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Porque A Arte Somos Nós

Já todos devemos ter ouvido falar do famoso David Copperfield, personagem que dá título à obra literária do escritor britânico Charles Dickens, no ano de 1850. Foi inspirado nessa história que o realizador Armando Iannucci, conhecido por filmes como “A Morte de Estaline” (2017) ou “Em Inglês, S.F.F.” (2009), trabalhou em parceria com o argumentista Simon Blackwell de forma a trazer de novo para o grande ecrã a história do jovem rapaz órfão que consegue superar todos os obstáculos na sua vida com uma grande dose de humildade e criatividade.

Esta aventura remonta à primeira metade do século XIX, a uma Londres suja e ríspida, que muito bem é retratada nesta longa-metragem. Um pouco antes disso, somos introduzidos ao nosso ‘veículo’ nesta película, o pequeno David Copperfield (interpretado por Jairaj Varsani primeiramente). Desde cedo percebemos que David é um rapaz especial, não só pela sua facilidade em dominar as palavras, mas também pela sua imaginação fértil e construtiva. Sendo a mãe solteira, não tardou muito para que o jovem ‘ganhasse’ um padrasto. Como devem calcular, este era severo e intransigente para com o pequeno Copperfield, não alimentando a sua criatividade e focando-se apenas numa educação clássica e rígida para o seu novo filho.

Compreendemos assim que a infância de David está cheia de episódios tristes e obscuros. Nessa vertente, o filme capta bem a essência de uma criança cheia de cor que se vê embrulhada numa tempestade de adultos, pressões, inseguranças e medos. Mas nem tudo era mau antes deste ‘senhor’ chegar, pois Copperfield também foi muito feliz com a família da sua empregada, onde passou umas férias muito especiais: Peggotty, papel interpretado por Daisy May Cooper. Numa casa improvisada (um barco virado do avesso), somos levados pelos episódios e pela mente de Copperfield através do seu Eu mais velho, que nos narra o passado até a um ponto fulcral na narrativa.

David Copperfield (Dev Patel), Agnes (Rosalind Eleazar) e Mr Dick (Hugh Laurie)

Essa transição dá-se quando David, aqui já interpretado por Dev Patel, se vê sozinho, sem dinheiro e sem teto. Todo o desenvolvimento da narrativa assenta na luta deste nosso personagem em busca da sua felicidade, sobrevivência e amor. A certa altura, Copperfield vê-se obrigado a retomar contacto com a sua tia, irmã do seu falecido pai. Esta acolhe-o de bom grado – algo surpreendente, tendo em conta o início da película – permitindo assim o jovem David criar e sonhar de novo. Um desbloquear nessa missão foi Mr Dick (Hugh Laurie), um homem que andava sempre com a cabeça na lua, ou neste caso, que por vezes duvidava se a sua cabeça estaria realmente ligada ao seu corpo.

Este último é um personagem particularmente interessante, pois está presente nos momentos-chave da história e a sua maneira distinta de ver o mundo é a que mais se assemelha à do nosso protagonista. Com o continuar da história, David conhece novas realidades, entre elas uma espécie de colégio, onde conhece o seu amigo Steerforth (Aneurin Barnard), um jovem inteligente mas auto-destrutivo, e o empregado Uriah Heep (Ben Whishaw) – estão a pensar de onde conhecem este nome? Uriah Heep é uma banda britânica de rock e heavy metal, tendo estes se inspirado precisamente neste personagem da história de Charles Dickens.

A vida parecia correr bem a Copperfield, com novas amizades e um novo trabalho. Contudo, o passado voltaria para lhe atormentar a vida. A certa altura, quando David parecia ter tudo alinhado no seu caminho, até mesmo a mulher com quem queria casar, Dora Spenlow (Morfydd Clark), este vê-se muito rapidamente de novo na miséria. A sua tia é burlada e perde todos os bens, não podendo mais ajudar David na sua nova vida no centro de Londres. Entram em cena de novo Mr Wickfield (Benedict Wong), responsável pelas finanças da tia, e Uriah Heep, o novo ‘parceiro’ deste contabilista.

Este é um momento decisivo na personalidade do protagonista, pois este percebe o que deve ou não fazer, com quem deve ou não ficar. O filme traça um final baseado na sensação de justiça, onde Copperfield é rodeado por todos aqueles que foram bons para ele e que complementam a sua personalidade. Nesse aspeto, “A Vida Extraordinária de David Copperfield” capta a essência do protagonista a 100%, contando com a capacidade do ator Dev Patel em transparecer sinceridade, sensibilidade e nos momentos certos, garra.

Uriah Heep (Ben Whishaw)

A caracterização dos personagens é excelente, seguindo uma linha idêntica à obra literária, como podemos verificar nos seus diálogos e nos seus comportamentos – uma espécie de passagem para o grande ecrã das imagens que criamos enquanto lemos o livro na nossa cama à noite, deambulando pelo infinito da nossa imaginação. O guarda-roupa é outro ponto muito positivo na película, pois para além de nos situar à época, a estética e as cores das vestimentas captam o olho do espectador de uma forma especialmente atraente para com os personagens.

A obra consegue ser incrivelmente engraçada e satírica em certos momentos, com diálogos que só estão ao alcance de um grande escritor. Notoriamente um humor ao estilo britânico, toda a tensão dramática se parece equilibrar nestes momentos, dando mais vida às cores maioritariamente vibrantes ao longo do filme. De igual modo, os planos em espaços interiores merecem uma nota extremamente positiva, pois empurram o espectador para aquele mesmo espaço, permitindo sentir, ver e ouvir o mesmo que os personagens da história.

Não seria de todo fácil trazer uma adaptação deste calibre para as salas de cinema, mas o realizador foca-se no mais importante: a vida de David Copperfield. E assim como vemos um futuro escritor com uma mente bastante peculiar, não somos privados de ver a dor da aprendizagem do protagonista, assim como as suas influências (menção para o “falhado” Mr Micawber, interpretado por Peter Capaldi, que nos mostra que ao fim ao cabo tudo se resolve) ao longo da jornada.

“A Vida Extraordinária de David Copperfield” é um exercício muito bem conseguido, ganhando outra dimensão graças ao facto de que esta obra literária de Dickens é defendida por muitos como sendo uma espécie de autobiografia, ou seja, o escritor criou o personagem David Copperfield baseado no seu percurso de vida. Se é verdade ou mentira, não sei, mas que este filme capta o sentimento da obra literária, lá isso capta!

Rating: 3.5 out of 4.

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