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Porque A Arte Somos Nós

Em Dezembro de 1996 os Delfins editaram o seu sexto trabalho de estúdio e sabiam muito bem de onde vinham e para onde queriam ir. Após lançarem alguns trabalhos de carácter algo conceptual, como foi o caso de “Ser Maior – Uma História Natural” (1993), a banda decidiu trilhar um caminho mais pop(ular), sabendo de antemão as consequências que daí advinham. Foi, com toda a certeza, o momento alto da sua existência, uma vez que nenhum outro trabalho traria tão grande dividendo à banda como este!

Não seria fácil combater o sucesso do álbum “O Caminho da Felicidade”, um dos trabalhos mais vendidos da banda. Na busca de horizontes mais alargados, os Delfins optam neste trabalho por uma sonoridade que procura conquistar públicos fora de portas. Nesse sentido, as colaborações da banda com músicos brasileiros e africanos justificam em pleno o nome do álbum, “Saber A Mar”, um mar de união de sonoridades dos três continentes. Curiosamente, o nome do álbum é uma analogia com o tema da banda brasileira Paralamas do Sucesso, Saber Amar, da qual os Delfins fariam uma versão editada neste trabalho.

A maioria dos temas do álbum são escritos por Miguel Ângelo com música de Fernando Cunha, que também produziu. As exceções são Haja o Que Houver e Através da Multidão que são da autoria de Pedro Ayres Magalhães e Saber Amar que, como já referi, é de autoria dos Paralamas do Sucesso. Para além disso, contam com a colaboração de Paulinho Moska no tema Através da Multidão, Roberto Frejat (Barão Vermelho) em A Primeira Vez, Gabriel (O Pensador) em Soltem os Prisioneiros e um coro Zulo no tema Estou ao Teu Lado. Para além disso, contaram também com a colaboração da secção de metais do músico brasileiro Djavan.

Miguel Ângelo ao vivo em 1996

A sonoridade deste trabalho é toda ela muito homogénea, revelando um recurso a sintetizadores e caixas de ritmos que não se tinha visto até então, não pondo, ainda assim, em causa a qualidade rítmica que a banda já demonstrara até aí. Os temas transversais a todo o álbum são o amor e o valor das relações interpessoais que nos unem. Não querendo desvalorizar nenhum dos dez temas que compõem este trabalho, destaco Haja o Que Houver, tema partilhado com os Madredeus de Pedro Ayres Magalhães, e que imprime um ritmo bastante mais vivo que a versão cantada por Teresa Salgueiro.

Saber Amar é também uma versão muito bem conseguida pelos Delfins e que faz jus ao título do álbum. Também A Cor Azul é um tema forte que imprime um ritmo muito vivo e uma mensagem muito interessante à volta da cor que mais nos rodeia no céu e na terra. Finalmente, não é possível deixar de destacar a excelente versão de Soltem os Prisioneiros (Navegar é Preciso) com a inigualável colaboração de Gabriel, O Pensador.

Delfins

Em suma, trata-se de um trabalho de referência na carreira da banda liderada por Miguel Ângelo, secundado por Fernando Cunha, Rui Fadigas, Luís Sampaio, Jorge Quadros e a incomparável Dora Fidalgo que valoriza, de que maneira, o som da banda com a sua excelente voz.

Na sua existência de 25 anos, os Delfins habituaram-nos a um grande rigor e qualidade nos trabalhos que apresentaram, e este álbum não constitui exceção, tendo embalado a banda para um conjunto de apresentações ao vivo que se estenderam por vários continentes, festivais e estádios, permitindo à banda consolidar um lugar firme na história da música portuguesa. Resta-nos aguardar pacientemente o regresso agendado para o corrente ano, onde a banda pretende festejar os 35 anos de existência com a tour “Celebração”, e onde não faltarão certamente temas deste trabalho.

Bons sons.

Jorge Gameiro

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