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Porque A Arte Somos Nós

Orientado para a criatividade, comunicação e investigação, Mauro Santos é um jovem artista nortenho que tem tanto gosto pela teoria da arte como em “por as mãos na massa”! Desde o voluntariado na organização de festivais de cinema, até à construção de projetos próprios, a vertente cultural sempre correu pelas veias do entrevistado.

Licenciou-se em Artes Visuais e Tecnologias Artísticas pela Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico do Porto em 2018 e no ano seguinte concluiu a Especialização em Cinema e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. De momento frequenta o Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual pela mesma faculdade.

Os conhecimentos da academia são postos em prática na curadoria e montagem de exposições, assim como na direção e organização de eventos. Como por exemplo a primeira e segunda edição do evento TEMPORAL, ambas em 2019. Trata-se de um evento que ocorreu na Temporada CoWork Space, no Porto, com exposições, mercado de arte, performances, concertos e mostra de publicações independentes. Entre 2018 e 2019, também fundou e editou a revista independente Andromeda.

Foi com o propósito de conhecermos mais sobre a pessoa e o artista que OBarrete entrevistou Mauro Santos. Assim como recolher algumas perspetivas frescas sobre História da Arte e o seu papel no panorama sociocultural dos nossos dias.

Mauro Santos

Quem é Mauro Santos?

R: Aí está uma ótima pergunta (risos). O Mauro ainda está em construção, mas atualmente é um aluno do mestrado de História da Arte, Património e Cultural Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. No momento estou a começar a minha tese que aborda a Imagem em movimento e o Som nas práticas artísticas da segunda metade do século XX.

Anteriormente fiz a minha especialização em Cinema e Cultura Visual. Em 2018 licenciei-me em Artes Visuais e comecei a dedicar-me a projectos de direção de arte, curadoria, sendo que desde 2019, juntamente com duas colegas, organizo o evento de arte TEMPORAL.

Desde a Licenciatura que estiveste ligado às artes. Tendo isto em conta, qual foi o papel que a arte teve no teu percurso de menino até jovem adulto?

R: Na realidade, já estava ligado, a nível académico, com as Artes Visuais desde o meu secundário, mas a minha envolvência com o meio cultural começou ainda no seio familiar. O meu pai é uma pessoa simples mas extremamente inteligente e prática, como trabalha muito a metalurgia é normal encontrar diferentes peças de mobiliário na nossa casa.

Já a minha mãe, que é professora, é das pessoas mais sábias que conheço. Cultivou muito dos seus conhecimentos e interesses na literatura portuguesa, literatura greco-romana. Também fomentou o meu gosto pela música, algo que nunca faltou na minha infância foi Bach, Vivaldi e Scorpions. Neste meio, e como gostei sempre de desenhar, de pintar, rasgar, foi natural o meu percurso académico nas Artes Visuais e posteriormente na História da Arte.

Tudo o que faço está totalmente relacionado com Arte e Cultura, seja o mestrado, os eventos de arte que organizo e os meus projectos pessoais como livros de artista, artigos de arte, etc. Os meus objectivos (atuais) profissionais e pessoais estão intrínsecos ao mercado da Arte, às instituições e fundações culturais, aos círculos de sujeitos interessados no debate e partilha de ideias sobre o meio.

Avançando para os teus conhecimentos sobre História da Arte, quais são as temáticas que mais te fascinam? Porquê?

R: Desde sempre que sou interessado por História, na memória guardada e pelo passado indecifrado. Movo-me muito pela arte e motivos sociais e políticos, penso que as nossas preocupações e modos de estar na vida se manifestam nos nossos interesses dentro do que é o mundo da arte. Tenho uma grande ficção e interesse por arte contemporânea, especialmente pela produção da segunda metade do século XX. Este panorama contempla uma crescente envolvência com a tecnologia, que no final do século, permitiu o crescimento de campos como a videoarte, a performance, o próprio cinema experimental, a arte sonora, que são alguns campos que estou a explorar e a investigar.

Este panorama fascina-me pelos seus paradigmas e contextos, se por um lado a tecnologia permite novas produções artísticas a tocar no campo artificial, o artista voltará a olhar para o corpo como meio e ferramenta. Gosto bastante desta ambiguidade processual e temporal. Inspiram-me essencialmente obras que contemplam e exploram a identidade e o que nos torna humanos – as nossas emoções, os nossos comportamentos. Dentro da minha própria (pequena) produção tenho explorado as temáticas da identidade, da memória e esquecimento, conectados a conceitos como Casa e Corpo.

No que diz respeito à vida em sociedade, em especial com as circunstâncias pandémicas que nos assolam, de que forma é que acreditas que a História da Arte nos pode ajudar a evoluir enquanto indivíduos e espécie social?

R: Acho interessante esta questão da importância da história e da arte tendo em conta as “circunstâncias pandémicas” porque uma coisa que ficou clara durante a quarentena foi a enorme necessidade que a sociedade tem pela arte e pela cultura. Encerrados em casa, as pessoas viam filmes, séries, liam livros, ouviam podcasts, umas escreviam, outras pintavam, etc.

A História da Arte tem, primeiramente, um papel muito documental e pedagógico. Faz-me pensar na velha lengalenga do “aprender com os erros do passado” que não é possível sem se conhecer o dito passado. A História da Arte suporta-se em todo o tipo de documentos, essencialmente elementos visuais e textuais e parece-me que esta envolvência teve e tem um poder incrível nos movimentos sociais e políticos. A História da Arte estuda, documenta, preserva e conserva os documentos do mundo real.

É através deste trabalho que as obras de arte e as suas mensagens chegam até nós. Tudo o que são organizações, eventos culturais e turismo cultural (sejam exposições, festivais, visitas guiadas, etc.) só são possíveis através deste trabalho que cabe ao historiador e ao investigador. Portanto, a acima de tudo o campo da História da Arte é pedagógico e um motor social. A arte e a cultura são a substância da nossa memória, sem elas não existia nem evolução nem revolução.

Por outro lado, o historiador e investigador é o agente fundamental para difundir e partilhar as mensagens e ideologias subordinadas às diferentes obras. A arte teve e tem um papel ativo em movimentos políticos e sociais, especialmente no século XX onde surgem vários movimentos ativistas – por exemplo, a arte de anti-guerra foi fundamental para cada aftermath.

A arte une as pessoas, fá-las parar e refletir. Parece-me que não há método melhor que este para crescermos enquanto comunidade e espécie. No meu olhar contemporâneo e atual, compreendi a importância da Cultura para o nosso desenvolvimento enquanto indivíduos. Uma sociedade que se cultiva, que abre debates, que queira conhecer e aprender, é uma sociedade que crescerá e evoluirá a passos largos para um local melhor e unitário.

Tendo em conta a tua Especialização em Cinema, quais são as obras que mais te marcaram de um ponto de vista artístico e quais são aquelas que não tens qualquer interesse em rever?

R: Dentro do cinema, sou fascinado pelos filmes do cineasta Andrei Tarkovsky, ao qual já dediquei uns trabalhos. Fora os guilty pleasures, gosto de cinema que explore as diferentes facetas da condição humana, de um modo mais poético mas também ridículo, portanto vou de Tarkovsky a Kurosawa, Jean Cocteau, Jonas Mekas até Kusturica. Revejo sempre “O Espelho” (1975) do Tarkovsky, quem sem outra descrição possível, é das obras mais bonitas que já vi. Por outro lado, Kusturica despertou outro interesse em mim, especialmente “O Tempo dos Ciganos” (1988).

Fora do cinema comum, tornei-me extremamente interessado no trabalho do Jonas Mekas. O trabalho é de uma beleza familiar, coloca-nos num lugar de espectador ativo que revive as memórias de outrem. No meio da videoarte, sou fascinado pelo trabalho do Nam June Paik, em especial a obra “Electronic Moon No. 2” (1969, feito em colaboração com Jud Yalkut). “Electronic Moon No. 2” é uma obra que (me) toca levemente sobre o subconsciente, desperta estados de espírito e memórias.

Mauro Santos

Entre 2018 e 2019 fundaste e editaste a revista Andromeda. Quais foram os objetivos gerais que pretendias atingir? Haverá a possibilidade de a revista voltar a ver a luz do dia?

R: A Andromeda surgiu de uma necessidade de criar espaço e visibilidade para jovens artistas. O projeto foi iniciado por mim e pela Cristiana Figueiredo e serviu essencialmente como um exercício-projeto de curadoria, de design, de comunicação e até negócio. A melhor parte, para mim, foi conhecer novas e diferentes personalidades da vanguarda artística, pessoas extremamente interessantes com trabalhos e projetos igualmente interessantes. Talvez essa parte tenha sido a mais importante, o relacionamento e aproximação com artistas e obras, dá-nos outra perspetiva (mais pessoal) sobre os mesmos.

A revista tornou-se importante para nós, editores, para entrar em contacto como o meio da arte e os seus agentes mas infelizmente o projeto teve de parar por motivos externos. Não diria que a Andromeda renasça, mas estas experiências servem de motor a possíveis futuros projetos, quem sabe, semelhantes.

Relativamente ao evento TEMPORAL, qual foi a origem do projeto e quais são as ambições para o futuro, tendo em conta que já vai na segunda edição? Está para breve uma terceira edição?

R: Muito à semelhança da revista Andromeda, o evento TEMPORAL nasceu através da consciencialização da falta de espaço e acessibilidade dos jovens artistas a lugares para mostrar o seu trabalho. Organizado por mim, pela Cristiana Figueiredo e pela Ana Durão, o TEMPORAL é, em certa medida, uma espécie de fenómeno inovador e experimental que procurou estabelecer-se como um evento de arte versátil e multidisciplinar. Dentro das duas edições foram programadas feiras de arte, exposições, mesas de publicações (autorais e independentes), concertos, mostras de curtas-metragens, performances e, essencialmente, um ambiente de convívio e partilha de ideias sobre arte e cultura.

Dadas as circunstancias sociais, não foi possível desenvolver novos planos para o ano de 2020. A última edição ocorreu em outubro de 2019, deixando uma grande vontade de promover novas edições, assim, falta à equipa reunir e decidir o futuro do TEMPORAL. É da minha vontade e do meu agrado imediato organizar uma terceira edição do evento, pois é algo que me move enquanto amante da arte e da cultura.

TEMPORAL

Assumindo que tempo e dinheiro não eram preocupações, quais seriam os sonhos que mais desejavas que se concretizassem?

R: Uma grande ambição minha é fazer direção de arte e curadoria para as fundações nacionais e internacionais de arte contemporânea. Ou seja, colocar a minha perspetiva e metodologia de investigação de mãos dadas com o trabalho museológico. Porém, existem outros sonhos que só tempo e dinheiro os poderiam tornar numa realidade.

Um deles é criar e financiar uma coleção de arte contemporânea nacional e internacional – para documentar e criar espaços para os artistas da minha e posteriores gerações. Outro sonho é, obviamente, conhecer (meio) mundo e as diversas e divergentes culturas e modelos sociais. Num horizonte mais longínquo, seria importantíssimo para mim criar um espaço museológico/instituto de investimento em pesquisa, investigação e criação que suportasse os campos das artes e da cultura, da tecnologia e da ciência a nível internacional.

Contactos disponíveis

E-mail: mauro.santosg@gmail.com

IG: @maurosanttos

Bernardo Freire

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