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Porque A Arte Somos Nós

Era inverno quando chegamos à fronteira seca, que separa Ponta Porã de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Uma cerração vaporosa tomou conta da avenida como se nuvens se aproximassem do solo frio. A neblina desceu sobre a serra embaçando a nossa vista. As formas tornaram-se vagas, obscuras, embora lâmpadas amarelas estivessem acesas. Por ali um dia passaram índios guaranis colhendo frutos, carretas cheias de erva-mate. Agora, exatamente nessa região conturbada, mergulhávamos numa névoa assustadora.

São bem assim os nevoeiros: os contornos antigos vão desaparecendo, os astros se ocultam, o caos das origens instala-se à nossa volta.

Muitos foram os momentos de transição, de passagens fantásticas e surreais, registados nas páginas da história e da literatura. Nas lendas do Rei Artur, as brumas separaram a ilha de Avalon com as suas fadas, magos, sacerdotisas, lagos e florestas encantadas, da Bretanha sob o domínio de Constantino, primeiro imperador romano que escolheu a nova religião da razão, do monoteísmo e dos povos unidos sob a bandeira de Cristo.

Também as brumas estão presentes na prosa poética de “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra“, do escritor Mia Couto (1955…). Ele explica-nos que em Moçambique, o seu país pobre e destruído por guerras civis que tornaram a realidade pós-colonial pior do que era antes, existem dois lugares: a cidade e a ilha. Um rio corre entre elas. Ali reside um infinito nebuloso. De um lado, o mundo urbano, moderno, que engole e despersonaliza o indivíduo e do outro, os valores e crenças ancestrais da comunidade, solo sagrado da Mãe África.

O escritor moçambicano Mia Couto

Certamente não há texto mais imerso nas brumas e nas névoas do que “O Desertodos Tártaros“, do italiano Dino Buzatti (1906-1972). Que tom misterioso e enigmático. Soldados de uma guarnição esperam pelo ataque dos inimigos, os tártaros, que podem chegar a qualquer instante. Situada no sopé de uma montanha íngreme na fronteira com um deserto, a fortaleza está envolta numa atmosfera entre o real e o sonho. O destino governa a vida desses homens, sobretudo a do Tenente Drogo. Uma vida estruturada numa rotina militar de sentinelas patéticas.

Trata-se de uma alegoria da condição humana e do seu amesquinhamento quotidiano. O tempo que leva o homem para a inexorável morte, para a renúncia e a derrota de uma expectativa que não se concretiza nunca. O forte está fincado numa “fronteira morta”. No horizonte há sempre brumas, flocos de neve, gotículas de gelo, penachos negros que se movem nos limites das névoas perenes, húmidas, que causam tonturas, névoas fétidas.

No passado, os nevoeiros eram considerados infeciosos. Shakespeare chamou o nevoeiro de “suja e contagiosa escuridão no ar”. Os nevoeiros desconcertaram os primeiros navegadores que se perderam com as suas caravelas, no meio das massas espessas.

Por um instante sentimo-nos sufocados atrás das nossas máscaras, sem visibilidade, numa terra perigosa de fronteira. Continuamos a caminhar na névoa para poder sair dela. As camadas foram baixando em colunas de fumaça e, de repente, contemplamos as estrelas.

Raquel Naveira

Pintura de Caspar David Friedrich, “Caminhante sobre o mar de névoa” (1818)

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