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Início de um novo capítulo na carreira da banda irlandesa, “The Unforgettable Fire”, gravado em Slane Castle e em Dublin, conta pela primeira vez com a participação de Brian Eno. O produtor viria a revelar-se essencial no futuro do grupo composto por Bono Vox, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton.

É verdade que os U2 têm um som muito próprio, sendo que este álbum é a primeira grande prova disso mesmo. O sucesso do seu antecessor “War” (1983), com êxitos como Sunday Bloody Sunday ou New Year’s Day, provou ao mundo a garra e a vontade de intervir por parte da banda, mas seria o quarto álbum o primeiro a ir mais além.

A Sort Of Homecoming, o regresso dos que não foram, os quatro miúdos que entram para vestir com orgulho a camisola irlandesa nas suas viagens pelo mundo fora. A bateria de Larry Mullen afirma uma abertura com energia, que evolui para uma rápida conclusão: o som dos U2 mudou. Sim, mudou, mas o resto ficou. Paul David Hewson (Bono) canta a viagem de retorno a casa, de uma ligação que é impossível de se perder, onde todas as pontes vão parar, “Across the sea and land“.

Segue-se o primeiro single deste “Unforgettable Fire”, Pride (In The Name Of Love), a música tão associada a Martin Luther King Jr. (1929-1968), ativista norte-americano e defensor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América, cujas filosofias Bono se identificava, mesmo sendo aplicadas a outras ideias e batalhas. Este é um dos hinos do grupo, que até hoje fez sempre parte da setlist em todas as digressões. A música dá aso ao elevado registo vocal do cantor irlandês, que é fielmente acompanhado por um riff de David Howell Evans (The Edge), e nos leva durante cerca de 3:50 a querer mudar o mundo e gritar “In The Name Of Love“.

Na faixa número três temos Wire, uma composição largamente improvisada por Bono e com influência dos Talking Heads, com quem Brian Eno tinha recentemente trabalhado. É a música com o tempo mais acelarado do álbum, perfeita para quem quer conduzir e chegar rápido a um destino. Segue-se The Unforgettable Fire, a música que dá título ao álbum. Entramos aqui na parte mais inovadora da obra, onde o lado ambiental tem uma preponderância significativa em toda a aura da canção. Pequenos sons de guitarra e o sintetizador Yamaha DX7 tocado por The Edge dão alma aos versos compostos em homenagem às vítimas dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945.

The Edge ao vivo em 1984
U2 em 1984

Promenade, uma das músicas mais suaves dos U2, com o cantor irlandês a cantar num tom mais baixo do que é habitual. Como um cobertor para o espírito, esta faz a passagem para a segunda parte do álbum, que se mantém neste registo mais ambiental e tranquilo.

4th Of July é um pequeno improviso em estúdio captado por Brian Eno no fim de umas das sessões de gravação, do qual só faz parte Adam Clayton e The Edge, ambos a improvisarem sons, com destaque para a guitarra eléctrica que por momentos é uma espécie de varinha mágica.

A ligação perfeita acontece com o começo de Bad. Este é o ponto alto do álbum, e um dos mais altos da carreira da banda. O riff desta música é inconfundível, e leva-nos numa viagem dura e crua, por uma trip de heroína, sobre alguém que cai bem fundo e não se consegue levantar. O registo vocal de Bono é assustador e arrepiante, fazendo das tripas coração, é uma das performances mais honestas de toda a sua carreira como músico.

Seguem-se, para voltarmos à Terra, Indian Summer Sky e Elvis Presley And America. Ambas as faixas são o menor destaque da obra, mas vale a pena referir que são dois bons exemplos da coerência musical que a banda e Brian Eno tão bem souberam trabalhar neste álbum. Para finalizar, MLK, a referência ao sonho de Martin Luther King, que Bono quis respeitar e imortalizar em dois minutos e meio.

“The Unforgettable Fire” antecede o famoso “The Joshua Tree” (1987), um dos álbuns mais vendidos de sempre. Este último não seria o mesmo se o trabalho de 1984 não existisse, pois foi preciso aprender para depois fazer melhor. Para quem gosta de U2, este quarto álbum é simplesmente obrigatório.

Rating: 3.5 out of 4.

2 thoughts on ““The Unforgettable Fire”, U2: Uma maturidade chamada Brian Eno

  1. Enquanto escrevo o comentário, ouço “In The Name Of Love”. Muito bom saber das referências e inspirações por detrás da canção. Brilhante a resenha!

    1. Obrigado Marcelo, mais virão, esteja atento!

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