OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Andreia se dirige a uma igreja evangélica. Anseia por respostas. Nada de questionamentos e de disciplina que suscite mais dúvidas que certezas. A conversa com o escritor Gregório fora improdutiva. Ele não conseguia responder nada. Sempre saía com uma evasiva. Segundo ele, a filosofia buscava mais perguntas que respostas. Mas perguntas, Andreia já tinha muitas. A principal delas era: matara a sua mãe de desgosto? Como pode ter não se reconciliado com a mãe antes do seu falecimento? Está envolta nessas questões quando observa, do banco da igreja de bairro, pessoas levantando as carteiras de trabalho e de identidade para receberem as bênçãos dos pastores.

Fora seduzida por alguns membros dessa igreja quando esses foram ao hospital onde estava a sua mãe. Nos dias em que dividiu turno, não viu padre, nem espíritas, nem aqueles engravatados e bem vestidas moças que pareciam norte-americanas da igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias e nenhum membro de outra religião que não fosse da linha Universal do Reino de Deus. Simpatizara. Apenas uma vez viu um pastor, nos outros eram membros da igreja que só falavam bem. Inclusive uma que disse ter se convertido a partir de um conflito com seu esposo por conta de uma briga que chegou às vias de fatco, elencando o desenrolar dos factos dessa maneira:

— Meu marido estava desempregado. Não havia encontrado Deus ainda. Chegou em casa e viu a conta de luz, alta, segundo ele. Também pudera! Os meninos ficavam no videogame o dia inteiro. Abre e fecha porta de geladeira. Ferro de passar roupa. Chuveiro para quatro ou cinco banhos. A coisa saiu de controle. Ele se exasperou: me bateu e na hora até entendi que o coitado estava stressado. Perdeu a mão, me bateu muito. Na frente dos filhos, a coisa toda foi um horror. Meu maiorzinho tentou intervir, apanhou também, vizinhos acudiram, enfim, a coisa toda foi um horror. A coisa saiu de controle. Saí a esmo, sem direção. Fui andando e chorando e chorando e imaginando o que poderia fazer para ajudar meu marido a pagar as contas. Fui andando até ser amparada por um pastor, em porta de igreja, que sugeriu que eu entrasse e eu entrei. Me fez sentar, trouxe água com açúcar e me deu conforto. Fiquei lá umas duas horas. Pacientemente, o pastor indicou que me acompanharia de volta à minha casa, tentei fazê-lo mudar de ideia, mas ele estava convicto. Tomou a conta de luz das minhas mãos e, no caminho, fez questão de quitá-la. Não me fiz de caprichosa, aprendi com minha mãe que “quem precisa faz cara de quem padece”. Então ele chegou em casa, encontrou meu esposo, António é o nome dele, com as mãos na cabeça, visivelmente arrependido. A princípio, meu esposo estranhou aquele homem engravatado (pensou ser um advogado), mas quando soube de sua real identidade, fez-se de humilde. Ofereceu água. Conversamos. Meus filhos e nora também estavam presentes. O pastor foi claro: disse que nossa família estava precisando fazer um pacto com Jesus, que não havia Deus na nossa casa. Elencou todas as nossas falhas e fomos percebendo isso, ele falava tão bem! Não demorou uma semana e já frequentávamos todos a igreja, as coisas passaram a dar certo, meu esposo, meus dois filhos e até eu arrumei um emprego. Tudo foi por causa do pastor e da igreja, entende? Hoje, damos o dízimo, pois está na Bíblia. Você precisa de ver, é uma coisa estranha: quando a gente dá a oferenda, parece que o dinheiro nosso se multiplica. É o que sempre digo: coisas de Deus! Coisas de Deus!

Respostas simples. Direcionamentos de vidas simples. 2 + 2 = 4. Era isso que Andreia necessitava. Mais do que suscitar questionamentos. Bem fez ela que não comprou o livro do escritor. Com 40 reais poderia fazer outras coisas, doaria de bom grado para a igreja. Estava nesse grau de digressão quando foi tocada no ombro. O pastor auxiliar certificou-se de que era a primeira vez que ela estava ali, deu as boas vindas e disse que, após o culto, abençoaria os novos fieis. Que era para ela ir à frente do palco para receber as bênçãos. Assim se deu. Cerca de vinte pessoas se dirigiram ao palco. O pastor estava acima e, com muito custo, colocava a palma da mão direita na cabeça de sua ovelha, após essa relatar as suas dores e aflições. E aflições não faltavam: desemprego, falência, casos de doenças, mortes, parentes assassinos, traições conjugais, brigas e desentendimentos vários, insónia, alcoolismo, depressão e, nesse “calvário de lágrimas”, foi a vez de Andreia se apresentar, como última ovelha. O pastor ouviu:

— Pastor! Minha mãe morreu e eu não tive tempo de fazer as pazes com ela. Sofro até hoje com isso.

— Minha filha! Em nome de Jesus, ele te dará conforto. Sua vinda aqui é sinal de humildade. Você deve frequentar essa igreja para conseguir a paz e a tranquilidade necessária – e em poucas palavras, com oratória e retórica impecáveis, o pastor fez uma lavagem cerebral tão bem feita que, se pedisse a ovelha (melhor dizendo, Andreia) para que afivelasse um cinto de explosivos na cintura e se detonasse no aeroporto, ela o faria.

Sábio que era, o pastor fez ver a Andreia que “caminhar é que faz o caminho”, que a presença de Andreia ali pelo menos duas vezes por semana, era importantíssima. Andreia entendeu e, sentindo-se um pouco segura, pensou que enfim eliminaria aquela mania chata que tinha de ficar arrancando casquinhas do alto da cabeça. Preocupada, viu que na região já não nascia mais cabelos. Depois de muito tempo, encontrou conforto. Por favor, não julguem os apressadinhos que nossa ovelha estivesse sendo tosquiada. Também esse facto curioso ocorreu com ela: à medida que o tempo ia passando, sentia-se recompensada por doar à igreja um automóvel, um lote e um apartamento. Não sabia como, mas as coisas foram chegando aos eixos e, quando o pastor encaminhou um enlace matrimonial entre ela e um empresário que quase falira (e claro, que se recuperara após a sua conversão), bem, a vida de Andreia encontrou um rumo. Feliz, percebeu que parara a mania de coçar a cabeça. Arrumava-se num salão e a cabeleireira, quase tão acostumada à pele de plástico no alto da cabeça da cliente, surpreendeu-se ao ver que o local estava devidamente cicatrizado e, no rosto, Andreia aparentava felicidade.

Quem disse que Jesus não cura?

Hamilton estava esperançoso. Dois triplos e quatro duplos. Cercaria os 14 pontos da Loteca e apostaria nas zebras certas. Seria dessa vez que ganharia o seu milhão. Como técnico estudando as possibilidades de seu time, ligou o computador para buscar, em sites especializados em futebol e jornais online do País todo, possíveis escalações, que time estava desfalcado e toda sorte de retrospecto e de possibilidades. Sábado de manhã para ele era um ritual. Anotava os jogos no volante. Os de sábado marcava com caneta vermelha. Os de domingo marcava com caneta azul. E ia estudando todas as possibilidades. Por mais que fosse cercar aquele teste, a dificuldade se apresentava. Tinha que apostar, por mais que a lógica indicasse alguns favoritismos. Acabrunhado, sorrateiro e feliz, quando se definia por alguma coluna sorria. Terminou as marcações, sopesou mais uma vez o volante e saiu para o ritual da lotérica, do bilhete impresso e do frio na barriga. Entrou no ónibus e dirigiu-se à porta da esperança.

Vazio. Vazio. Sábado vazio. Uma solidão aterradora invade o quarto e o espírito de Carla. Plenitude. Sente uma vontade imensa de não sair da cama, seus músculos estão inertes. Espreguiça-se forçosamente e sente o sentimento de vazio, desamparo. Inerte. Vazio. Como suportar o peso dos anos? Como chegar à idade de Greg? 40? 42? Não pretende mais ir ao cinema. Não irá impor sua presença a Greg. Gostava dele! Ele não iria se constranger mais com ela. Decidira-se. De inopino. Súbita e decidida, abriu a janela, verificou suas vestes e sorriu, acreditando que não mais teria que se arrumar. Não desejaria constranger a mãe, que não estava ali naquele momento, quando a empregada fosse alertada certamente algum vizinho de apartamento iria já, depois da estupefacção, dignamente colocar um lençol sobre o corpo desconjuntado. Sentiu uma lufada de vento adentrando o quinto andar. Lembrou-se da música da Legião Urbana: “Ela se jogou da janela do quinto andar / nada fácil de entender / dorme agora / é só o vento lá fora“. Ter paciência. Precisa se despedir. Simples assim: pega um batom, rabisca no espelho da penteadeira uma frase simples: “Mãe, eu sempre te amei e espero que não se julgue por nada”. Pega “Assim Falava Zaratustra“, escreve um bilhete apressadamente: “Que seja entregue a Gregório Mendes, meu estimado professor de Literatura e Redação”. Sente frio devido ao vento. Suspira. Corre as vistas pelo quarto. Sem mais dramas. Sem mais arrependimentos. Preencherá o vazio com o vazio. Debruça-se sobre o parapeito. Calcula a queda e o cimento firme lá embaixo. Lei da gravidade. Um pensamento de Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza do Ser“, vem à cabeça: “Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados”. Carla olha para baixo. Vertigem. Mas ela não espera se defender. Estranhamente, não sente medo. Um vizinho a cumprimenta de longe. “Maldito pedófilo, não sabe o infeliz juiz que já o vi olhando para mim com olhares libidinosos”. Santa ironia, se o ofício de um juiz é julgar, que tal se ele julgasse um salto? Carla se lança, verdadeiramente feliz pela despedida subtil. O impacto desarticula os seus ossos e corre do canto da boca, um filete de sangue. Vermelho, cinza escuro do chão e enfim, o silêncio…

“Assim Falava Zaratustra”
“A Insustentável Leveza do Ser”

Gregório está negociando as consignações de seu livro na livraria. O funcionário do estabelecimento não esconde a má vontade. A muito custo, pega dois exemplares e fica de fazer o devido acerto tão logo venda os exemplares, sugerindo reposição. Gregório saca dois exemplares da pasta, o que estava na mão do funcionário seria autografado como presente. Despedem-se e Greg está livre para curtir o sábado, anseia pela presença de Carla. Pede um café, verifica o relógio de cinco em cinco minutos e quando chegam duas horas e quinze, nada de Carla. Estranha o facto. Verifica o relógio novamente. Nada. Liga para a aluna: caixa postal. Perto do horário da sessão, adquire o ingresso para o filme dinamarquês, compra um saco de pipocas e dirige-se à sala. Mergulhar no filme, para esquecer aquele bolo. “Será que ocorreu alguma coisa?”.

Deixemos Greg com suas particularidades e vamos encontrá-lo na segunda, chegando animado para a aula. No intervalo, queria conversar com Carla sobre o filme. Coincidentemente, o primeiro horário de segunda era na sala dela. Subindo as escadas, ouve murmurinhos, confidências e vez ou outra comentários entrecortados de uma moça que havia cometido suicídio. Como não é da sua conta, segue. Vai à sala dos professores e sente um clima tenso, pesado. Uma colega vem falar com ele:

— Gregório, espero que seja forte! Já soube da notícia?

As pernas de Gregório estremecem. Fica branco como neve. Balbucia, gaguejando:

— Não. O que aconteceu?

— Houve um acidente com Carla. Do segundo ano A.

— Acidente? Como ela está?

— Gregório, sente-se, por favor! – o professor se deixa guiar pelos braços da amiga, e do auxílio de mais um colega. – infelizmente, Carla não sobreviveu à queda.

— Queda?!

E narraram o facto. “Estranho acidente!”. Gregório perde o chão, seu hálito adquire um gosto azedo, acre. Náusea. Sente náusea. Medo. Sente medo. Falta. Sente falta. Tanta falta! Muita falta! A colega indica:

— A diretora quer falar com você.

— Sobre?

— Sobre Carla. Pode ser?

E de forma autómata, Gregório se deixa conduzir. Passa pela sala, mas sem entrar, e nem percebe se está havendo aula ou não. Só sente o tumulto de alunos indo e vindo, “acidente” pode sugerir continuidade da vida e do que sabe é que buscaram um substituto para a sua primeira aula. E como está inconsolável, é recebido com água com açúcar na sala da diretora. Olha para o lado. Lá está o funcionário que presenciara o beijo entre ambos. Gregório bebe a água, se confunde, chora, balbucia, tenta se recompor e recebe lenços de papel.

— Gregório – inicia a diretora – sabemos do seu envolvimento com Carla e queremos colocar as coisas no eixo.

— É justo – murmura Gregório.

— Qual era o seu grau de envolvimento com Carla? Desculpe-me ser invasiva.

— De aluna-professor. Mas eu a admirava muito. Diferenciada. Como se deu a queda?

— Como somos adultos, vou te dizer: parece que ela se jogou. Suicídio.

— Entendi.

— Desculpe, professor – interrompeu o funcionário – tive que contar à direção que o vi outro dia beijando a menina.

— Por isso te perguntei o seu grau de envolvimento com ela – tornou a diretora.

— Vocês estão certos! – a muito custo Gregório concatenava as ideias. Mas não iria macular a memória de Carla, sua amiga fiel. Não falaria nunca das ideias dela sobre suicídio. Quando ele mesmo acreditava que tudo não passasse de fase adolescente. Mas o facto é que havia beijado Carla na boca, isso era facto! Sorriu com a lembrança, daquele desconcerto que havia marcado a sua vida e das consequências que isso podia ocasionar. Beijara na boca uma menina de 15 anos! – realmente, Vicente viu o facto. Aconteceu mesmo. Mas foi não premeditado. Consequência de um diálogo bobo, meio adolescente e, Vicente – apontando para ele – você fez bem em contar.

— Espero que compreenda a nossa situação – interveio a diretora.

O telefone tocou. Foi totalmente ignorado. Para compor mais o quadro da tragicidade daquela reunião, a diretora perguntou ao funcionário se a porta estava trancada. Vicente disse que sim.

— Gregório, você é um dos nossos melhores professores! Espero que compreenda. Estamos preocupadas com o desenrolar dos acontecimentos – a diretora continuou.

Vazio. Vazio. Vazio. Por mais que se esforçasse, Gregório não conseguia mais prestar atenção em nada. Nem nas respostas advindas de suas perguntas:

— Como foi o enterro? Onde ela foi enterrada? Quando foi? Já foi? Será quando?

Vicente e a diretora perceberam o grau de confusão de Gregório. Dispensaram-no. Gregório pediu para ficar ali um momento, e o pedido foi tão contundente que a diretora consentiu, saindo e deixando-o a sós, ele e a sua náusea. Abaixou a cabeça. Colocou as mãos na cabeça e chorou copiosamente.

Jurema. Não mais Brigitte. Agora desejava ser Jurema. Para voltar a um tempo. Um tempo atrás. Conversava com o ex-marido, misto de atónito, surpreso e puto. “Porquê? Por que nossa filhinha fez isso? E ela não me ligava mais, nem atendia as minhas ligações. Aposto que você fazia a minha caveira com ela!”. Nesse grau de discussão, e Jurema perdida, focada na sua dor e angústia. O velório no dia anterior foi nas primeiras horas, coisa reservada à família, discreta e sem maiores especulações. O pai chegara no sábado mesmo. Agora Jurema, que havia dispensado a empregada naquele dia, não decidira retornar ao fatídico quarto. Silêncios. Reconciliações após agressões verbais mútuas entre pai e mãe. Resolveu voltar ao quarto. Apontou o espelho para um catatónico pai. “Veja! Não estou te julgando, nem me defendendo apenas, mas veja o que a nossa filhinha escreveu!”. Ambrósio leu e se certificou. Expiaram culpas, ressentimentos e abraçaram-se. Choraram juntos.

Pouco depois do término das aulas no turno da manhã, a diretora retorna à sala. Gregório continua cabisbaixo, um pouco disperso e remexendo canetas no porta-caneta da mesa. A diretora retoma o diálogo:

— Gregório! Preciso te fazer uma pergunta.

— Não fiz sexo com Carla – antevem a resposta, pois entendera o motivo daquilo tudo.

— Tá bom! Mas devemos nos precaver. Desculpe-me a intromissão. Não é curiosidade apenas. É previdência. A família da garota é uma das mais conceituadas da cidade. Quero me precaver, pois já corre um zum zum zum sobre o seu envolvimento com ela.

— Eu me envolvi com ela. Isso é facto! Errei ao beijá-la.

— E por que você a beijou?

— Preciso me ater a esses detalhes. É sério, não posso dizer o motivo de a ter beijado. Espero que não se importe.

— Desculpe-me. Mas eu me importo sim.

— Reservo-me ao direito de ficar calado.

— Gregório Mendes, seja razoável!

— Estou sendo, acredite! Esse meu segredo com ela foi a única coisa verdadeira da minha vida nesses últimos tempos. Não fiz sexo com ela. Posso lhe garantir.

A diretora dispensou o professor, afirmando que daria uma semana de licença para ele. Gregório sugeriu o contrário:

— Se não se importa, quero lecionar amanhã mesmo. Não é fugindo das coisas que irei resolvê-las. Por favor!

— Não sei ao certo.

— Dispense-me, me demita, se for o caso. Mas não me dê licença. Não mereço isso. Não fiz nada demais para merecer isso. Preciso lecionar!

— Tá bom! Gregório, uma última pergunta: chegou a conhecer a mãe de Carla?

— Sim, ela foi ao lançamento do meu livro. – negligenciou a informação acerca do convite para o jantar. Tinha que guardar discrição acerca do seu envolvimento com a sua aluna nietzschiana a qualquer custo. Uma mera questão de privacidade.

— E ela chegou a estender um contato contigo?

— Nada além de ter sido apresentado como o professor da filha dela.

— Nada mais?

— Nada.

— Até amanhã, Gregório! Descanse.

Vicente o aguardava na saída, para esclarecer os motivos de ter ido falar à chefe. Gregório entendeu e, para contemporizar, afirmou que no lugar dele teria feito a mesma coisa. Falaram de generalidades, saíram juntos e Gregório se perdeu na multidão belorizontina, com todo o seu alarido de selva. Meio que dopado, enfurnou-se no seu apartamento e, sem ânimo para preparar as aulas, ligou o computador e escreveu um artigo:

Suicídios entre adolescentes!

Gregório Mendes (GM)

Foi no começo do livro “O Mito de Sísifo” que Albert Camus sentenciou: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. Sentido completo ou falta de sentido na decisão de um adolescente se matar? Quem irá esclarecer? Tema difícil, controverso, angustiante. O gesto derradeiro que ocasiona reflexões entre parentes, curiosidade mórbida e especulações entre conhecidos, perplexidade geral e um sentimento de vazio oriundo disso tudo.

Em geral, o adolescente é o ser que está saindo da infância e adentrando a idade adulta. Descobrindo a sua sexualidade, pertencendo à sua tribo e até a tribo dos “sem tribo”, aflora em seus corpos hormônios e atitudes. Ser pensante com um leque de opções, busca mudar o mundo, mas tem, paradoxalmente, dificuldades para limpar seu guarda-roupa. Já conheci adolescentes super-racionais que citavam Nietzsche muito melhor do que eu mesmo, formado na área. Antissociais e arredios, desconfiados de tudo e de todos, incompreendidos por muitos, esses seres alienígenas nos ensinam, em muitos casos, as diferenças e oportunidades de observarem as coisas sob outra ótica. Conversar com adolescentes é dar saltos sobre nossas vãs convicções, aprender, dialogar. Certamente algum desses alienígenas irá derrubar este meu artigo com uma frase corrosiva: “Esse GM tá por fora!”. E talvez estejam certos!

Certa vez, fui contratado por uma escola para dar uma palestra para adolescentes. De peito e coração abertos, e sem fazer proselitismo, desabafei sobre a chatice que era ser dominado por adultos que, como nós todos ali naquele recinto (pais, eu próprio, professores e direção escolar) impunham códigos de comportamento, conduta, etc. Do mesmo modo que fui aplaudido de pé pelos jovens, sabia que havia cavado minha sepultura para palestras futuras. Pois nós, adultos, sabemos o código do disfarce, das artimanhas, das conveniências e dos sorrisos falsos.

Quando um adolescente decide dar cabo de sua vida, torna-se desalentador e fica a dúvida se foi suicídio ou assassinato disfarçado por parte de nós, adultos. Não pretendo julgar A nem B, mas a minha proposição exposta no título destas linhas é para pensarmos além e investigarmos as causas de abandonos tão notórios. Violência familiar, tanto física quanto psíquica; falta de perspectivas para vislumbramos um mundo melhor (na palestra acima citada chamei a atenção dos jovens para não se preocuparem apenas com o “mercado de trabalho”, ao qual defini peremptoriamente de “marcado de trabalho”) e muitas outras coisas.

No processo de conhecer a nós mesmos, e nessa caminhada que não cessa nunca, talvez não tenhamos a resposta que alguns adolescentes corajosos (mas não admiro essa coragem) tenham: a de que o vislumbre da vida é completamente absurda e sem sentido. Aos adultos, tomemos a nossa parcela de responsabilidade nesse processo. Aos adolescentes, a expectativa de que descubram razões (eu particularmente encontrei razão na filosofia, na arte, na literatura), pois podem ter certeza: somos todos dementes. A diferença está em que alguns sabem disso. E contrapondo idades físicas e comportamentais, o cineasta Woody Allen, só para citar um exemplo, continua a ser um adolescente.  Com 80 anos, mas adolescente!

Marcelo Pereira Rodrigues

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