OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Carla leu o livro todo de Gregório até às 4 da manhã. Refletiu muito sobre o artigo “Suicídio. Alternativa?”

No ensaio “O Absurdo e o Suicídio”, o franco argelino Albert Camus (1913-1960) escreve sobre o suicídio. Embora refutasse o rótulo de filósofo existencialista (considerava um escritor do absurdo, apenas), Camus foi verdadeiramente um psicólogo da alma, por abordar a existência humana de forma tão nua e crua. Nisso assemelhava-se, em teor, a outro existencialista, Jean-Paul Sartre (1905-1980), para o qual a existência precedia a essência.

Abordo aqui, no conto “O Beijo”, a questão do suicídio, pois ele é prática comum no nosso dia-a-dia. Já é sabido que a depressão é a doença do século XXI; casando-se uma coisa à outra, é notória a relação intrínseca, ainda mais quando as utopias deixaram-nos órfãos e o consumismo desenfreado (não apenas nos bens de consumo em si, mas nos próprios relacionamentos interpessoais, ou seja, nesse mundo de espiritualidade vazia, onde o que a maioria das pessoas acredita que acreditar não é algo para se acreditar de verdade). S-Sobra apenas o indivíduo e o seu próprio espelho: “Quem sou eu?”; “Qual o meu papel existencial no mundo?”; “Qual o significado de minhas relações afetivas e profissionais?”. E somam-se perguntas que, se o indivíduo for corajoso a ponto de fazê-las, poderá deixá-lo numa encruzilhada existencial.

Por convenção e mesmo comodismo, muitas famílias escamoteiam o motivo da partida de um ente querido. E até fazem bem, pois a privacidade é algo que deve existir no seio familiar. Por ser considerado tabu, o suicídio é aventado apenas quando o gesto é dramático demais. Agora, convenhamos: se o indivíduo simplesmente abdica de um tratamento quimioterápico, recusa-se a tomar outros tipos de medicamentos e ignora qualquer alternativa de mudança, não estará fazendo uma escolha consciente? Óbvio que sim.

Finalizando, sempre brinco e nisso pareço concordar com Camus: é um chavão falarmos que, se um indivíduo optou pelo suicídio, é porque não encontrava mais significado e sentido para sua vida. Ledo engano: o ato de se matar é oriundo da compreensão total do que significa a vida. É triste falar assim, mas a alternativa de se significar vida e nada é bem provável. Com este texto aludo à necessidade de pensarmos mais sobre uma ocorrência tão corriqueira no nosso quotidiano. Sem querer me rotular também, meus pontos de vista são extremamente existenciais: penso o mundo no aqui e agora (e para tanto é preciso refutar qualquer metafísica barata e crença vazia) e a proximidade da morte é algo que me faz exercer o direito à vida o tempo todo. A vida não é um ensaio de um grande teatro (renego qualquer ideia de pós-morte), mas, antes, o próprio teatro: por vezes cómico, outras vezes trágico, mas extremamente divertido. Aos corajosos, indico os livros de Albert Camus: todos eles, pela excelência de suas construções literárias e de vida. São imperdíveis as obras “O Estrangeiro”, “O Mito de Sísifo”, “A Peste”, “Núpcias”, “O Verão”, “O Homem Revoltado”, “A Queda”, “O Primeiro Homem” dentre tantas.

“A Peste”, Albert Camus (1947)
“O Mito de Sísifo”, Albert Camus (1942)

Na manhã seguinte, Gregório chegou ao colégio para lecionar três aulas de Redação. Antes do segundo horário, foi procurado por Carla, que queria conversar um pouco. Marcaram de se ver no intervalo. Gregório só passou na sala dos professores, bebeu uma xícara de café enquanto os seus colegas se desculpavam pela ausência no evento. Motivos não faltavam: a forte chuva (“Teve lançamento?”, uma questionou), febre do filhinho, visita de parente, esquecimento etc. Gregório afirmou que estava vendendo o livro, ao que todos saíram pela tangente. Mesmo aqueles que postavam que leitura era importante para a nossa vida. Mas, ao que parecia, os livros do colega professor não eram. Despediu-se e foi encontrar Carla, que parecia ansiosa. Cumprimentaram-se e Gregório indicou um banco para se sentarem, no tumulto do vaivém de alunos. Carla começou:

— Li o seu livro ontem mesmo. Você tem discussões muito boas. Gostei do artigo sobre adolescentes incompreendidos. Você foi bem feliz na análise.

— Que bom que gostou!

— Não é Nietzsche, mas mesmo assim você propôs algo novo. Ousou.

— Que bom! – Gregório sorriu e sentiu-se recompensado pela publicação.

— Não que eu seja adolescente. Você me entende, né?

— Sim, entendo. É claro.

— Há algo que eu gostaria de te falar. Não sei se devo – abaixou a cabeça e timidamente tornou –, é sobre o suicídio que você relatou. Tenho tido algumas crises de relacionamento e não foi numa noite apenas em que pensei em tirar minha própria vida, foi em várias. Não quero conselhos de auto-ajuda, sou forte para aguentar o tranco, mas me responda: Como é ter a sua idade? Como foi para você ter feito a travessia? Dúvidas? Medo? Como você consegue suportar tudo isso?

Gregório sentiu vontade de abraçá-la, mas não seria adequado. Mesmo surpreso, fez uma cara aparentando normalidade e tocou-a apenas no braço, para que ela voltasse a olhá-lo:

— Carla, por Deus! Você é uma aluna brilhante. Uma leitora de Nietzsche como poucos que se formaram na área. Uma garota bonita! Que vazio é esse?

— Vazio. Vazio. Só sinto o vazio.

— Algum trauma? – desculpe-me perguntar.

Carla olhou para seu interlocutor e continuou:

— Sofro a concorrência de uma mãe estúpida. Perdoe-me falar assim, não a odeio, só a acho estúpida. Invade o meu guarda-roupa e insiste em usar peças minhas. Doa algumas roupas minhas para brechós, cismou de despachar o meu All Star só pelo fato de ele estar sujo. Fica na Internet se fazendo de mocinha e disfarça o peso da idade com plásticas, creme anti-rugas e outras merdas. Vive para viajar ao exterior, à base de city tour apenas, visita as mesmas merdas de sempre, na semana passada me contou que em Buenos Aires visitou o túmulo da Eva Perón, o Café Tortoni, o El Caminito, a Casa Rosada e Puerto Madero. Nada que fuja do script. Não andou a pé em nenhum momento. É tanta futilidade que chega a me dar asco.

O assunto era sério, mas Gregório sentiu vontade de rir. Controlou-se. Lembrou que havia escrito artigos e mais artigos sobre a superficialidade da classe média. Argumentou:

— Carla, se me permite… e o seu pai?

— Quem consegue conviver com uma mulher estúpida assim? O coitado pediu a separação. Isso há uns oito anos. Vive em São Paulo e trabalha como engenheiro lá.

— Algum contato com ele?

— Pouco, ele me procura na data do meu aniversário e eu ligo para ele no Dia dos Pais. Muito formal, diga-se de passagem. Mas nos amamos, sinto que nos amamos, talvez a distância ajude nisso.

— Tá! E por que buscar preencher o vazio vislumbrando apenas essas relações familiares? Você já me disse que é filha única…

— É que tenho dificuldades de me enturmar. Sou anti-social, meio como Nietzsche. Tentei ter amigas da minha classe e idade, mas é tudo a mesma merda de sempre. Quando tive o desprazer de visitar algumas casas delas, vi a mesma pose, falsidade e gente fútil. Tá tudo uma merda.

— E garotos? Namorado?

— Não.

— Namorada? – troçou.

— Não! – ela riu e Gregório percebeu que pelo menos havia suavizado a conversa.

— Olha que a Márcia, aquela feminista que ontem foi ao evento, ficou de olho em você…

— Para Gregório! Vamos falar sério, por favor!

— De acordo. Continue.

— Não é te pedir conselho. Juro. Mas como é ter a sua idade? Como passou e chegou até aqui? Sente-se frustrado? Incompreendido? Puto?

Gregório refletiu e sentiu também um vazio de escamoteamentos que havia feito através dos anos. Lembrou-se do filme “Beleza Americana” e do personagem de 42 anos vivido por Kevin Spacey. Resolveu indicar o filme como forma de alegoria. Carla perguntou se era fácil de achar; ele respondeu que sim e sentiu-se constrangido pelo fato de não ter refletido verdadeiramente sobre a sua vida nesses 40 anos. Mas não queria pesar mais o ambiente; a suicida em potencial ali não era ele e aos poucos se sentiu responsável por ao menos passar algumas dicas e sugestões para dissuadi-la desse intento. Carla parecia ter acossado o professor e tornou:

— Sente-se frustrado? Puto da vida?

— Claro que sim. Essa carência pertence ao ser humano. Não me debruço muito sobre as minhas próprias coisas, por vezes me alieno. Normal, acho eu.

— Você caiu em contradição. – sacou o “Provocações Filosóficas De Um Pensador Atualizado Com As Coisas Do Mundo” da bolsa e balançou-o – continuando –: aqui você parece ter as respostas certas para tudo e para as pessoas. Sei que não quis escrever essa porcaria de auto-ajuda, mas me pareceu seguro e direto nas questões.

Gregório tentou retomar o fio da meada; foi interrompido pelo sinal de retorno à sala. Não ele, que estava livre, mas Carla, que não parecia resignada a largar o osso. Gregório enfrentou a situação: estimularia a aluna a matar a aula, pelo menos seria melhor que matar a si mesma. Respondeu:

— Carla, são questões complicadas. Para todos nós. Temos os nossos próprios demónios para domá-los e você sabe muito bem disso. Nietzsche, por exemplo, era um escritor brilhante, metafórico, iluminado, sagaz, duro, mas era um fiasco nas relações amorosas e pessoais. Você sabe disso.

Uma pessoa da direção do colégio apontou o relógio para ambos, Gregório interveio e afirmou que estavam conversando sobre a matéria e que se responsabilizava pela ausência dela na aula a seguir. A funcionária, meio constrangida, se desculpou. Aos poucos, reinou o silêncio e Carla tornou:

— Sim, você falou bem. Nietzsche era mesmo o cara! Contradições. É o que você está falando.

— Sim, é isso.

— Mas aí é que está. No meu caso. A questão que se coloca é a seguinte: o que faço para preencher o vazio que existe em mim? Sabe, Gregório, é uma angústia que chega a doer o peito, é uma sensação muito ruim.

— Entregue-se a uma causa, sei lá.

— Quer que eu seja uma ativista lésbica como a Márcia, ou uma ativista como a moça de ontem defensora da causa dos animais? Como era mesmo o nome dela?

— Juliana.

— Juliana. Isso. Quer que eu me entregue a uma causa? Indica-me alguma?

Gregório sabia o quanto era complicado entender a cabeça de adolescente, embora Carla não fizesse o perfil típico. Mostrou-se um pouco impaciente e nervoso, tentou disfarçar e respondeu:

— Porra Carla! Desculpe-me o porra, mas Carla, matar-se não é sinal de nada. É o vazio. Aí, sim, será o nada. O nada eterno. O ausentar-se da vida e das possibilidades. Você não subirá a montanha indicada pelo Zaratustra. Não fará o seu caminho. Desculpe-me te dizer, é uma puta covardia. Respeito as suas vontades. Menos essa. Cara, matar-se não vai resolver porra nenhuma – segurou o braço da aluna e, sem querer, beliscou-a.

Carla sentiu. Olhou para ele e respondeu:

— Sei que estou tomando o seu tempo. Pode deixar. Não irei me matar. Pelo menos até assistir ao filme que me indicou. – sorriu e abaixou novamente os olhos.

— Não está tomando o meu tempo. Gosto de conversar com pessoas que me desafiam.

— Gosta mesmo?

— Acho que gosto – soltou uma gargalhada.

Ambos riram. Carla perguntou:

— Alguém já te chamou de Greg?

— Que me lembre, não.

— Posso passar a te chamar de Greg?

— Sim. Pode.

— Vai querer conversar comigo agora, sabendo que eu sou uma suicida em potencial?

— Você não é uma suicida. Te respeito e pode ter certeza de que respeitarei suas decisões, mas isso não. Pelo menos não antes de ler, assistir e comentar algumas obras que pretendo te passar. Jura? – tentou ser jovial.

— Juro. Mas não quero que se sinta responsável por mim. Preciso apenas do seu intelecto. Preciso que se descubra como homem e me responda um dia o que fez nesses últimos vinte e cinco anos. Cara, há um abismo dentro de você.

— Você acha?

— Sim, Greg, eu acho. Você é muito formal, quer distância, exige espaço. Desculpe-me insistir, mas você é muito inteligente para precisar de uma psicóloga ou alguns desses tipinhos profissionais que vão ao telejornal da hora do almoço dar dicas idiotas aos telespectadores. Vou te propor um desafio. Topa?

“Essa era boa. Estou sendo desafiado por uma suicida em potencial, embora eu não acredite nisso, e o fato é que parece ser eu que estou sendo ajudado nessa conversa. Lembro-me agora do livro “Quando Nietzsche Chorou“. De repente não me lembro dessa minha travessia e nos últimos anos tenho me esquecido de fatos determinantes na minha existência”.

— Topo.

— Quero que pratique o “Conhece-te a ti mesmo”. Você me auxiliará indicando-me obras e eu te auxiliarei na busca pelas suas próprias respostas. Mas você não precisa me dizer nada, não tenho curiosidade mórbida, converse comigo apenas quando tiver vontade.

— Tá! Pode ser.

— Como não desejo estender laços e nem pontes, quero te dizer que situaremos nossa relação de cumplicidade sem exigências tolas. Quando um quiser, que procure o outro. Posso pegar o seu telefone? – ela sacou o celular da bolsa, ligou-o e teclou o número informado. – Ah, e tenho uma observação a te fazer: você é muito chato!

— Como assim?

— Parece não perder o controle. Nunca. Anda certinho demais.

— Engana-se você.

— Ah, é mesmo?

— Sim, é mesmo.

— Dê-me uma prova.

— Que prova?

— Quero que me beije na boca aqui nesse pátio.

Gregório riu, desconversou, tornou a rir, e informou:

— Não tenho a pretensão de beijar você.

— Viu?

— O quê?

— Você é chato! É certinho demais!

— Isso é loucura! Nunca pensei em beijar você! – um volume começou a crescer na calça do professor, que disfarçou.

— Ouse.

— Ousar o quê?

— Ouse fazer algo novo. Me prove.

— Olha Carla! Beijar você está fora de cogitação.

— Vou me matar por causa disso – fez beicinho.

— Fale sério, menina! – voltemos a falar de filosofia, redação e vamos cultivar a nossa amizade.

— Amizade é desafiar o outro. Agora é sério: quero que me beije!

— “O homem é uma corda sobre o abismo”, já dizia Nietzsche.

— Excelente citação, professor! Agora dê um passo. Beije-me agora. Não será um beijo apaixonado. Quero um selinho que seja.

— Não vai rolar.

— Tenho um desafio para você. Se não me beijar, vou começar a gritar aqui mesmo. Que você está me assediando. Todos virão no pátio e apedrejarão o professor pedófilo.

— Fala sério!

— Estou falando sério! Quero um selinho, só te peço isso.

— Carla, como te falei, assista ao “Beleza Americana”. Depois conversaremos. Tenho que sair para resolver algumas coisas – levantou-se e percebeu que a aluna levantara-se também, abrira os braços e escancarara a boca, fazendo o gesto de quem iria gritar.

Rápido, inesperado, insano, irresponsável, perdido, Greg abraçou-a e lascou um beijo em sua boca, que fechou a tempo de sentir os lábios húmidos colados aos seus. Apertou-a com tanta força que a fez gemer. Derradeiros segundos que fizeram com que o pau de Gregório endurecesse com o contato da pele jovem. Afastou-a de si e a viu enrubescer, sentindo-se enrubescer também. Outro funcionário vira a cena e ficou estupefato. “Estou fodido!”, pensou Gregório. Afastaram-se um pouco mais e Carla se recompôs:

— Greg, te pedi um selinho. Você me deu um beijo de verdade.

— Desculpe-me, perdi o controle.

— E isso é?

— É o que?

— Isso é bom?

— Não sei. Olha Carla, não me complique, por favor. Preciso desse emprego.

— Sim, sei que você precisa desse emprego. Não quero perder a sua amizade. Fiz um teste. Foi só. Não ficarei apaixonada por você. Fique despreocupado. E antes que pense que a coisa que rolou teve significado para mim, fiz um teste para você sentir a coisa descontrolada. Vi o seu coração bater forte. Vi suas mãos suando. Vi o seu desequilíbrio. E, se me permite, senti o seu pénis ficar duro.

— Sim. E o que isso prova?

— Que agora posso confiar em você. Foi a certeza que precisava. Você foi o além do homem que o Nietzsche tanto falava. A ideia do Super-Homem. Gostei desse seu desequilíbrio. Não gosto de adultos equilibrados. Temos um segredo, e agora confiaremos um no outro.

Laços de amizade firmados no imprevisível. Gregório sentiu que a complexidade existencial de Carla não a faria se matar por aqueles dias, apesar do olhar desconcertante e do escárnio com as coisas quotidianas. Estava num mundo à parte, num mundo preenchido pelas páginas e ideias de um filósofo alemão que marcara o pensamento mundial com seus aforismos desconcertantes. Desconcertante! Assim Gregório via Carla, sentia-a em toda a sua complexidade e, de certo modo, lembrou-se do que fizera com os seus últimos vinte e cinco anos. Uma vida adulta de equilíbrios, regras, moderações. Uma vida epicurista. Uma vida chocha e sem graça. Pelo sim pelo não, fora uma experiência despropositada aquele encontro e aquele beijo.

— Agora tenho que ir mesmo.

— Tudo bem, Greg. Obrigado pela conversa. Gostei demais. Melhor que ler o seu livro, que também é bom. Parabéns!

Despediram-se e, enquanto Carla se dirigia para a sala de aula, Gregório foi informado que a direção da escola queria vê-lo. Gelou. Dos pés à cabeça. Estava fodido! Aguardou na sala de espera, fazendo conjeturas, inventando desculpas, pretendendo não comprometer Carla e tentando antever o tom do diálogo. Esperou por uns vinte minutos, tempo eterno para uma mente culpada. Lembrou-se da ideia de que os antigos gregos não cultivavam a culpa em seus gestos e atitudes. Isso há 2.500 anos. Mas não ali. Não com ele. Pensou se seria demitido por justa causa, pensou se perderia os benefícios e como se viraria para arranjar outro emprego. Seu nome ficaria queimado na praça? Merda! E tudo por conta de um beijo irresponsável e o fato de ter sido manipulado por uma pentelha de 15 anos. Que droga de filósofo eu sou! Perdendo a razão, a cabeça e o emprego por conta de um gesto impensado.  Angústia! Estava sofrendo de crise de angústia. Naquele exato momento. Fazia contas mentalmente, aluguer, alimentação, prestação da TV 55 polegadas, água, luz, condomínio, a pretensão de pagar um estande para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro tinha ido para o saco e estava remoendo cada pensamento quando a porta se abriu e foi convidado a se sentar.

A diretora indicou a cadeira de visitante, retornou à sua, sentou-se com gestos leves e fitou seu interlocutor, com voz pausada e concentrada:

— Ora, ora, ora. Senhor Gregório Mendes, está feliz em trabalhar aqui?

— Claro. Gosto muito da escola. Da direção, dos colegas, dos alunos e funcionários.

A voz da diretora era pausada e naquele momento Gregório pensou se a mesma estava brincando tal como o gato faz com o rato, divertindo-se às suas custas. Tentou adivinhar intenções, mas foi em vão.

— Tanto tempo e a gente acaba não conhecendo nossos funcionários! – suspirou.

“Merda! Ela sabe! Que agonia! Por que não vai logo ao assunto e me manda ao RH?”.

— O tempo anda curto para todo mundo – a frase soou óbvia, como sempre acontece nessas ocasiões.

A diretora gata jogava o professor rato para cima. Acostumada às melhores rações e patês, não fazia parte do seu cardápio a carne imunda do rato.

— O tempo anda curto, né, Gregório Mendes? – escandiu as palavras e sorriu, enigmática. Quer me dizer o que anda aprontando?

“Aprontando? Maldita gata! Por que não me matava antes, não estou aguentando mais tanta pressão. Maldade demais. E tudo por conta de um maldito beijo!”.

— As mesmas coisas de sempre, diretora.

Ela abriu a gaveta, retirou uma folha de lá, leu e tornou:

— Quer me dizer de sua própria boca?

— O quê?

— O que anda fazendo. E a gente não fica sabendo de nada, pelo menos é o que você deve achar.

— Pode ir direto ao ponto? – se remexeu na cadeira, incomodado.

— É uma pessoa tímida, Gregório?

Outra remexida na cadeira. A angústia faria Sartre escrever mais dois tratados. Fez voz dura:

— Do que afinal a senhora está dizendo?

— Então o senhor me lança um livro e não me diz nada? Fiquei sabendo através de meus funcionários e percebi realmente que havia um convite na sala dos professores. Quero um exemplar autografado.

Gregório sucumbiu na cadeira, sorriu, relaxou, riu novamente e disse que fazia questão de presentear a diretora com um exemplar. A diretora gata que brinca com o rato (e ele era mesmo um rato, pelo menos se sentia assim naquele momento, pois somente um rato desprezível beijava uma ratinha no pátio da escola) refutou, disse que fazia questão de adquirir um exemplar e que só exigia um autógrafo. Prometeu indicá-lo a outras sedes da escola e quem sabe o colégio poderia adotá-lo como leitura sugerida? Gregório, mais ético que um kantiano, disse que não se sentia à vontade para legislar em causa própria, mas que agradecia desde já o apoio e tratou de ir buscar o livro no escaninho da sala dos professores para autografá-lo à diretora gata que brinca com o rato. Pediu licença, buscou dois exemplares, retornou à sala e autografou um à diretora e outro à escola como um todo. Despediram-se e a diretora afirmou que se sentia muito feliz com a performance de seu professor.

Após emoções tão intensas, Gregório saiu da sala, da escola, tomou uma lotação e chegou em casa, antes pedindo um almoço chinês pelo telefone. Almoçou. Tirou uma sesta e, à tardinha, passou a escrever o artigo que enviaria ao jornal.

Marcelo Pereira Rodrigues

Pintura de Gustav Klimt, “O Beijo” (1907-1908)

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