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Porque A Arte Somos Nós

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…”

Aos leitores do Barrete, uma explicação antes de analisar “A Arte da Guerra”: dada a minha formação em Filosofia, trato aqui alguns artigos acerca dos filósofos clássicos gregos, notadamente a partir do “Pai da Filosofia”, Sócrates (469-399 a. C.), portanto, com um recorte de dois mil e quinhentos anos e contextualizado no dito mundo Ocidental. Mas é óbvio que outras culturas e filosofias, e mesmo a filosofia dos ditos pré-socráticos, devem ser investigadas, tarefa à qual me proponho em artigos vindouros.

Por agora, remeto a um manual de guerra datado também de 2500 anos, só que na China, por um general chamado Sun Tzu, “A Arte da Guerra” (Editora Record, 2003, 112 p.). Nos bastidores, conta-se que o Imperador convocou o general filósofo para que desse uma preleção ao Exército ‘descompromissado’. O general sobe ao palco, percebe que ninguém respeita a sua presença e, quando enfim, deixam-no falar, entre risadas e galhofas, este chama ao palco dois insubordinados.

Sun Tzu

Simplesmente decepa a cabeça deles. Com o exemplo, ganha a atenção e o respeito de todos os soldados e a fama se espalha. Neste ano, na Indonésia, o governo decretou a licença para que a polícia abatesse e matasse o indivíduo que ousasse sair às ruas sem necessidade, devido ao isolamento social para combate à Covid-19. Duvido que alguém se tenha metido à prova!

“A Arte da Guerra” é um manual excecional. Livro lido pelo Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1815), que também leu “O Príncipe” de Maquiavel, e aí já dá para admirar o preparo e a acuidade intelectual do general francês. O interessante da obra é que é adaptável a qualquer situação e empreendimento, inclusive pode servir de guia para o editor do Barrete. No mundo corporativo, empresarial, desportivo, e nas relações interpessoais como um todo, os ensinamentos de Sun Tzu são aplicáveis e úteis, senão vejamos:

Na paz, prepara-se para a guerra; na guerra, prepara-se para a paz. A arte da guerra é de importância vital para o Estado. É uma questão de vida ou morte, um caminho tanto para a segurança como para a ruína. Assim, em nenhuma circunstância deve ser descuidada“.

Aqui devemos adaptar algumas palavras de forma a termos uma melhor assimilação. Quando consulto este livro de cabeceira diariamente, não significa que pretendo brigar com alguém. A minha arte da guerra é a arte pela vida; o meu “inimigo” nada mais é do que a pessoa com a qual irei tratar, nunca lhe oferecendo nenhum trunfo que algum dia poderá ser usado contra mim; o meu exercício de autoconhecimento a que me proponho todos os dias é para ser consciente dos meus pontos fortes e procurar aperfeiçoar os meus pontos fracos; se o “adversário” me impingir alguma ofensa, não cair na armadilha e não me rebaixar ao nível dele.

Seguir um pouco aquele conselho do Joker no filme “O Cavaleiro das Trevas“, de Christopher Nolan, com o magistral Heath Ledger: “Quando você é bom a fazer alguma coisa, nunca o faça de graça“. Resumindo: não levantar as minhas armas à toa.

Heath Ledger (1979-2008) como Joker

Neste jogo de forças mental, é no futebol que podemos observar com mais nuances essas vitórias e derrotas. Uma equipa bem preparada, com um técnico vencedor, recheada de estrelas contratadas a peso de ouro, poderá ser batida por um adversário que saiba estudar os pontos fracos: o quanto aquela estrela contratada a peso de ouro não está no melhor de sua forma física, o contra-ataque acertado que, oportunamente, desfere o golpe fatal e elimina o dito superior.

Saber vencer os nossos próprios medos é fundamental, para estudarmos aquilo que devemos melhorar, e para ser um vencedor, é válido analisar os conselhos do filósofo chinês:

Será vencedor quem souber quando lutar e quando não lutar;

será vencedor quem souber como manobrar tanto as forças superiores como as inferiores;

será vencedor aquele cujo exército estiver animado do mesmo espírito em todos os postos;

será vencedor quem, auto-preparado, espera para surpreender o inimigo despreparado e

será vencedor quem tiver capacidade militar e não sofrer a interferência do soberano

“A Arte da Guerra” é dividido por capítulos que se auto explicam: “Preparação dos Planos”; “Guerra Efetiva”; “A Espada Embainhada”; “Táticas”; “Energia”; “Pontos Fracos e Fortes”; “Manobras”; “Variação de Táticas”; “O Exército em Marcha”; “Terreno”; “As Nove Situações”; “Ataque pelo Fogo” e “O Emprego de Espiões”.

Antes que me acusem de maquiavélico (uma adjetivação pobre e ruim) e como detentor de um manual de patifaria, advogo a meu favor que apenas uso o manual no meu processo de autoconhecimento, e quando fico frente-a-frente com um avançado prestes a cobrar uma penalidade máxima, na minha difícil vida de goleiro de equipa amador.

Aliás, entendam como ato de generosidade extrema minha escrever uma crítica sobre esta obra-prima, que sirva de gatilho para que todos possam empreender as suas próprias batalhas, conhecendo-se a si próprios e aos seus inimigos, digo, o seu adversário, digo, o outro com o qual você lida, como naquela sentença proferida pelo filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980): “O Inferno são os outros“.

Marcelo Pereira Rodrigues

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