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Porque A Arte Somos Nós

O livro de Marcelo Pereira Rodrigues é um mergulho no lado dramático da vida, ele revela o que todos nós passamos em algum momento da nossa existência. A vida, tema deste trabalho, aparece como profusão de experiências aparentemente desconexas, nascidas num mundo pessoal manifestamente caótico. Ao acompanhar as experiências de António Roque de Oliveira, um homem que poderia ser qualquer um da sua geração, vamos descobrir que paralelo às dores e inseguranças existenciais, há nele o empenho para perceber um sentido, para ultrapassar o caos e o desajuste de uma vida experimentada num turbilhão de experiências. Haveria um sentido em toda essa aparente confusão? Os filósofos da existência procuraram encontrá-lo.

Albert Camus (1913-1960), no discurso que pronunciou quando recebeu o Prémio Nobel, explicou o que significa tal empenho. Disse naquele momento:

Cada geração, sem dúvida, julga-se destina a refazer o mundo. A minha, entretanto, não sabe que não o reformará. Mas o seu papel talvez seja maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida onde se misturam revoluções decaídas, as técnicas que enlouqueceram, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, onde poderes medíocres podem, hoje, destruir tudo, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se abaixou a ponto de se tornar escrava do ódio e da opressão, esta geração foi obrigada a nela própria e em torno dela restaurar, a partir unicamente das suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e morrer” (pronunciado em 10 de dezembro de 1957).

O escritor e filósofo Marcelo Pereira Rodrigues

O autor faz o personagem passar por momentos de sofrimento que nos parecem familiares. Todos nós, no dia-a-dia, experimentamos contradições, vemo-nos numa subjetividade dividida: amamos e odiamos, buscamos e não buscamos, nos abrimos e nos fechamos à presença dos outros. Na solidão do seu mundo, António vive momentos de profundo ensimesmamento, penetra no seu interior, segue-se a descrição do desespero, da falta de amor. O texto deixa-nos frente a frente com uma existência em tensão. Esses momentos de mergulho interior não são tudo, há também a ida até ao outro.

Nessa ocasião, observamos o personagem encher-se de carinho, mesmo que esteja sempre perturbado pela dificuldade de entender o mundo dos que o cercam, que é realidade tão distinta e distante da dele próprio, pois cada pessoa é um mundo. O personagem vive os seus dramas ao mesmo tempo em que se depara com as dores dos outros. Ele vive em meio aos riscos, os seus encontros e desencontros lhe dão uma face humana, inimiga da rotina e da mesmice comum na vida dos medíocres.

Esse homem não tem certeza do resultado das suas relações, não está seguro da validade das suas escolhas, está lançado no mundo em meio à dor, solidão e desespero, mas, de vez em quando, também experimenta momentos de carinho e doçura. Do abismo da existência e do fundo da sua ansiedade, António mostra esse lado doce quase esquecido que teima em permanecer com ele.

As dificuldades da vida num país em que a falta de crescimento económico adia os sonhos podem ser percebidas como pano de fundo desta vida. Porém, o mundo do nosso amigo António é denso demais e pode-se compreendê-lo com uma análise social ou económica. É o viver no risco, como expressão metafísica do modo humano de ser, o que brota no texto do Marcelo. As dificuldades nascidas da falta de perspetivas e dos problemas a serem vencidos, somadas ao lado dramático do viver, revelam a angústia do homem que procura uma razão para viver.

O livro reflete com precisão, ainda que não diga nada de um tempo marcado por novas guerras, terrorismo, violência brutal, consumo de drogas em grande escala, grande poder nas mãos dos traficantes, desencanto com a leitura positivista da ciência e destruição de utopias socialistas, todos factos que aguçam o lado dramático da existência. Esse lado angustiante acompanha a humanidade desde sempre, e os momentos da história de dificuldade intensa, de crise profunda, colocam-no em evidência.

A vida humana é, contudo, mais do que desencanto e angústia. Autores existencialistas do último século carregaram no lado dramático do viver porque não há consolo possível para o facto de que a existência é experiência sem volta, realidade que se experimenta uma única vez, realidade dependente das escolhas que se faz e a falta da certeza que as acompanha. Marcelo fala dessa dimensão da vida e faz dela o ambiente de um personagem que nos lembra Antoine Ronquetin de “A Náusea” (1938), magnífico romance de Jean-Paul Sartre (1905-1980).

O escritor Prémio Nobel da Literatura Jean-Paul Charles Aymard Sartre (1905-1980)

Ronquetin mergulhou na mais aguda angústia quando se perguntou sobre o mundo em que vivia, quando tentou chegar a uma razão para tudo o que se passava. O livro recorda-nos também os romances intimistas de Albert Camus, “O Estrangeiro” (1942) e “A Peste” (1947), nas quais a literatura é arte que se exercita na primeira pessoa, um mergulho no mais íntimo de nós que acentua o caráter trágico de uma existência que se vive na primeira pessoa.

Comprovar os dramas da existência não é razão para sonhar com a consolação futura e ultraterrena, como fez o homem medieval, nem para se afundar na dor e desconsolo, como fizeram Sartre e Camus. É que viver tem também as suas compensações e alegrias, conforme José Ortega y Gasset (1883-1955) soube explicar com clareza. Vencer os obstáculos da vida e fazer escolhas coerentes com a própria vocação e desejos íntimos são ocasiões de alegria real e nos dão grande satisfação.

Quando começamos a viver, já encontramos um mundo organizado, com valores, costumes, hábitos, regras, leis e precisamos de nos adaptar a ele. No entanto, à medida que deixamos de ser crianças e nos tornamos adultos, aprendemos que não somos, nem nunca fomos, o centro de tudo. Descobrimos igualmente que podemos modificar o que está à nossa volta para melhor introduzir algo de nós mesmos, exteriorizando valores que nos são caros. A cultura humana se remoça com as novas gerações, e criar novos aspetos da cultura é algo importante e que dá satisfação.

No livro “O homem e a filosofia” (1998), afirmei que a existência é categoria fundamental para abordar o modo de ser do homem, mas que ela não se pensa fora da cultura. A cultura refere-se, simultaneamente, ao ponto de partida da existência e ao produto das ações humanas. Ela forma-se com os valores que o homem objetivou na sua história. Parece-me que a existência humana, entendida como recolhimento e projeto, apenas é fecunda quando se volta para o horizonte cultural, do qual emerge e modifica. Esse processo mostra o lado dramático e o realizador da vida.

Capa do livro “O homem e a filosofia” (1998), obra do escritor brasileiro José Maurício de Carvalho

Falar de existência e cultura não é propor uma síntese eclética, mas reconhecer que a liberdade é fundamental para entender o homem. Ela, contudo, só é liberdade humana se se realiza num espaço específico de valores e na história. A liberdade do homem não é uma possibilidade absoluta ou indeterminação absoluta, como fez Sartre, não acreditamos que a existência perca o caráter dramático. A dor continua connosco, os riscos acompanham-nos, a degradação da humanidade é uma possibilidade real. António é um exemplo disso. Cabe, contudo, vencer a tentação da angústia e do niilismo.

Recuperar a alegria e o lado produtivo da vida não é propósito só de raciovitalistas como Ortega y Gasset e Julian Marías (1914-2005). Descobriremos isso se ensinarmos a obra de Miguel Reale (1910-2006) e Djacir Menezes (1907-1966), herdeiros do legado culturalista de Tobias Barreto (1839-1889). Com esses filósofos brasileiros, aprenderemos que os valores culturais, tecidos no decorrer da história, estão na base da existência concreta dos homens. Eles revelam, ainda, que tais valores, com o passar do tempo, acabam assumindo objetividade universal e se manifestam, na tessitura existencial, como se inatos fossem, valendo a pena vivê-los.

Na vida, existe o amor e ele é sempre um valor a ser buscado, mesmo quando causa sofrimento. O amor permite olhar o outro de um modo como normalmente não fazemos quando nos fechamos na subjetividade egoísta com a qual nascemos. O amor é o que nos dá um filho querido, é o que nos oferta a boa amizade e é o que oferecem homem e mulher um ao outro como forma de entrega que só enriquece quem o compartilha. O amor alimenta a vocação, motiva o trabalho e coloca a pessoa em sintonia com as outras. Tudo isso representa alegria e realização, contraponto para as angústias e inseguranças que também povoam a existência.

A existência é, portanto, mais do que drama, embora seja verdadeiramente arriscada e perigosa. O autor desta obra mostrou a face dramática da vida e intimista do viver, mas há outra que não podemos também esquecer.

José Maurício de Carvalho

José Maurício de Carvalho é filósofo, psicólogo, pedagogo, escritor e palestrante, tendo já publicado mais de três dezenas de obras filosóficas.

Informações Importantes

Livro: 23 horas, 59 minutos: reminiscências do que está por vir. 2.ª edição

104 páginas. ISBN 978-65-01-03169-9

Preço: 16 euros (incluindo as taxas de envio)

O pagamento deverá ser realizado via Western Union

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