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Outro dia, no meu canal do YouTube MPR Filósofo, um espectador perguntou-me o que eu entendia por duas palavras que havia pronunciado. Percebi que ele esperava a minha explicação de filósofo, e que sendo eu um iniciado na disciplina, poderia lhe elucidar a questão. Humildemente, ao me deparar com esse questionário, e sabedor das diferenças entre a oralidade e a escrita, admiti que os dois termos em questão poderiam significar muitas coisas, a depender do filósofo, do período em questão e da conceção que àquele momento ele tivesse do estudo.

Após responder, reverberei a questão por mais um tempo (assemelho-me a um boi mastigando o capim) e saberia que voltaria à questão após, com mais propriedade. Bom, um dos meus livros de cabeceira e de estudos recorrentes é o “Dicionário de Filosofia” (Editora Martins Fontes, 2000, 1014 páginas) de Nicola Abbagnano. Claro que não o li todo, trata-se de uma obra de consulta para averiguar o emprego de tal frase em determinado contexto.

Assim, se analisarmos um verbete como finalismo, em quatro páginas e meia leremos várias interpretações e sentidos, sempre passeando pelos cânones da disciplina, de Platão a Aristóteles, passando por Spinoza a Kant. Ideia então proporciona um prato cheio: também quatro páginas e meia, e teremos sempre de saber que o verbete para Platão era uma coisa, para Francis Bacon outra e para Hegel outra completamente diferente.

Retrato do filósofo holandês Baruch Espinoza

Penso que a Filologia é a aliada mais poderosa da Filosofia, pois trabalha a interpretação de cada termo em particular para compor a ideia como um todo. Não à toa, Friedrich Nietzsche (1844-1900) comparava a função de filólogo à do médico que consegue enxergar para além da superfície. Observem então que tudo o que nos é enunciado é eivado de termos, preconceitos, palavras e valores mal trabalhados, e quando isso gera comunicação em massa, é visível o nível de superficialidade em muitos dos discursos. Acredito que nos falte humildade para, ao sermos questionados, reconhecermos que teremos que nos debruçar sobre a questão para responder com exatidão, mas nada pode ser feito no calor da hora.

Aprendo diariamente acerca do idioma português e sou sabedor que “rapariga” em Portugal é o correspondente a “moça” no Brasil. Aqui, pejorativamente, rapariga pode significar mulher com comportamento promíscuo; “miúdo” em Portugal significa “garoto” ou “menino” no Brasil. Aqui, miúdo pode ser atribuído a uma criança que se desenvolveu pouco, como que acometido de parto prematuro. Lendo os colegas articulistas de OBarrete, deleito-me com a aprendizagem constante, com os termos e os seus significados.

Percebi que as traduções dos meus romances são difíceis e demandam um tempo danado. Se Espanha faz fronteira com a Terra de Camões, nada mais natural pré-concebermos que muitas das palavras serão correlatas, mas qual nada. A 1.ª versão de “A Queda” (romance de minha autoria) para que se transformasse em “La Caída” ocasionou alguns mal-entendidos, descritos por atentos leitores. Vivendo e aprendendo.

Após mais de duas décadas, desculpo e perdoo o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) quando este desdenhou uma proposta do filósofo chileno Víctor Farías (1940), seu aluno, para que vertesse o seu completo “Ser e Tempo” para a língua espanhola. Heidegger respondeu que o idioma latino não daria conta de traduzir corretamente aquilo que ele pretendeu expressar em alemão.

À época de estudante, fiz uma comunicação aventando ao facto de Heidegger ter discriminado uma linguagem, significando com isso o povo e sendo uma prova inconteste da sua discriminação como um todo, ele que havia sido membro do Partido Nazi. Hoje, penso que ele tinha razão, “vamos com calma com o andor, pois o santo é de barro“, sim, ele falava aqui do tronco linguístico, do sentido das palavras, sendo o alemão uma língua concentrada nela mesma.

O alemão Martin Heidegger

À medida que o tempo passa, vai crescendo em mim a máxima socrática do “Só sei que nada sei” e isso é verdade, não falsa modéstia. A bem da verdade, não sabemos de nada e quando proferimos ou escrevemos palavras, arrogamo-nos a ser intolerantes e conscientes de que somos os donos da razão. E é aí que a questão se coloca: indivíduos que se julgam demasiado inteligentes, muitos formadores de opinião, jornalistas, comunicadores e gente raivosa proferindo as suas verdades nas famigeradas redes (antis) sociais podem se revelar ignorantes se levarmos as lupas a cada um dos termos empregados.

Em muitos textos, decomponho por brincadeira vários discursos e não foram poucas as vezes em que me deparei com um enunciado de 10 linhas com três clichés, preconceção por falta de análise, frases feitas (umas três) e quando passamos ao crivo da filologia, a coisa não se sustenta. São tudo palavras vazias, amontoados de palavras que não significam nada. Podem acreditar, isso é o que mais observamos por aí.

Assim sendo, fica a receita para nos provermos de uma excelente comunicação: humildade em reconhecer que não se sabe tudo; entendimento de que na maior parte das vezes as pessoas não sabem exatamente o que estão a falar ou a escrever; e se estas mesmas pessoas se arvorarem a serem donas da verdade, nos proporcionarão risos e a consciência de que para trabalharmos com as palavras devemos estudá-las, e para isso nada melhor do que muito do que falamos deve passar pela peneira da boa ferramenta: um Dicionário que nos aponte soluções.

Gosto de quando sou questionado, sendo que isso confirma a minha pequenez frente ao todo, mas imbuído do espírito de ser resignado e aprender. Aprender e aprender.

Marcelo Pereira Rodrigues

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