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Porque A Arte Somos Nós

De forma a tirar maior partido da leitura, e tendo em conta o formato, dividimos “Putinquistão” por partes – tal como o autor Marcelo Pereira Rodrigues o fez em capítulos.

1.ª Parte

O ano era 2122 e vivíamos um paradoxo com quase uma extinção em massa, sendo algumas periferias do planeta preservadas e a observância de uma nova ordem mundial. Tudo ocorrera quando as duas maiores nações da Terra, no século anterior, resolveram responder agressões com agressões e ogivas nucleares foram despejadas em cidades da Europa e Estados Unidos; também Moscovo e Xangai e quando nos demos conta mais de seis bilhões de seres humanos haviam sido eliminados.

Do espaço, certamente um alienígena não mais se defrontaria com uma esfera azul, mas sim com um corpo celeste chamuscado e de coloração cinza. A verdade é que voltamos para o primitivismo dos tempos, e acerca de o Brasil ser solenemente conhecido como “o arraial do cu do mundo”, isso foi o que nos salvou, pelo menos em algumas partes do antigo país. Nas escolas os alunos aprendiam na cartilha impetrada por um ex-presidente russo, a maior potência mundial, o recém-criado Putinquistão, após ter se saído um pouco menos mal que as outrora nações ocidentais.

Para o nosso primitivismo, a cartilha que rezávamos era a crença absoluta nas “verdades” ditadas pelos mandatários mundiais. O senso comum via a liderança putinquistanesa como os grandes pais e mantenedores do planeta, embora soubéssemos que toda a comunicação e informação era controlada pela Putin Net e prometiam ao mundo as benesses de uma convivência mais harmoniosa. Satélites desta grande potência, a outrora nação próspera China, uma ilha nas Américas de nome Cuba e a Venezuela, assim como o Sudão.

Mas radiação não respeita fronteiras e foi com tristeza que observamos, ao longo dos tempos, milhares de Chernobyl ocorrendo ao mesmo tempo. Se as comunicações haviam sido padronizadas, um filósofo radicado no interior de Minas Gerais fez uma fuga interior, encerrando-se na sua biblioteca particular com quase mil títulos e viajava ali nas ideias de Sócrates, Montaigne, Kant, Nietzsche e Albert Camus, este último que vivera aflito com a apreensão de um mundo em ruínas. Se ele refletiu isso metaforicamente, o que diria ao saber que a raça humana não chegava agora a 500 milhões?

Como livros foram solenemente esnobados ao longo do último século, o facto de Luiz ter o meu acervo significava para os poderosos exatamente ter um monte de feno para cuidar de um cavalo no século anterior. Não se tratava de riqueza, a não ser que as folhas servissem para acender fogões a lenha. O século XXI ficou conhecido como a época das Fake News, do combate às ciências e ao pensamento do bem. Valia o adestramento tecnológico, onde pretensos homens máquinas de posse dos seus smartphones entendiam serem o centro do Universo e assim a coisa seguia.

Só quando a televisão sensacionalista divulgou as cenas catastróficas do armageddon é que paramos para refletir, mas aí já era tarde demais. As panes nas comunicações e transmissões fizeram o resto. A muito custo, quando soubemos do que havia ocorrido de facto, sentimos que éramos sobreviventes de uma tragédia anunciada.

O filósofo estava colhendo hortaliças quando uma aeronave pousou no quintal e desceram de lá dois senhores, a seguir a mulher piloto. Cumprimentaram-no e perguntaram se poderiam conversarem com ele. “Como não, já que vieram aqui?!” se dignou a responder. Apresentaram-se como senhores Hubert e Nakajima, sendo a piloto senhorita Flores. Reuniram-se para uma ceia de hortaliças com frangoporco desfiado, mais sumo de tangelimão, e o inusitado da visita foi questionado pelo pensador na hora da sobremesa. Foram direto ao ponto, enquanto a piloto brincava com um gato que atendia pelo nome de Protágoras.

O japonês tomou a palavra: “Senhor Luiz. Precisamos que faça uma viagem para nós. Precisamos aportar na Grécia do século V antes de Cristo.” A estupefação no rosto do intelectual dispensava qualquer entendimento, tipo “Por que eu?” Hubert, um australiano louro que media quase dois metros de altura, arrematou: “Como sabe, a ciência e a filosofia foram supostamente extintas e marginalizadas. Reunimo-nos agora em comunidades espalhadas pelo mundo e tentamos recriar o planeta para salvá-lo da hecatombe final. No século passado, quase sete bilhões de pessoas evaporaram do planeta e deves saber da séria afetação radioativa que impede a formação de fetos em diversas regiões e, se não tomarmos algumas providências, adeus Terra.”

Tudo isso era verdade. Luiz, com os seus bem vividos 60 anos, só não entendia o motivo de ser ele a ser convidado a viajar pelo tempo. Flores interveio, pois além de piloto era cientista também: “Como o senhor deve saber, o banco de dados foi drasticamente afetado mundo afora e conseguimos salvar muitos arquivos das maiores plataformas de busca do mundo, aí chegamos a ensaios, artigos e teses do senhor que nos chamaram bastante a atenção.

Deve saber que não foi muito popular à época, falava para poucos, assim como nós, pois nos transformamos em marginalizados, não numa celebridade influenciadora. Quando aceitou participar de uma experiência que o trouxe de 2025 até aqui, no teletransporte, tomou a pílula da adaptação, mas deve saber que sonha frequentemente que ainda está naqueles anos horrorosos. Agora a humanidade necessita da sua ajuda. Precisamos combater a tirania.

Luiz olhou para o bichano e se perguntou se estaria pronto a se despedir dele. Perguntou o que necessitaria de fazer na Grécia e qual era a missão específica. O australiano foi didático: “Deves ter percebido que todo o mal que nos acometeu foi devido à ausência de democracia. Vivemos atualmente marginalizados e com um déspota que mantêm a destruição do déspota anterior. A tirania rola solta e às custas da pobreza de quase 99% da população, a classe dirigente vive no bem bom. Esse cancro foi germinado no século XIX, realizado no século XX e no seguinte nem a quase destruição do planeta fez com que grupos radicais e antidemocráticos aderissem à necessidade da razão, conhecimento e ciência.

Investigamos a génese de tudo isso e é aí onde o senhor entra. Sabe as elucubrações metafísicas que escreveu sobre a natureza do Ser, as investigações sobre o que ensinaram Sócrates, Platão e Aristóteles? Pois bem, agora será egresso da Academia e tentará inserir passagens mais democráticas no famoso livro “A República“, de Platão.

Aquilo era uma viagem, nos dois sentidos, e o nosso pensador bem o sabia. Mas como seria possível inserir trechos que não faziam parte do contexto de Atenas? Pois, se “A República” não contemplava as mulheres e se o escravo era visto como um bem de consumo, onde sair com um a tiracolo significava exatamente um homem do início do século XXI conduzindo um Ferrari, o que poderia ser feito? E se a filosofia era a busca da verdade, aquela missão seria forjada na mentira. E ele macularia a obra de um grande clássico. Não sem consequências.

Fez ver essas preocupações ao trio, que o convenceram da necessidade de uma intervenção. Afinal, de que serviria esta grande obra se a humanidade fosse extinta, e caminhávamos céleres para isso? Ressalvas feitas, ficou entendido que Luiz aceitaria a missão. Hubert prontificou-se a instalar-lhe o chip, onde aportaria em Atenas com o modus operandi de um grego à época, a missão seria de 68 dias, 13 horas, 46 minutos e 22 segundos. Tempo ao qual ficaria alienado da sua existência, e Flores, apenas ela, conduziria a espaçonave temporal. Na ida e na volta. Foi quando Luiz se perguntou se já viajara a épocas futuras, pois desconfiava que muito provavelmente sim.

Despediu-se do gato e dos frangoporcos, passou as vistas pela sua biblioteca, marcou a passagem na interrupção da leitura de “Ensaios“, de Montaigne, e preparou-se para a viagem. Dias depois, adentrou a cápsula do tempo numa base na Argentina (outrora Argentina) e a senhorita Flores o induziu ao sono profundo.

Acordou em Atenas num céu abafado e reparou nas vestimentas de túnicas dos demais. Sabia-se moderno, mas, ao se misturar à população não foi notado e estranhou quando se fitou numa tina de água. Sim, ele estava também de túnica e possuía uma barba. Respondeu a Teeteto que sim, ele iria à reunião do dia seguinte na Academia. Estranhou um pouco a própria voz que falava fluentemente o grego.

Não percam a segunda parte, porque nós também não!

Marcelo Pereira Rodrigues

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