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Porque A Arte Somos Nós

O que é um livro clássico? É um livro que perpassa os tempos e se mantém atual, com um enredo verossímil e que pode muito bem ser adequado aos nossos dias. Este é o caso de “Almas Mortas”, do escritor russo Nicolai Vasilievich Gogol (1809-1852). Neste romance, somos apresentados a Pável Ivánovitch Tchítchicov, homem forasteiro que chega numa determinada aldeia com o firme propósito de comprar almas mortas. Ele vem acompanhado de seus dois serviçais: Selifan e Petruchka, um porcalhão que fede a suor. Mas o que seriam esses estranhos “produtos”, as almas mortas?

Seriam camponeses já falecidos, mas os seus patrões não haviam ainda dado baixa com a devida certidão de óbito, sendo que o recenseamento não atualizado obrigava-os a pagarem ainda impostos. Portanto, a intenção do comprador coaduna com a necessidade do vendedor, e é aí que se iniciam as tratativas para a transferência deste inusitado bem.

Gogol é um escritor interessante. No meio da narrativa ficcional, dá o seu depoimento irónico sobre os factos e não foram poucas as vezes em que me peguei gargalhando com algumas das suas explicações. E à medida em que somos apresentados a personagens bem caricatos (Sobakêvitch, Koróbotchka, Manílov, Nastácia Petrovna, Tentiêtnikov, Pietukh, Constantin Fiódorovitch) que, passados quase 200 anos da sua construção, observamos com nitidez traços de personalidades interesseiras ainda nos dias de hoje.

Destaques para o viciado em jogo e apostas Nozdríov, que não perde uma oportunidade para chamar os seus interlocutores para uma fezinha. Quando li este personagem, remeteu-me ao meu personagem de “A Queda“, Hamilton, sempre às voltas com os seus volantes da Loteca. Já Pliúchkin é um avarento de mão cheia, destes de não comer a banana para não deitar a casca fora.

“A Queda”, Marcelo Pereira Rodrigues

E Tchítchicov é apresentado à nata da sociedade local, no baile que apresenta todo o jogo de confettis dos ditos importantes da cidade. Nada muito longe das nossas atuais cómicas colunas sociais, onde “os Pires, Albuquerque, Bragança & Cavalcanti” desfilam as suas grandiloquentes desimportâncias. Cito um trecho: “Seu aparecimento no baile causou extraordinária comoção. Todos os presentes voltaram-se ao encontro dele, este com as cartas na mão, aqueloutro no ponto mais interessante da conversa, cortando a frase quando estava dizendo: ‘… porém o Tribunal Rural respondeu a isso em primeira instância que… ‘ Mas o que o Tribunal Rural respondeu, isto ele já deixou de lado, apressando-se a correr ao encontro do nosso herói a fim de saudá-lo.

‘Pável Ivánovitch! Ah, meu Deus do céu, é Pável Ivánovitch! Querido Pável Ivánovitch! Estimadíssimo Pável Ivánovitch! Pável Ivánovitch de minha alma! Mas o senhor está aqui, Pável Ivánovitch! Aqui está ele, o nosso Pável Ivánovitch! Permita-me um abraço, Pável Ivánovitch! Mas deixem-me chegar perto dele, quero beijá-lo, o meu queridíssimo Pável Ivánovitch!’ E Tchítchicov sentiu-se abraçado por vários lados simultaneamente. Mal teve tempo de se desvencilhar dos braços do presidente, quando já se viu nos braços do chefe de polícia; o chefe de polícia passou-o para o inspetor do serviço médico; o inspetor do serviço médico para o arrendatário, o arrendatário para o arquiteto…

O governador, que naquele momento estava com as senhoras, com um bilhete de sorteio numa das mãos e um cãozinho fraldeiro na outra, avistando-o, jogou ao chão o bilhete e o fraldeiro: o cachorrinho só pôde ganir. Em suma, a sua chegada esparramou satisfação e alegria extraordinárias“.

À medida em que vão ocorrendo as transações, somos apresentados ao caráter dúbio do seu protagonista. Ao mesmo tempo em que se apresenta com ares de fidalgo, a sua moral é torta sempre no intuito de ganhar dinheiro em cima dos outros, trapaceando com uma elegância envolvente. E foi essa a grande sacada do livro, pelo menos para mim: torci pelo protagonista, mesmo ele sendo de uma moral meio torta. Isso pois ele não é mais culpado do que as pessoas com as quais negocia, algumas bastantes interesseiras e prontas a darem tombos no Estado.

Nikolai Gogol

Inevitável aludirmos à grandeza territorial da Rússia (ontem e hoje), onde alguns rincões ficam extremamente longe da capital. Aqui e acolá observa-se a ineficiência dos funcionários públicos, sempre à espera de subornos para realizarem os seus respectivos trabalhos. Se pensarmos nos poucos meios de transporte no começo do século XIX, percebemos que as aldeias se mantinham presas à federação mais por tradição, pois até a aplicação da legislação era complicada naquele período.

Romance que atesta uma época específica, com todos os seus vícios e virtudes, “Almas Mortas” foi um livro que me deixou extasiado, com um caldo literário muito rico e nada maçante, ainda mais que me fez rir bastante, como atestado nas primeiras linhas deste. Mas o que aconteceu com o nosso anti-herói? Deixo-lhes a dica para lerem o romance e obterem a resposta.

O livro só tem um senão. Trata-se de uma obra inacabada, pois o autor morreu sem tê-la concluída. A edição que li foi a da Abril Cultural de 1972 e ficava chateado todas as vezes que a sequência da narrativa era quebrada com as notas de rodapé indicando descontinuidade. Mas isso mais pela parte final do livro. Tirando esse porém, que nada compromete a verve do autor, afinal, sempre seremos surpreendidos pela Morte, não é mesmo?!, mas o certo é que a mensagem fica bem explícita e nas 449 páginas que li, só pude sentir prazer infindo. Mais que recomendo este livro!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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