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A película “La noche de 12 años” é impactante! Se não possui um estômago forte, não ouse assisti-lo. O risco de se sentir nauseado é bastante elevado. Produzido por Alvaro Brechner, com locações no Uruguai, Argentina, Espanha e França, a longa-metragem é um drama que conta com os atores Antonio de la Torre, Chino Darin, Alfonso Tort e Soledad Villamil. Descreve a ditadura militar no Uruguai e centra-se na vida de revolucionários do Tupamaro, um grupo de marxistas-leninistas que ousou enfrentar o regime e pagou na pele o preço. José Pepe Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro são três destes prisioneiros capturados em combate e sentirão na pele (literalmente escrevendo) o rigor das penas.

Presos e mantidos em solitárias, sem saberem ao certo em que prisão estavam, sofrerão toda espécie de humilhação. Mijam em cima deles e em algumas oportunidades alimentam-se de sobras de banquetes dos guardas. O filme vai apresentando uma contagem de tempo e a sucessão dos dias chega a ser angustiante. Consegue um ser humano (se é que podemos definir assim um trapo de homem que passa por essa situação) suportar isso tudo? Resiliência, essa palavra tão em moda nos dias de hoje, parece indicar a possibilidade.

Recolhendo os trapos da sua (in)dignidade, os três conseguem estipular um código de informações batendo com os nós dos dedos nas paredes, com a sinergia revelar-se até quando conseguem disputar mentalmente partidas de xadrez e especularem acerca dos seus paradeiros. Para as raríssimas visitas que recebem, são maquiados e instados a não reclamarem das condições, caso contrário o pau iria “comer solto” depois. Mudados constantemente de prisões, o certo é que a loucura ronda o trio.

Antonio de la Torre (José Mujica)

Mujica sofre choques elétricos na cabeça e fica desorientado, acreditando que lhe implantaram uma antena que o fazia não parar de pensar nunca. Dores lancinantes e um pouco de ousadia irreverente mostra-se em dois momentos marcantes: quando Eleuterio é levado a defecar, mas, algemado num cano acima numa das mãos, não consegue ângulo adequado para acertar o balde. Fala o óbvio a um guarda que comunica o facto aos colegas, sendo que estes o orientam a saber de um superior se poderiam tirar-lhe as algemas. “Vocês são idiotas?“, sai vociferando um oficial de alta patente para um público de mais de 30 indivíduos no recinto às voltas com o necessitado.

Numa outra passagem, Rosencof perde a paciência com a tortura de uma conversa sobre conquista e flirt de dois soldados. Como se aquele papo chato fosse mais uma tortura, indica que o pretendente tinha que tomar uma providência e escrever cartas de modo a conquistar a morena. O que num primeiro momento pode parecer uma tentativa de suicídio, ao longo da narrativa é revelado como possibilidade, pois o preso dita os versos ao sargento que emite as missivas e, frequentemente, oferece ao detido alguns pães frescos e até um luxo que era um bloco de papel e um lápis. Mujica continua com o seu diálogo interno confuso e angustiante, quase chegando à demência. E seguem-se os dias.

Outra maquiação acontece quando um grupo de Direitos Humanos vai visitar a prisão e nas suas celas são postos livros, uma mesa, uma cuia e uma garrafa térmica. Pena que dura pouco, pois nem bem os ativistas viram as costas, as celas são despidas novamente. Vez ou outra, cenas do Uruguai aliviam-nos as vistas pelo esplendor e pela beleza, mas são raras. 98% da película revela o cinza frio e sujo das prisões.

Chino Darín (Mauricio Rosencof)

Quando a democracia volta ao país e os prisioneiros políticos são soltos, nada mais há revelar a não ser os 12 anos de torturas suportados na pele, pois é sintomático quando um deles questiona, no início, “Qual é a minha sentença?” e o oficial responde que ele a sentirá na pele.

Tenho uma história para contar e esta ocorreu quando conversava com um funcionário do museu de Montevidéu, a capital do Uruguai. Falávamos sobre política e quando ele questionou as minhas impressões sobre o Brasil, respondi que a presidente Dilma Rousseff estava a patinar e a cometer muitos disparates. Ao que ele me olhou sério e com o dedo em riste, disse-me: “Mas que não tomem nenhuma atitude fora da democracia!”.

Assistindo a este filme, e também já sabendo da exacerbada politização do povo uruguaio, entendi a exigência professada pelo meu interlocutor. Por mais imperfeita que possa ser a democracia, ainda não inventaram nada melhor do que ela. Embora saiba que muitos desarrazoados mundo afora clamem pela ditadura, é certo a diferença de posturas e discursos: na democracia, temos o direito de pedir ditadura; já na ditadura, não temos direito a pedir nada.

Baseado em factos reais, este filme é um documentário das agruras de um povo que até há bem pouco tempo atrás estava no limbo. Após o processo de redemocratização do país, Rosencof, certamente treinado pelas missivas que ditava e escrevia para o guarda, transformou-se num notável escritor e dramaturgo e Mujica foi deputado e senador, ocupando a presidência do país entre 2010 e 2015.

Figura folclórica, o agricultor simples mantem os seus ideais comunistas e dispensa luxos como automóveis sofisticados e se locomove no seu indefetível carocha da Volkswagen, mesmo quando era presidente. Aqui, a ficção se mistura com a realidade e percebemos no todo a população uruguaia com uma excelente qualidade de vida, sendo o país referendado como a Suíça da América do Sul.

O escritor Marcelo Pereira Rodrigues em Montevidéu, capital do Uruguai

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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