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Porque A Arte Somos Nós

Jogar “LA Noire” deveria requerer uma leitura antecipada das características e contexto do jogo, uma espécie de Termos e Condições a que o jogador tivesse que clicar “Li e aceito” antes de se aventurar neste jogo da Rockstar, lançado pela primeira vez em 2011. Muito daquilo que fica na mente do jogador após experienciar o jogo dependerá das suas expectativas em relação ao mesmo. O carimbo da Rockstar poderá levar o jogador a antecipar um jogo semelhante às franquias “Grand Theft Auto” ou “Red Dead Redemption“, baseadas em gigantescos mundos abertos e com inúmeras atividades secundárias, além de variadíssimas missões principais.

Para o bem ou para o mal, LA Noire é diferente dessas duas séries. O jogo foi desenvolvido pela (na altura) recém-criada Team Bondi, um processo conturbado que demorou cerca de sete anos e terminou inclusivamente com a extinção da desenvolvedora australiana. O lançamento foi feito pela Rockstar Games em 2011 para a PlayStation 3 e Xbox 360 e, uns meses mais tarde, para Windows. No final de 2017, uma versão remasterizada foi lançada para PlayStation 4, Xbox One e também para Nintendo Switch.

Em termos narrativos, é a história é baseada na resolução de crimes. É dado ao jogador o controlo na terceira pessoa da personagem Cole Phelps (voz e aparência de Aaron Staton), um herói da 2.ª Guerra Mundial, que regressa a Los Angeles para tentar prosseguir uma carreira de detetive na Los Angeles Police Department (LAPD). O jogo inicia-se em 1947 em Los Angeles, durante um dos mais importantes períodos da Era Dourada de Hollywood. O mapa do jogo é uma recriação praticamente perfeita de LA em 1947.

Tal como outras entradas da Rockstar Games, “LA Noire” apresenta-se sob a forma de um mundo aberto. É possível visitar os monumentos da cidade, resolver pequenos casos secundários (chamados crimes de rua), encontrar os diversos coleccionáveis ou simplesmente vaguear pelas ruas da cidade ao som da banda sonora de Andrew Hale ou da rádio do jogo. Aquilo que possivelmente melhor descreve “LA Noire”, sendo, por conseguinte, a sua melhor virtude, é o ambiente criado. Praticamente todo o mapa é recriado a partir do mapa de Los Angeles dos anos 40, incluindo ruas, edifícios (muitos dos quais já nem existem), roupas, armas e carros licenciados.

Cole Phelps (Aaron Staton)

A jogabilidade é rica sem ser demasiado complexa e original sem ser completamente inovadora. Os casos que fazem parte da história principal consistem sobretudo na exploração de locais do crime, que incluem a procura por pistas e interrogação de suspeitos ou outras pessoas de interesse. Os momentos mais importantes ocorrem durante os interrogatórios, onde o jogador, assumindo o papel de Phelps e perante uma lista de perguntas, terá que decidir se os interrogados estão a dizer a verdade, a mentir ou duvidar, assumindo uma posição neutra, mas mais agressiva (renomeada no remaster para “bad cop“). Estes questionários poder-se-iam tornar, num extremo, numa mera tarefa analítica, baseada na atenção aos factos e diálogos.

Na outra ponta do espectro, poderiam também depender maioritariamente de um fator sorte, onde o papel do jogador não seria respeitado. Mas, em “LA Noire”, embora o papel dos interrogatórios penda mais para a primeira ponta do espectro, existe uma característica que acrescenta a estes diálogos uma camada extra de realismo e profundidade. As expressões faciais de todas as personagens foram animadas usando uma tecnologia inovadora, que necessitou de 32 câmaras para conseguir captar os movimentos mais subtis das caras.

Este detalhe torna os interrogatórios mais ricos, requerendo, além de uma análise exaustiva das pistas, uma leitura de expressões faciais pelo menos ao mesmo nível. O detalhe era inovador quando o jogo foi lançado em 2011. Nove anos depois, a situação parece manter-se.

A apresentação da história quase exclusivamente sob o ponto de vista de Cole Phelps situa-a num local interessante, onde o protagonista faz parte da comunidade policial, mas onde não tem categoria ou credibilidade suficientes para que este (e, por consequência, o jogador) possa assistir diretamente aos segredos mais ocultos dessa elite policial. E é exatamente dessa elite que Phelps se vai aproximando à medida que resolve os casos (o maior ou menor brilhantismo da resolução dependerá de uma capacidade individual do jogador).

Os crimes, parte de um todo cada vez mais complexo, resultarão em sucessivas promoções para outras áreas de atuação da polícia de Los Angeles (chamadas de desks no jogo). Além de servirem a Phelps para subir na carreira e se aproximar do topo da cadeia alimentar, servem também como separadores dramáticos dos vários atos da história e, se se quiser acrescentar, servem o propósito de adicionar variedade aos crimes e aos parceiros, com quem Phelps trava a maior parte dos diálogos.

Não se pode dizer que “LA Noire” reinvente o género noir, este teve o seu período de vida entre os anos 40 e 50 e tudo o que veio depois não poderá ser mais do que uma tentativa de recriação. Apesar disso, baseia-se naquilo que o género melhor forneceu em vários meios. Muitos dos crimes são inspirados em filmes noir, em livros de ficção hardboiled e até em crimes reais. “LA Noire” pode não reinventar o noir, mas talvez reinvente aquilo que é um videojogo.

Luís Ferreira

Rating: 4 out of 4.

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