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O filme português “Recordações da Casa Amarela”, do realizador João César Monteiro, de 1989, com as suas 2h02min é um deleite. Com os atores João César Monteiro, Ruy Furtado, Teresa Calado, Sabina Sacchi, Manuela de Freitas, João Bénard da Costa entre outros, este drama comédia apresenta a vida ordinária de João de Deus (interpretado pelo realizador e argumentista João César Monteiro), que vive numa pensão barata em Lisboa e aqui cabem alguns comentários de um brasileiro.

Fora a primeira impressão que nos fica da capital de Portugal, chegando até a denominarmos de LisÓtima, adentrando mais as veias arteriais percebemos que para além do barroco, o mofo, a humidade, desde as roupas que secam nos estendais das casas e estes cenários lúgubres também fazem parte do cenário, assim sendo, nada mais natural entendermos João de Deus reclamando à dona da pensão acerca dos percevejos e da humidade. A dona promete-lhe melhorias no quarto e esclarece que ali já fora residência de nobres e de gente até da realeza. Mas João tem lá os seus incómodos e a sua saúde está em feita em cacos.

Esquálido, espécie que parece estar jogada ao mundo, sem privacidade nem para ir à casa de banho, como um rato que se esgueira pela pensão tentando alimentar-se dos restos. Acometido de amor platónico por Julieta, a filha da locatária que está a aprender clarinete, tem a sorte em ser o próximo após a saída dela do banho. Assim sendo, consegue catar alguns pelos púbicos, ou melhor dizendo, um apenas, mas esbalda-se e bebe a espuma daquele verdadeiro manjar dos deuses.

O ator e cineasta português João César Monteiro

Joga cartas com outro morador, Senhor Armando (interpretado por Ruy Furtado) e com ele comenta superficialmente as suas dores. Mas é na consulta médica que a pobre figura, despida, parece dispensar a radiografia. Ele era tão magro que quase chega a ser transparente. Volta com remédios para lhe curar um inchaço nos testículos e quando solicita gelo a Dona Violeta, esta o inquire se é para usar nas hemorroidas. Ele despista-a e diz que era para os seus joelhos.

O dinheiro é curto, visita a sua mãe que limpa as escadarias de uma igreja e ela dá-lhe os últimos trocados. Quando se dirige a uma casa de favores, reconhece Mimi (interpretada por Sabina Sacchi), que está ali a fazer programas. Esta pede-lhe sigilo e discrição, e ele porta-se como um cavalheiro, evitando o álcool, mas brindando àquele segredo. O cafetão dela é preso e ela fica perdida, tendo que se desfazer de Pom Pom, o bonito cachorrinho de madame que bebia leite na leitaria. A cena do sacrifício do animal é triste, tendo o veterinário esclarecido que, após a injeção, o pobre bichinho não sentiria nada.

Sentir. Há muito que este ser lançado ao mundo, que atende pelo nome de João de Deus, mas que é o mais comum dos homens, parece não sentir nada. Apenas os restos, sejam contorcer-se na cama ouvindo o rádio a tocar clássicos e os golos do Benfica; espreitar Julieta em ardis que não passam de imaginação; e aproximando-se de Mimi e desse encontro desarrazoado crescerá uma amizade calcada no desespero. Pois esta comete um ato extremo, atentando contra a sua própria vida, fica de espólio a João o canivete e um dinheiro escondido numa boneca, que servia à prostituta de cofre.

“Recordações da Casa Amarela” (1989)

A cena em que ele beija o montante é significativa, pois se dinheiro não compra amor, ao menos compra sexo e desejos. O desnível entre caça e caçador é hilário, e no ato mal consumado com Julieta, quando a dona da pensão e mãe dá o flagrante, é hora do mentecapto ser posto na rua, escorraçado, sob apupos da vizinhança que fica a saber do sucedido e há muitas exclamações desabonadoras acerca da triste figura e se poderia fazer algum mal a alguém, muitos duvidando que o seu órgão sexual funcionasse.

O nosso mentecapto passa uma temporada nas ruas, dormindo em albergues, e fica a saber da morte da mãe após quebrar o fémur. Adquire uma farda militar de gala às mãos dos ciganos e entra com impostura num quartel, sob continência e receio dos soldados rasos. Quando lhe é descoberta a farsa, e conversando com um oficial, este não tem outra saída a não ser mandar prendê-lo num hospital psiquiátrico. Ali parecia estar melhor alocado, convivendo com verdadeiros trapos humanos.

Sai a perambular pelas vielas de Lisboa e a película termina com aporia, retratando apenas a vida de um homem comum que poderia ser perfeitamente qualquer um de nós. Acerca do cenário e fotografia da obra, o clima noir permeia quase toda a trama, deixando-nos com mensagens subliminares existencialistas desta espécie de Antoine Roquentin (personagem de “A Náusea” de Jean-Paul Sartre) com pitadas quixotescas e numa lição que me fez ponderar se o sol deste lado do Oceano Atlântico pode não ser melhor que o mofo e humidade de Portugal.

Agradeço imenso ao editor do Barrete que me passou este dever de casa, que desenvolvi e gostei bastante, sendo uma divertida e reflexiva lição.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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