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Porque A Arte Somos Nós

Clã Wagner” (em português), da realizadora Christiane Balthasar, e com a participação de Heino Ferch, Iris Berben, Justus Von Dohnányi, Petra Schmidt-Schaller e Vladimir Burlakov, é um filme alemão de 2013, mais propriamente um drama que narra a vida da família do compositor Richard Wagner, que em 1883, em Veneza, veio a falecer. Esta obra é baseada em factos reais. Wagner (1813-1883) era o compositor por excelência na Alemanha, muito famoso e que sempre recebeu as benesses do Estado, que viam nele o ponto forte da cultura teutónica e assim o músico teve abonada existência.

O filme em questão, inicia-se com um tour aéreo pela “Sereníssima” até culminar na mansão em que o compositor sofre um ataque fulminante, sendo amparado pela esposa Cosima von Bulow, uma mulher forte, segura e fria que tem em mente a imortalidade do nome Wagner, sabedora que é do seu legado. Os filhos do casal, Isolda, Eva e Siegfried, vêem a cena trágica e logo são advertidos de que deveriam ter postura e manterem a todo o custo o legado do pai.

Petra Schmidt-Schaller, Iris Berben e Felix Klare

O filme dá um corte para 1900, nas festividades de ano novo, e na mansão da família na Alemanha apresenta-nos uma Cosima mais fria que um iceberg. Negoceia os casamentos das filhas, sendo que suas exigências eram simples: ou o pretendente tinha que ser rico, possuir um título de nobreza ou ser famoso.

Negocia a filha com um escritor britânico defensor da supremacia das raças, Houston Stewart Chamberlain (brilhantemente interpretado por Heino Ferch) que havia vendido 30 mil exemplares do seu livro e que, ao fazer o pedido formal de casamento a Eva (uma vez que Isolda o rejeitara) aumenta para 40 mil, e engole a insurgência da filha mais velha, Isolda (interpretada por Petra Schmidt-Schaller) que se casa com um regente sem títulos, interpretado pelo competente Felix Klare.

Siegfried, instado o tempo todo pela mãe a reger uma orquestra, fá-lo forçado, uma vez que o seu grande apreço pela arte é a pintura. Homossexual enrustido, tem um tórrido caso de amor, chama a atenção e levanta suspeitas pelo facto de não ter desposado ninguém ainda. Cosima continua a ser a mãe super protetora e omnipresente. Para críticos politicamente corretos e que não compreendem o espírito da época, adianto que o anti-semitismo é corriqueiro na família Wagner, notadamente pela mulher que se entende superior a tudo e a todos.

Heino Ferch e Eva Loebau

Obviamente a música irá permear todo o filme, com os conflitos pelo protagonismo daquele que irá reger e dar sequência ao famoso Festival Wagner. Óperas belíssimas, teatros lotados, fama e reconhecimento parecem acompanhar o clã, mas sempre em troca de conflitos familiares, revelações surpreendentes e nas reminiscências apresenta-nos um Richard Wagner impregnado de soberba e da visão que tinha de si mesmo, a de que era um Super Homem.

Adúltero contumaz, ao ser pego em flagrante sempre se saía com a desculpa de que, como um homem forte, necessitava de amores extras, notadamente com as mais jovens. A dizer que Wagner deve ter levado muito a sério as ideias de Friedrich Nietzsche (1844-1900), de quem foi amigo, sendo que o filósofo rompeu com ele uma vez que percebeu que se estava a apaixonar por Cosima e desse triângulo amoroso só iria sair machucado, como aconteceu de facto. A arrogância do compositor era demais até para Nietzsche.

Um filme que nos proporciona bastantes reflexões, acabando em 1930 com a visita de Adolf Hitler ao clã, mas não vemos a sua figura, apenas uma sombra por trás da porta. Um convite a ouvirmos o legado do compositor, e que se perdoe o homem, mas o músico é genial. Ouvir Wagner é aventurar-se pelas grandes sagas trágicas da História da Humanidade, com a sua tríade música – pintura – teatro e as apresentações foram sempre bastante concorridas. Pungente é o adjetivo que melhor qualifica este filme. A música de Wagner não permitiria menos que isso…

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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