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Porque A Arte Somos Nós

“Outra coisa sobre ser um compositor, é que quando você percebe que é um, começa a se tornar um observador, começa a se distanciar. Você está constantemente alerta. Essa habilidade se desenvolve ao longo dos anos, observar as pessoas, como reagem umas às outras. O que, de certa forma, o distancia de maneira esquisita. Você não devia realmente estar fazendo isso. É um pouco como Peeping Tom ser um compositor. Você começa a olhar em volta, e tudo é tema para uma canção.”

– Keith Richards, in “Life”

Bastidores: escrevo este texto ouvindo os Rolling Stones. Geralmente a escrita exige silêncio e concentração total, mas neste texto específico irei tentar me energizar com o ritmo dançante desta mega banda inglesa e que ganhou o merecido status de uma das bandas mundiais de rock.

Conheci os Stones tardiamente. Aos 24 anos, assisti a um trecho de concerto pela televisão. Era um sábado e eu ia sair para curtir a vida numa danceteria. Fui dançar inspirado. Naquele dia, vi o guitarrista e se vale aquela ideia de que a primeira impressão conta bastante, pensei: “Esse sujeito todo retorcido e com as pernas finas tem cara de ser muito gente fina”.

Agora mais recentemente, já estava acompanhando um pouco a banda e como gosto do género biografia, comprei “Life” (“Vida” em português), de quem? Ele mesmo: Keith Richards. Em coautoria com o jornalista norte-americano James Fox. Aqui cabe um comentário: aposto que a dobradinha se deu com o guitarrista concedendo o depoimento e Fox transcrevendo. O saldo foi interessantíssimo. Não sou um leitor que adere às novidades rapidamente. Quase sempre compro muitos livros e só vou lê-los tempos depois. Este adquiri em 19 de maio de 2011 e somente agora terminei a leitura, dedicando dez dias para esse deleite.

Keith Richards

A sinceridade permeia a obra. Incrível analisar a linha do tempo de uma banda tão longeva, e quase sempre observamos a pouca pretensão inicial. Um casamento artístico entre o guitarrista e o vocalista Mick Jagger, numa parceria que suplanta tudo o mais que se possa esperar de uma amizade, irmandade etc., inclusive com os conflitos e algumas rupturas, sendo que as crises de egos povoaram os bastidores dos Rolling Stones.

Keith solta o verbo e não poupa Mick Jagger: aventa que ele tem o pénis pequeno, que é afetado e que sofre de crises de estrelismos e que é dominador na direção dos negócios, dando a entender até certa desonestidade. Um dos apelidos mais singelos ao vocalista é “jararaca”. Confessa que ria, com os outros componentes da banda, dos trejeitos afetados de Mick que tomava aulas para rebolar de forma diferente, perdendo assim a originalidade.

Mas, por incrível que pareça, observei amor nessas críticas todas. E até porque devemos ser imparciais e, o mais justo, seria aguardarmos uma biografia de Mick Jagger expondo a versão dele dos fatos. Sei que existe uma, mas não li ainda Mick: “A Vida Louca e Selvagem de Jagger“.

Acerca das drogas, vale uma sentença engraçada de Keith: “Nunca tive problemas com as drogas. Tive problemas com a polícia“. Ao longo da sua carreira, viciou-se em cocaína, heroína e no período de desintoxicação, quase subiu pelas paredes, devido à abstinência. Fumou, cheirou e injetou tudo que se possa imaginar para dar um barato.

A aparência ficou um tanto afetada, com as chagas no seu expressivo rosto, mas quando o sujeito sobe ao palco, junto ao elétrico Jagger, Ron Wood (o outro guitarrista) e Charlie Watts (o sisudo, eficiente e técnico baterista), aí o público sente a química explodir em um rejuvenescimento incrível. Não sou muito adepto de modismos de hits, mas tente ficar parado num show ouvindo I Can’t Get No (Satisfaction). Se conseguir, pode ter certeza: você está morto.

The Glimmer Twins (Richards e Jagger)
O guitarrista ao vivo com os Rolling Stones

O sujeito família aventado no título de mostra no amor incondicional aos pais (Doris e Bert), às suas mulheres beldades, sendo que inclusive Mick lhe “roubou” uma dessas mulheres, as loucuras tragicómicas com Anita, até o enlace definitivo com a linda louraça Patti e os filhos, netos etc. Um sujeito incrível que parece não afetado pelo glamour e fama, dando a impressão de que só se preocupa em tirar um belo som da sua guitarra.

Mesmo sem ter a pretensão de ensinar algo, “Life”, com as suas 630 páginas, nos ensina que às vezes devemos administrar os nossos egos a um trabalho coletivo. E fazendo uma analogia um tanto grosseira, que a própria existência do OBarrete seja a excelência de bons escritores, e que cada qual toque bem o seu instrumento e que o conjunto se sobressaia, para que o conjunto de todos nós faça acontecer belíssimos concertos literários.

Outra analogia que fiz e ri bastante foi: o editor do OBarrete elogiou a minha facilidade de produção. Keith fez várias músicas e parece compreender que o melhor de um músico é compor e tocar. Pois bem, eu sou um escritor e devo escrever, este é o meu ofício. É o melhor que sei fazer.

Seguindo a ideia de que nunca se é tarde para aprender, baixei todos os discos dos Rolling Stones e estou viajando nas canções. Vez ou outra, retornarei a biografia do Keith para rir em algumas passagens.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

One thought on ““Life”: A adorável vida de um roqueiro pai de família

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