

Castelo de Montaigne, em Bordeaux, França

Fazendo uma reflexão sobre a nossa atualidade, ao assistir à Organização Mundial da Saúde (OMS) conceder diariamente entrevistas e se contradizerem a todo o instante sobre o combate à Covid-19, quase dá para dar créditos a Montaigne. Mas que fique bastante claro: Montaigne não pode ser considerado um escritor que não gostava de médicos. Este que vos escreve fez um recorte apenas, e convido desde já a lerem “Ensaios“, que é o seu livro mais clássico e que aborda várias questões, levando-nos a reflexões intrigantes.

O seu vastíssimo conhecimento da Antiguidade Clássica é impressionante. Não apenas leu as obras de Platão e Aristóteles, compreendo-as bem e adaptando-as ao seu tempo, como sabia bastidores familiares da vida destes dois pilares (não são raras as vezes em que ele alude a um sobrinho de Aristóteles, a um aluno de Platão etc.). Montaigne foi antes de tudo um estudioso e um homem do seu tempo, mesmo que voluntariamente se tenha afastado dele.

Seus escritos, aforismas e pensamentos, misto de diário de bordo e reflexões acerca de coisas banais, por vezes, é um deleite, sendo que o melhor é pegar neste “Ensaios” e ler ao acaso. Não é necessária uma ordem pré-estabelecida e a isso podemos refletir sobre esta passagem:

Nasci e fui criado no campo; tenho negócios e bens por administrar desde que os deles usufruíram antes de mim me cederam seu lugar. Ora, não sei calcular de jeito nenhum, não conheço o valor da maioria das moedas, não sei distinguir, a menos de diferença muito evidente, um grão de outro, nem na planta nem no celeiro; mal sei diferenciar um repolho de uma alface;

ignoro o nome dos utensílios domésticos mais vulgares e as elementares regras agrícolas ao alcance de uma criança: conheço ainda menos as artes mecânicas, o comércio, as mercadorias, as diversas espécies de frutos, vinhos, carnes, não sei tratar de um cão ou de um cavalo, nem treinar um falcão para a caça; e visto que devo confessar toda a minha vergonhosa carência, não faz dois meses verificaram que eu ignorava para que servia o fermento na fabricação do pão, nem como se preparava o vinho“.

Michel de Montaigne

O Castelo de Montaigne é hoje uma das atrações turísticas mais visitadas na região de Bordeaux. Impressionante edificação que nos remonta ao século XIV, aquando da sua construção, e testemunho vivo da sua icónica biblioteca que aponta para a necessidade de nos retirarmos do mundo um pouco, para lermos, estudarmos e refletirmos. Uma vida estoica que nos indica que já carregamos dentro de nós o melhor de nós mesmos, saindo desse mundo cão de alaridos e massas descerebradas.

Um dos meus livros de cabeceira, sempre o abrindo ao acaso, recorro a ele sempre que os chamamentos da vida moderna me acometem. Assim o faço agora, para ler excertos como este. Despeço-me orientando a leitura de “Ensaios”, como um deleite para o corpo e para a alma.

Assínio Pólio cometeu erro semelhante, pouco desculpável em um homem de honra. Escrevera uma diatribe contra Planco e aguardava a morte deste para a publicar. Em vez de correr o risco do ressentimento que ia provocar, era como se desafiasse um cego com gestos indecorosos ou um surdo com palavras ofensivas, ou ainda como se violentasse uma pessoa desfalecida.

Daí lhe dizerem que ‘cabia aos gnomos lutar contra os mortos’. Quem aguarda a morte de um autor para criticar-lhe a obra demonstra que é fraco e vil. Comunicaram a Aristóteles que alguém falara mal dele: ‘Que faça mais ainda’, respondeu, ‘que me açoite conquanto eu não esteja presente’“.

Marcelo Pereira Rodrigues

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