À medida que crescemos e evoluímos (enquanto ser), mais tendência temos a questionar o que faz de nós aquilo que verdadeira e autenticamente somos. É uma dualidade intrigante, porque, por mais que queiramos ser a ‘outra’ melhor versão de nós mesmos, até que ponto é que faz sentido sabotarmos a nossa individualidade, isto é, aquilo que temos de realmente nosso? Temos de estar dispostos a sermos melhores do que aquilo que éramos ontem, mas sem abdicar da nossa identidade, do resultado de tudo aquilo que vivemos até agora. Sempre de dentro para fora, é essencial escolher um caminho pela verdade – por muito dolorosa que ela seja (a curto prazo).
“Inside Out 2” (2024) – “Divertida-Mente 2“, em português –, a aguardada sequela do aclamado filme de animação de 2015, levanta, com sabedoria, estas questões. De facto, o primeiro filme encantou audiências ao redor do mundo com a sua representação inovadora das emoções humanas, personificadas em personagens que habitam a mente da jovem Riley (Kensington Tallman). A sequela, realizada por Kelsey Mann e escrita por Meg LeFauve e Dave Holstein, expande ainda mais esta abordagem criativa, explorando novas nuances emocionais e os desafios da adolescência. Essencialmente, mantém a essência do primeiro filme, sobretudo no capítulo da emotividade, mas demonstra sempre uma enorme personalidade fílmica.
Desta forma, “Inside Out 2”, produzido pela Pixar Animation Studios, continua a jornada de Riley, agora uma adolescente, que enfrenta as complexidades emocionais típicas desta fase da vida. A adição de novas emoções ao elenco central, composto por Medo (Tony Hale), Tristeza (Phyllis Smith), Alegria (Amy Poehler), Raiva (Lewis Black) e Nojo (Liza Lapira), permite, sem dúvida, uma exploração mais rica e diversificada dos estados emocionais. Esta expansão temática é uma das maiores forças do filme, permitindo uma representação mais completa das experiências emocionais humanas. Além disso, a dinâmica entre as emoções e a forma como elas influenciam as decisões e comportamentos de Riley são abordadas com profundidade, proporcionando uma reflexão sobre a importância do equilíbrio emocional.

Efetivamente, uma das críticas ao primeiro filme foi a ausência de uma gama mais diversificada de emoções. Assim, “Inside Out 2” responde a essa crítica ao introduzir emoções como a Ansiedade (Maya Hawke), Inveja (Ayo Edebiri), Tédio (Adèle Exarchopoulos) e Vergonha (Paul Walter Hauser), que são particularmente relevantes na adolescência. Esta inclusão enriquece a narrativa e oferece ao público jovem uma maior identificação com as personagens e com as suas experiências. Além disso, a forma como o filme aborda questões como a ansiedade e a pressão social, comuns na vida adolescente, é feita com uma sensibilidade e autenticidade notáveis, promovendo uma maior empatia e compreensão. Deste ponto de vista, a obra está sublime.
Neste sentido, as personagens de “Inside Out 2” são desenvolvidas com mais profundidade em comparação com o filme original: as emoções ganham camadas adicionais, revelando as suas próprias inseguranças e os seus conflitos internos. Por exemplo, a personagem da Tristeza, que na primeira longa-metragem já se havia destacado pela sua importância na aceitação e no processamento das emoções negativas, aqui é explorada como uma figura essencial para o crescimento emocional e para a resiliência de Riley. A interação entre as emoções também evolui, mostrando uma colaboração mais harmoniosa e complexa, refletindo assim todo o amadurecimento da nossa protagonista. Neste capítulo, o filme é muito maduro e inteligente, pois transpõe fidedignamente a beleza e complexidade do que é ser Humano.
No que toca à qualidade da animação, “Inside Out 2” mantém o alto padrão da Pixar, com uma paleta de cores vibrante e com um design de personagens que continua a encantar. Deste modo, as representações visuais dos cenários internos da mente de Riley são criativas e detalhadas, proporcionando uma experiência imersiva para o espectador.
Decerto, os avanços tecnológicos permitiram uma animação ainda mais fluída e expressiva, que complementa a narrativa emocional do filme. Este aspeto é muito importante, porque uma das grandes valências do universo de “Inside Out” é, precisamente, a forma como consegue criar um ecossistema tão único e pessoal, no qual cada elemento tem a sua importância e valor, e para tal a qualidade da animação é imprescindível.

Com efeito, “Inside Out 2” não é apenas um entretenimento de alta qualidade; é também uma contribuição significativa para o discurso sobre saúde mental: ao trazer para primeiro plano discussões sobre emoções complexas e sobre o papel vital que todas elas desempenham na nossa vida, o filme promove uma maior consciencialização sobre a importância do bem-estar emocional. De facto, a abordagem acessível e sensível que desenvolve no que às questões de saúde mental diz respeito pode ajudar à desestigmatização destas conversas, especialmente entre os jovens. Deste ponto de vista, e não só, todo o filme é deveras edificante, sendo, também ele, exímio do ponto de vista humano e filosófico.
Apesar dos seus muitos méritos, “Inside Out 2” não está, naturalmente, isento de críticas: é possível que o espectador sinta que, apesar de tudo, a longa-metragem se apoia demasiado na fórmula do original, sem introduzir mudanças substanciais na estrutura narrativa. Além disso, a inclusão de novas emoções, embora positiva, pode parecer um pouco superficial em alguns momentos, pois nem todas têm o mesmo tempo de desenvolvimento e o mesmo destaque – ainda que na história haja o cuidado de realçar a importância de todas elas para alcançar a homeostasia e ataraxia de Riley.
No fundo, o argumento de “Inside Out 2” tem muito por base o coletivo e o trabalho de equipa, algo também patente no facto de Riley ser uma desportista (jogadora de hóquei), que a dado momento tem de perceber que só sendo fiel a si mesma é que conseguirá chegar exatamente onde deseja.
Assim, “Inside Out 2” é a continuação de uma viagem sublime por este universo fascinante: um universo maduro, que reconhece a importância das nossas memórias (boas e más) na construção da nossa identidade e autenticidade, sempre com um nível de humor elevado e criativo, assente no lado humano dos nossos protagonistas. O filme solidifica, portanto, a reputação da Pixar como líder na produção de animações que são ao mesmo tempo uma fonte fantástica de entretenimento e reflexão, uma consequência feliz de toda a sua essência inventiva. É, por isso, uma história que nos transmite grandes lições e realizações, sobre novas emoções e velhos desafios.
Por um cinema feliz.
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