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Porque A Arte Somos Nós

Konigsberg é uma cidade prussiana-alemã na sua origem, que após a II Guerra Mundial passou a chamar-se Kaliningrado e ficou sob a tutela russa. Mas vamos voltar no tempo e nos remeter ao Estado da Prússia que viu nascer o seu filho mais ilustre: o filósofo Immanuel Kant (1724 – 1804). O marco divisor na História da Filosofia, sendo consenso que existe uma filosofia antes e depois desse metódico pensador e professor, que nunca saiu da sua cidade e que permitia aos moradores de Konigsberg acertarem os seus relógios quando ele saía para comprar o pão.

Instado pelo editor do “OBarrete” para escrever um artigo sobre Kant, ponderei e topei o desafio, só adiantando que um artigo será pouco para dar conta de várias abordagens. Assim sendo, iniciarei uma série independente de artigos, mas a demanda foi oportuna para relembrar as excelentes aulas que tive na minha formação, na Universidade Federal de São João del-Rei, UFSJ, no Brasil, com o professor e filósofo José Mauricio de Carvalho.

A importância de Kant para o pensamento ocidental se dá a partir de duas importantes obras: “Crítica da Razão Pura” e “Crítica da Razão Prática“. Antes de desmembrá-la um pouco mais, será necessário contextualizar o momento pelo qual passava a Filosofia nesse período. É necessário salientar a importância do francês René Descartes (1596-1650) que inaugura o cogito, “Penso, logo existo” superando em muito a forma do pensamento medieval que atribuía a Deus todas as coisas e possibilidades. Gentilmente, Descartes convida Deus a se retirar da discussão.

René Descartes

O básico é: o meu pensamento é o ordenador das possibilidades que tenho e o conhecimento só pode ser obtido através dele. Descartes é inaugural nesse aspecto, existe uma forma pura de investigação e ela é obtida por meio do pensamento. Essa razão pura é o substrato e a meta ao mesmo tempo. De certa forma, o francês retorna aos clássicos gregos (Platão e Aristóteles), mas não admite apenas o ideal das formas perfeitas apresentada por Platão. O conhecimento em Descartes é abstrato, prescindindo das ocorrências terrenas e de seus objetos.

Impressiona a herança cartesiana até os nossos dias, sendo atribuída, por vezes até de forma pejorativa, a indicação de que determinada pessoa é racionalista, cartesiana, na forma de pensar as coisas, escondendo no caso as suas afecções e sentimentos.

Descartes sugere uma razão pura que ordena a possibilidade de conhecimento e cabe aqui uma constatação óbvia: “o calcanhar de Aquiles” dos filósofos sempre foi transpor o entendimento das coisas terrenas daquilo que seria o ideal supremo do entendimento, chame-se a isso do que quiser: Mundo Inteligível (Platão), Deus (Doutrina Cristã), Razão Pura (cartesianos), Espírito Absoluto (Hegel), o Nada (existencialistas franceses) etc. Mas, por enquanto, fiquemos com a razão cartesiana que era a moda à época, casando bem com os ideais do Renascimento ocorrido no continente europeu. Está tudo engendrado.

Tudo ia muito bem, até que na ilha da Grã-Bretanha, surge um movimento filosófico bastante dissonante: o empirismo. Seus expoentes são John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776). Estes pensadores analisaram o conhecimento por meio dos objetos perceptíveis e tudo depreendia deles. Não concebiam uma razão metafísica, mas sim aquilo que era experimentado na prática. Refutavam os ideais cartesianos de inatismo e entendiam que o homem, ao nascer, se constituía apenas de uma tabula rasa, ou seja, ele nascia e a cada sopro seu, ia escrevendo aos poucos a sua história de vida.

David Hume

O movimento empirista é radical e suplanta o racionalismo aplicando a possibilidade do conhecimento através das atividades práticas. Hume era tão contundente que chegava a duvidar que o Sol pudesse nascer no dia seguinte, pois àquela hora e momento não havia garantia para tal. Imaginem: caso o Sol não aparecesse, o homem teria que escrever na sua tabula rasa o fato estranho deste não aparecimento do Astro Rei.

Temos então duas correntes: a razão pura (Descartes) e a razão prática (empiristas). E é aí que aparece Kant para fazer sua síntese e demarcar o seu nome na história dos pensadores filosóficos mais originais. O prussiano estava impregnado dos ideais cartesianos, até ler Hume e admitir, humildemente, que “Hume o houvera despertado de um sono dogmático”. As obras citadas acima significam exatamente o que parecem: elabora uma crítica ao racionalismo e elabora uma crítica ao empirismo puro, propondo uma síntese.

John Locke

Kant é genial aí: concorda e discorda das correntes filosóficas propostas e inaugura a sua tese: pensa que ambos estão no cerne da discussão, mas que faltam instrumentos a ambas na percepção das coisas como são. Kant chega à conclusão do óbvio: os limites do conhecimento. Seria vã a tentativa de englobar tudo e todos numa explicação filosófica que solidificasse as coisas. Isso seria dogma, crença pura e simples.

Acerca desses limites, investiga quais seriam os elementos primordiais que poderiam levar o homem a pensar e se colocar no mundo: fala-nos da estrutura do espaço e do tempo. Essas duas chaves possibilitam o entendimento das coisas, tudo isso muito bem elaborado nas suas duas obras mais citadas: as críticas às razões pura e prática.

Abordar Kant possibilita-nos caminhar por vários vieses: o filosófico, um pouco complicado para os leigos (devo admitir) e moral – comportamental. Em futuros artigos, pretendo discutir outros temas intrigantes: o seu imperativo categórico (que remete aos ensinamentos cristãos de não se fazer aos outros aquilo que não gostaria que fosse feito a você); sobre a capacidade intelectual e como o constante aperfeiçoamento dela nos transforma em pessoas melhores; a verdade e intransigência para torná-la universal e acerca do uso público e privado da razão.

Espero desenvolver a árdua tarefa a contento.

Marcelo Pereira Rodrigues

7 thoughts on “Kant: O Filósofo que demarcou a História da Filosofia

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