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As aventuras do agente secreto mais celebrado do mundo completam mais um ciclo cinematográfico com “No Time to Die”. O vigésimo quinto filme da saga e o quinto do ator Daniel Craig, que se despede do papel principal de forma satisfatória. Será difícil para o seu substituto estar à altura daquilo que atribuiu à personagem: sensibilidade humana, sem perder a compostura que lhe é reconhecida. No século XXI, James Bond já não é apenas um sinónimo galante de uma figura imbatível com um gosto por mulheres esbeltas e Vodka Martini’s. Em grande parte, é a Craig que devemos essa representação fresca, com notas de paixão, melancolia e tragédia.

Em linha com estas qualidades está o conteúdo e progressão da narrativa. O realizador e coargumentista Cary Joji Fukunaga mantém-se fiel às características do cinema de ação pelas quais os filmes de 007 são descritos, mas acopla ao vocabulário visual um teor de peça grega. Desde os vilões aos heróis, existe uma clara tentativa em acrescer nuance aos estereótipos. Pese embora o drama não esteja tão refinado no grande ecrã como seria de esperar ao ler o argumento, o filme partilha, no todo e nas partes, o ADN daquilo que esperamos do cinema de Bond.

Daniel Craig (James Bond)

A história retoma depois dos eventos de “Spectre” (2015). Depois de encarcerar Ernst Blofeld (Christoph Waltz), o cabecilha da organização Spectre e meio-irmão de Bond (Craig), o agente secreto desfruta de uma temporada reformado em Itália com o seu amor, a Dr.ª Madeleine Swann (Léa Seydoux), até que a esperança de uma vida livre de violência e correria é desmantelada por uma armadilha. Suspeito de que fora traído pela sua cara-metade, o casal separasse num ápice e o tema de Billie Eilish acentua a dor de um episódio amargo.

Com a atmosfera da narrativa estabelecida, segue-se uma avanço temporal de 5 anos. Bond vive isolado na Jamaica, com mera licença para matar o tempo. Do outro lado do oceano, o plano Heracles (não mais do que uma arma biológica) de M (Ralph Fiennes) é roubado de umas instalações secretas, e com ele o cientista Obruchev (David Dencik). Depois de lançado o pânico, M envia ao terreno Nomi (Lashana Lynch) – a nova agente secreta com o nome de código 007. No entanto, laços pessoais persuadem Bond a entrar no conflito e a confrontar de novo o aprisionado Ernst Blofeld, que está a ser acompanhado psicologicamente pela Dr.ª Madeleine Swann (Oh! A reunião).

O enredo adensa quando o papel de Rami Malek, que interpreta Lyutsifer Safin, ganha preponderância nos acontecimentos. Senhor de calma religiosa, com cicatrizes profundas e convicções vingativas. Uma personagem relevante que podia estar mais desenvolvida na história tendo em conta que o filme dispõe de 2 horas e 43 minutos (o mais longo de sempre da saga). Por sua vez, os criativos, com alguma indulgência, introduzem personagens como Paloma (Ana de Armas), uma agente dotada de habilidade e sex appeal que protagoniza uma das sequências mais memoráveis do ponto de vista do entretenimento.

Rami Malek (Lyutsifer Safin)

Neste aspeto, as perseguições – a passo e sobre rodas – permanecem uma marca registada, assim como a excitação tecnológica e as rodagens em diversas localizações exóticas. Todavia, o que surpreende em “No Time to Die” são as várias linhas cómicas que acrescentam o tempero necessário a uma experiência que é grande em escala e estrondosa em diversas cenas. Com Daniel Craig firme enquanto espinha dorsal, a proporcionar o ethos necessário para suster a narrativa, mostrando, mais uma vez, o porquê de ser ele a cara da melhor iteração de James Bond na sétima arte.

Prestações diante da câmara à parte, “No Time to Die” é facilmente melhor que “Quantum of Solace” (2008), mas não acende uma vela a “Casino Royale” (2006) ou a “Skyfall” (2012), cujas narrativas são mais coesas e emocionalmente mais ressonantes. Isto porque, no que à carga dramática diz respeito, o enredo dispersa a atenção por demasiadas personagens e em consequência o envolvimento com a história é diluído no decorrer do tempo. Um aspeto que sobressai no ponto de maior abalo.

Na linhagem do 007 nunca houve necessidade de engendrar um adeus a um ator no papel principal. Sean Connery deu lugar a George Lazenby, que por sua vez deu espaço a Roger Moore e por aí em diante. A passagem de testemunho era orgânica e não levava em conta o legado que fora deixado. A título excecional, Daniel Craig foi tão marcante para a saga que não só lhe deu continuidade com brio, como também encerrou uma pentalogia contida que vale por si. A este feito, elevo um copo de Vodka Martini, agitado, não mexido.

Bernardo Freire

Rating: 2.5 out of 4.

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